Marcelo apela a grevistas: "Respeitem os que podem sofrer as consequências dos meios de luta"

Num ano marcado por três eleições, a mensagem de Ano Novo do Presidente da República é um apelo à moderação e ao bom senso dos portugueses e dos partidos. E Marcelo pede "mais": economia forte, sociedade justa e políticos confiáveis.

"Simples, mas exigente." É assim, numa aparente contradição, que o Presidente da República desafia o país a olhar para o futuro, num ano marcado por três eleições, europeias, legislativas e regionais da Madeira. Aos portugueses pede que "não se demitam de um direito" de votar para não darem "mais poder a outros do que devem ter". Aos partidos, sem os mencionar ou fazer qualquer alusão ao governo, incentiva a debater tudo, mas sem criarem "feridas desnecessárias e complicadas de sarar".

E porque a contestação social cresceu nos últimos meses do ano já passado e promete prosseguir neste, Marcelo Rebelo de Sousa admite que a manifestação, a greve são formas de chamar a atenção dos eleitos, mas apela a que "respeitem sempre os outros, os que de vós discordam e os que podem sofrer as consequências dos meios de luta". Na mira do Chefe do Estado as lutas de professores, enfermeiros e outras que por aí venham de funcionários do Estado.

"Pensem como demorou tempo e foi custoso pôr de pé uma democracia e como é fácil destruí-la, com arrogâncias intoleráveis, promessas impossíveis, apelos sem realismo, radicalismos temerários, riscos indesejáveis"

Aos candidatos, e haverá muitos neste 2019, Marcelo insta a "analisarem com cuidado o percurso passado" e a assumirem o "compromisso de não desiludir" os eleitores. "Pensem como demorou tempo e foi custoso pôr de pé uma democracia e como é fácil destruí-la, com arrogâncias intoleráveis, promessas impossíveis, apelos sem realismo, radicalismos temerários, riscos indesejáveis".

Economia robusta, fim da pobreza e transparência

Na linha do que é simples, mas difícil, o Presidente assinala em três pontos quais devem ser os desígnios nacionais no próximos tempos. Marcelo diz que é preciso ter "ambição" de tornar não só a economia robusta, à prova de qualquer crise que nos chegue, como a de a aproximar das mais dinâmicas da Europa; e ainda conseguir "ultrapassar a condenação de um em cada cinco portugueses à pobreza", tal como a "fatalidade de termos 'portugais' a ritmos diferentes". Remata com o desejo de "mais credibilidade, transparência e verdade às instituições políticas".

Já antes tinha lembrado que "é preciso olhar para mais longe e mais fundo" e que os "princípios e valores aprendidos em novecentos anos de História" do país é que valem.

"Podemos e devemos ter a ambição de ultrapassar a condenação de um de cada cinco portugueses à pobreza e à fatlidade de termos Portugais a ritmos diferentes, com horizontes desiguais"

"Será pedir muito a todos nós, neste ano de 2019?" - Marcelo deixa a pergunta no ar. Mas com a resposta do Presidente que garante que estará vigilante para que nenhum esforço seja desperdiçado e nenhuma voz ignorada. "Quem venceu crises e delas saiu, com coragem e visão é, certamente, capaz de converter esse esforço de uma década num caminho mobilizador e consistente de futuro".

Logo no início da mensagem de Ano Novo, Marcelo tinha saudado os emigrantes e as forças de segurança e militares que estão fora ao serviço da paz e dos direitos humanos.

E recordado que os tempos são difíceis, em particular para a Europa com a partida do Reino Unido, a desaceleração da economia, e onde se veem crescer promessas sem democracia e sem pleno direito de igualdade das pessoas.

E no dia em que esteve na tomada de posse de Jair Bolsonaro, que muitos temem que volte a instaurar uma ditadura no Brasil, Marcelo disse a seguinte frase: "Não há ditadura, mesmo a mais sedutora, que substitua a democracia, mesmo a mais imperfeita."

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?