Geringonça esteve em risco por causa da TSU

Catarina Martins revela que só por uma vez a atual solução governativa esteve em perigo de acabar. Foi no final de 2016, quando o Governo quis compensar patrões com descida da taxa social única

A geringonça teve um momento em que "esteve em risco" de não chegar ao fim desta legislatura, revelou este domingo a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, no discurso de encerramento da XI Convenção do partido, em Lisboa. E deixou uma certeza: "Habituem-se agora ao Bloco!"

De acordo com Catarina Martins, "só houve um momento em que a legislatura esteve em risco". E esse momento foi identificado como aquele em que o Governo socialista procurou "compensar os patrões" pela subida do salário mínimo nacional com a descida da taxa social única (TSU). Estávamos no final de 2016.

A líder do BE recordou que esse era um ponto de honra do partido e estava inscrito na posição conjunta assinada entre o Bloco e o PS. "Não constará do Programa de Governo qualquer redução da Taxa Social Única das entidades empregadoras", lê-se no texto anexo ao documento.

Aprovada em Concertação Social, como contrapartida à subida do salário mínimo, a descida da TSU para os patrões acabaria chumbada na Assembleia da República em janeiro de 2017, pelo voto conjunto do BE, PCP, PEV e PSD, um chumbo que obrigou o governo a ter de encontrar uma alternativa, que passou então pela redução do Pagamento Especial por Conta (PEC).

Segundo a coordenadora bloquista, esses momentos difíceis e duros acabaram com o recuo do executivo socialista. "Não damos com uma mão para tirar com uma outra", atirou, para defender que os bloquistas conseguiram "o impossível em muitas circunstâncias". E deixou um "aviso": "Habituem-se agora ao Bloco."

Logo no início do discurso, Catarina já tinha deixado um primeiro desabafo. "Negociar com tantos ministros e secretários de Estado é tarefa para ganhar o céu."

A líder bloquista aproveitou também a parte inicial do seu discurso para 'malhar' na direita, que tinha previsto o apocalipse com a atual solução governativa, dizendo que "era impossível" subir salários, aumentar pensões e criar emprego. "Todos sabiam que a economia ia colapsar", antecipavam. "Não foi assim. O diabo não apareceu", atirou, referindo-se a uma frase do antigo líder do PSD, Passos Coelho.

A líder bloquista notou que à direita espera-se por regressar "ao passado em que empobreceram Portugal". "É bom que saibam que já chegámos ao presente", apontou - "Há 3 anos virámos uma página e toda a gente vê o resultado, parámos a sangria."

Durante o discurso que encerrou a XI Convenção dos bloquistas, Catarina Martins apontou cinco "reformas estruturantes" que os bloquistas querem ver implementadas. A primeira é na Saúde, com uma nova Lei de Bases "que deve ser aprovada em 2019" e o fim das parcerias público-privadas: "Não é possível ter um Serviço Nacional de Saúde decente se continuarmos a entregar quatro em cada dez euros a grupos privados".

A segunda reforma é a demografia, e neste capítulo o Bloco de Esquerda defende que a solução tem de passar por melhores condições e vida: melhores salários, salário igual para as mulheres, mais abono de família, livros gratuitos, transportes gratuitos, universalidade do Estado social.

Seguem-se as alterações climáticas, que os bloquistas querem combater, entre outras medidas, ditando o fim das prospeções de petróleo e promovendo o transporte público elétrico.

A quarta reforma estruturante passa pelo sistema de créditos e bens comuns e, neste ponto, Catarina Martins foi clara - o Bloco quer o "controle público" dos setores da banca e da energia.

Por último, a líder do BE quer ver aprovada, até ao final da legislatura, a proposta do partido que está no Parlamento, e que propõe a criação de uma Entidade da Transparência, com competências e meios para fiscalizar os titulares de cargos públicos e para "favorecer o combate contra a corrupção" - "Não pode passar desta legislatura".

"Tivemos força e cumprimos. Teremos mais força e cumpriremos", afirmou a líder bloquista, a rematar. Quanto ao futuro do partido face ao ano eleitoral que aí vem, Catarina Martins resumiu assim: "Alcançaremos a força para ser parte de um governo quando o povo quiser".

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