Abstenção. De facto o número de votantes aumentou

A abstenção em território nacional passou de 65,34% (em 2014) para 64,88% (ontem). Ou seja: de facto diminuiu. Nos números globais aumenta porque 99% dos emigrantes portugueses no estrangeiro não votam.

A comparação entre os números de eleitores inscritos e de votantes nas eleições europeias deste domingo, em território nacional, com os de 2014 mostram uma redução de 0,66% na abstenção.

Segundo os dados oficiais do Ministério da Administração Interna, quando a votação final das eleições de domingo ainda está pendente dos resultados de sete consulados no estrangeiro, é possível comparar os números finais relativos ao território nacional - onde a abstenção foi de 64,68%, menos 0,66% que os 65,34% registados em 2014.

No território nacional votaram este ano 3 300 415 dos 9 344 498 eleitores inscritos quando, em 2014, foram às urnas 3 278 481 dos 9 457 671 inscritos. Com o nível da abstenção a nível europeu a recuar quase oito pontos percentuais entre as eleições de 2014 e as deste ano, a votação dos portugueses em território nacional acaba assim por refletir - embora de forma muito ténue - a maior participação europeia nestas eleições.

Em termos percentuais globais, as eleições em Portugal registaram um aumento da abstenção - 68,63% este ano, mais de dois pontos percentuais face aos 66,09% de há cinco anos - que decorre, diretamente, do aumento no número de inscritos no estrangeiro: 244,9 mil em 2014 para 1,4 milhões em 2019.

"Votou mais gente. Contudo, como o universo mudou, passando de 9,682 milhões para 10,560 milhões [de eleitores], a abstenção oficial aumentou de 66,1% para 68,6%", observa ao DN o cientista político Pedro Magalhães, do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

No caso específico do território nacional, o cientista político destaca que mesmo a "discrepância entre eleitores recenseados e os adultos que realmente se julga residirem no território" - leia-se residentes com 18 ou mais anos de idade - resulta este ano numa abstenção semelhante aos "cerca de 60% de 2014: "Não creio que seja diferente em 2019."

Agora, "será difícil diminuir a abstenção oficial daqui para a frente se não se adotarem formas de votar que simplifiquem a vida a quem vive no estrangeiro, em vez de os obrigarem a deslocarem-se a locais de voto", avisa Pedro Magalhães, embora confiante em que "o voto postal previsto para as legislativas [de outubro] ajudará".

"Vamos ver quanto", acrescenta, à cautela, aquele especialista em sondagens.

Bernardo Pires de Lima, analista político e colunista do DN, entende que a "forma excessivamente clássica e pouco imaginativa" como os partidos em Portugal fazem campanha eleitoral ajuda a explicar os altos níveis de abstenção.

"É motivo de desinteresse para as pessoas" e, em especial "para a geração sub-30 [anos], não diz nada. Isso pode explicar porque é que o PAN, sem mediatismo, consegue chegar a essas pessoas" jovens e urbanas, refere Pires de Lima.

Outro aspeto que Bernardo Pires de Lima destaca é o da "série de paradoxos" entre a realidade política portuguesa e a dos outros países da União, desde logo porque "os nomes não jogam com os enquadramentos europeus".

"Temos um PSD que é liberal conservador" em termos europeus, "um PS que é social-democrata", um "partido de centro que é conservador [o CDS-PP]... temos umas singularidades que não fazem convergir os programas políticos com os nomes dos partidos", observa o analista.

Em termos europeus, António Costa Pinto, do ICS, assinala ao DN que a diminuição ou aumento da abstenção "remete para fatores de ordem nacional e não para temas europeus" como, por exemplo, são o das alterações climáticas ou o crescimento da extrema-direita.

"A grande votação no Fidetz [partido do primeiro-ministro Viktor Orbán] na Hungria não se explica por questões europeias", exemplifica o politólogo, embora "a polarização em França" esteja mais associada a esses temas.

"A dinâmica italiana ou o crescimento do [espanhol] Vox" são outros casos em que o peso dos fatores nacionais influencia decisivamente os resultados eleitorais para o Parlamento Europeu, acrescenta Costa Pinto.

Abstenção europeia

Pela primeira vez nos últimos 20 anos, a abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu ficou abaixo dos 50% devido ao recuo de quase oito pontos percentuais face a 2014.

Sendo agora de 49,06%, a abstenção tinha sido de 57,39% em 2014, de 57,03% em 2009, de 54,53% em 2004 e 50,49% em 1999.

Até prova em contrário, António Costa Pinto mostra reservas quanto a uma inversão sustentada nos índices de abstenção das próximas votações para o Parlamento Europeu. "Fatores como a coincidência de eleições europeias com eleições regionais, como agora em Espanha, podem explicar um pouco a diminuição da abstenção, mas é difícil tirar daí" ilações para o futuro.

"As eleições europeias não deixaram de ser eleições de segunda ordem" para os eleitorados nacionais, argumenta o professor do ICS.

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