Incompatibilidades: a Europa que impede PS e BE de casarem

Programa que bloquistas defendem "é incompatível com o Tratado Orçamental". E Eurogrupo e Bruxelas "têm programa político" que impede aumentos de salários e revisão de leis laborais, acusaram Marisa Matias e Luís Fazenda

É a Europa que mais cava um fosso entre Bloco de Esquerda e o PS, sublinharam à vez Marisa Matias e Luís Fazenda, na XI Convenção do partido, que decorre este fim de semana em Lisboa.

Para a deputada no Parlamento Europeu, o programa que os bloquistas defendem "é incompatível com o Tratado Orçamental", para o antigo deputado na Assembleia da República, "o Eurogrupo e a Comissão Europeia têm um programa político" que impede os aumentos dos salários e a revisão das leis laborais.

Segundo Marisa Matias, "o Bloco parte para um novo ciclo político um programa para a soberania que assenta em cinco eixos estratégicos", que passam pela recuperação dos direitos do trabalho, pela refundação dos serviços públicos, pela estratégia de reconversão e descarbonização da economia, pela elevação dos níveis de investimento público para os de valores anteriores à crise financeira e pelo crescimento da soberania alimentar.

"Este programa para a soberania", avisou a eurodeputada, que foi este sábado proposta para voltar a ser cabeça de lista às eleições europeias de 2019, "é incompatível com o Tratado Orçamental".

Marisa Matias apontou às conquistas dos últimos três anos um retrato menos cor-de-rosa. "Ao longos dos últimos três anos assistimos ao fim de um mito tão velho quanto a nossa democracia: o mito do arco da governação. Pela primeira vez na sua história, o PS viu-se obrigado a dialogar e a procurar um entendimento com uma esquerda que tinha saído reforçada nas urnas", sublinhou a deputada em Bruxelas.

"A esquerda, com plena consciência das limitações de uma solução política dessa natureza, esteve à altura da sua responsabilidade"

O tempo era o da geringonça - só podia ser. "A esquerda, com plena consciência das limitações de uma solução política dessa natureza, esteve à altura da sua responsabilidade", atirou. "Negociou e fez acordos, mas não foi ingénua e não entrou no Governo."

Se antes não existiu uma "solução como esta" foi por que não houve "vontade do PS" e faltou "força" à "esquerda", sendo por isso a "relação de forças fundamental". "Não irei fazer retratos cor-de-rosa. Sabemos que a simples correção das alterações feitas sob a troika, à legislação laboral ficou quase inteiramente por fazer", notou.

O que se fez, justificou Marisa Matias, foi "com a força que as pessoas" lhes deram. Para fazer mais, só se o BE tiver mais votos: "Deem-nos mais força e faremos muito mais", pediu a deputada do Parlamento Europeu.

Também Luís Fazenda, um dos quatro fundadores do partido e antigo deputado bloquista, sublinhou que o "otimismo" do primeiro-ministro em conciliar a reversão da política de rendimentos e o cumprimento das metas orçamentais europeias não tem uma tradução efetiva.

"O Eurogrupo", que é presidido pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, e a Comissão Europeia têm um programa político", apontou, que é sustentado nas "reformas estruturais", que estão sempre a ser defendidas e que impedem os aumentos dos salários e a revisão das leis laborais. "Este programa está parcialmente em vigor no nosso país", assumiu Luís Fazenda, apontando a Concertação Social como o palco em que esse programa ganha tradução legislativa e prática.

António Costa, recordou Luís Fazenda, disse que socialistas e bloquistas eram "bons para ser amigos, mas maus para casar". O fundador do partido não podia estar mais de acordo, confessou: "Para nós não faz sentido casar com o Eurogrupo."

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