Europeias. 17 listas com os candidatos a apontar aos temas nacionais

São 17 as forças candidatas às europeias de 26 de maio, mais uma do que em 2014. E há novidades como a Coligação Basta, de André Ventura, o Aliança, de Santana Lopes, o Nós Cidadãos, de Paulo Morais, e ainda a Iniciativa Liberal. O prazo para a entrega das listas no Tribunal Constitucional terminou nesta segunda-feira. Quais são as bandeiras dos principais candidatos? Ou a campanha ficará prisioneira da moção de confiança pedida pelo governo ou da de censura como reivindica a oposição, sem passar pelos temas europeus?

Os cabeças-de-lista ouvidos pelo DN admitem que é impossível fazer campanha para as europeias sem passar pelos temas nacionais, mas todos dizem também que é preciso ir mais além. "O primeiro-ministro, ao dizer que as europeias eram a primeira volta das legislativas, nacionalizou estas eleições e condicionou tudo o resto", afirma Nuno Melo, que lidera a lista do CDS. Marisa Matias, cabeça-de-lista do BE, considera que "estaríamos a enganar-nos" se acharmos que não vai haver contaminação da política nacional, até porque é indissociável da europeia. "Podemos é discutir mais política e menos casos", diz, numa alusão às últimas semanas de polémica sobre as nomeações de familiares para o governo.

João Ferreira, que encabeça a lista da CDU, sublinha igualmente a necessidade de debater os grandes problemas nacionais, sem a "politiquice" do costume. E é com estes que o cabeça-de-lista do PSD, Paulo Rangel, tentará provar que o "governo falhou nas funções essenciais do Estado". Dos principais partidos com assento no Parlamento Europeu, só o candidato do PS, Pedro Marques, não foi possível ouvir.

Mas qual a razão para o PS e o seu líder, António Costa, terem chamado a avaliação ao governo, apelando a uma moção de confiança do eleitorado, para esta campanha às europeias? Fonte da candidatura de Pedro Marques admite que se trata de estratégia política pura e dura. "Os partidos que estão no governo perderam sempre as europeias, se o PS ganhar, mesmo que seja por muito poucochinho, será uma grande vitória. Daí esse apelo ao eleitorado para que julgue o que o governo tem feito."

Caberá à oposição e até aos partidos que apoiam o governo desenredarem-se desta estratégia. Sendo certo que é provável que acabem também por alimentá-la.

PSD e CDS. Moção de censura e propostas

Nuno Melo ataca: "Só a falta de capacidade do cabeça-de-lista do PS para lidar com os temas europeus explica que se fale só de política nacional. E isto num dos momentos mais difíceis da vida União Europeia, numa situação de emergência que não sonhávamos em 2009 e 2014, com a incógnita do Brexit e a reconfiguração político-partidária na Europa, em que os partidos tradicionais estão a ser substituídos pelos extremistas e nacionalistas."

O eurodeputado centrista, que nas anteriores europeias concorreu em coligação com o PSD na lista encabeçada por Paulo Rangel, diz que se esforçará para discutir os problemas europeus, mas não se furtará ao debate nacional. "Se António Costa acha que merece uma moção de confiança, o CDS acha que deve ter uma moção de censura."

O cabeça-de-lista do PSD assume que a maioria dos temas têm uma "dupla face", europeia e nacional. E apesar de ter atacado fortemente o adversário do PS, Paulo Rangel diz querer centrar-se em várias bandeiras durante a campanha eleitoral. A começar pela dos fundos europeus e a sua implicação no investimento público. "Com este governo, Portugal teve o pior investimento público de sempre", afirma, e lembra que foi o próprio ministro das Finanças a admitir numa entrevista ao Financial Times que a página da austeridade afinal não foi virada.

Rangel vai focar-se também na importância da reforma da União Económica e Monetária, para "demonstrar que o governo deu com uma mão e tirou com duas", através do aumento da carga fiscal e das cativações, que afetaram os serviços públicos, como o Serviço Nacional de Saúde e a Proteção Civil. "Para fazer a política de reversões e cumprir o défice, tinha de cortar nalgum lado, foi na Saúde e na Proteção Civil", diz o eurodeputado e vice-presidente do PPE.

Em contrapartida, diz que irá apresentar "propostas positivas", como um programa europeu de luta contra o cancro, em que a Europa está a "anos-luz" do resto do mundo no que diz respeito à investigação e ao tratamento da doença. E ainda a proposta de uma estratégia comum para a natalidade. "O PS quer políticas sociais globais na Europa, mas há Estados que não as querem, até por questões ideológicas", sublinha e acrescenta: "Nós queremos é bandeiras sociais aceites por todos e sem forçar a parte ideológica."

Paulo Rangel garante ainda que se vai bater para que o recente Mecanismo Europeu de Proteção Civil, que também defendeu na Europa, se reforce e passe a uma força europeia de Proteção Civil, cuja sede até poderá ser em Portugal. As alterações climáticas também são uma das prioridades do cabeça-de-lista social-democrata, que ainda tem como bandeira políticas específicas para a juventude.

CDU e BE. Riqueza, trabalhadores e clima

O cabeça-de-lista da CDU rejeita que a campanha das europeias sirva para debater questões menores da política. Na sua sacola só cabem grandes problemas como a questão de como vencer os défices de produção nacional e criar mais riqueza. Vai também trazer a debate a "distribuição de riqueza" e os direitos laborais e sociais, e a falta de investimento nos serviços públicos. "Os condicionalismos do euro comprometeram a necessidade de investimento na saúde, na educação, nos transportes e na habitação."

João Ferreira vai ainda apelar à recuperação do controlo público dos "setores estratégicos" em áreas como a banca, a energia e as telecomunicações. "A ideia-chapéu é a de que o país se liberte da submissão das imposições da UE contrárias ao interesse nacional. Se queremos avançar temos de pôr em causa essas imposições", afirma o candidato ao Parlamento Europeu. E formula o desejo de que o trabalho dos partidos e dos eurodeputados seja feito nesta campanha.

Marisa Matias, a líder da lista do Bloco de Esquerda, também gostava de ver avaliado esse trabalho e bate nos mesmos temas da CDU como os mais importantes para discutir neste pouco mais de um mês até às eleições: o Estado social, os serviços públicos e o emprego. Mas a eurodeputada bloquista considera vital debater as questões do clima.

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