Dois doutorados em Ciência Política à frente das Forças Armadas

O novo ministro da Defesa e o principal chefe militar têm uma carreira académica e profissional ligada às relações internacionais.

As Forças Armadas, que procuram há anos autorização para formar professores doutores sem sucesso, têm a partir desta segunda-feira dois doutores em Ciência Política como principais responsáveis político e militar.

Desde março, com a posse do almirante Silva Ribeiro como Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), que havia uma presença simultânea de dois académicos no sétimo e no sexto andares do edifício do Restelo que acolhe o Ministério da Defesa e o Estado-Maior General, respetivamente - mas o ex-ministro Azeredo Lopes era doutor em Direito.

Agora como doutor em Direito na cúpula da Defesa fica o Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa - que, segundo diz o politólogo António Costa Pinto ao DN, também na área da Defesa "tem exercido o seu mandato com um caráter mais interventivo sob o ponto de vista informal".

Aliás, acrescenta, "com a máxima discrição e sem ter feito grandes declarações como tem sido claramente visível" no caso de Tancos - desde a ida aos paióis uma semana depois do furto, arrastando literalmente o ministro Azeredo Lopes e o chefe do Estado-Maior do Exército, até as repetidas afirmações de que ele e os portugueses precisavam de saber o que se passou, não deixando assim que os militares ficassem mais uma vez sem escrutínio político e judicial.

Oxford e Lisboa

O novo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, é doutorado pela Universidade de Oxford, enquanto Silva Ribeiro - o primeiro oficial general com essa formação a chegar ao topo da hierarquia militar portuguesa - é-o pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa.

Em si, esse facto pode servir como ponte entre os mundos político e castrense que, historicamente, sempre se olharam com desconfiança e desconhecimento sobre a realidade e as circunstâncias em que cada um se move.

Mas se o conhecimento de João Gomes Cravinho sobre as Forças Armadas e respetiva cultura será mínimo, já o almirante Silva Ribeiro tem um entendimento quase perfeito do universo político - sendo mesmo considerado "um ultra-político" por um deputado da Comissão parlamentar de Defesa ouvido pelo DN.

Em termos de Forças Armadas, o currículo académico e o percurso profissional do ministro e do CEMGFA poderão ser particularmente úteis numa área da política externa que o Governo de António Costa está a reestruturar e onde os militares têm um papel de relevo junto dos países africanos lusófonos: a cooperação técnico-militar.

A intenção passa por envolver outras áreas setoriais e países terceiros nessa política de cooperação na área da Defesa e não estritamente militar - de que é exemplo recente o acordo tripartido assinado com Cabo Verde e o Luxemburgo.

Fica por saber que efeito terá o ministro João Gomes Cravinho quanto à velha aspiração das Forças Armadas em concederem o título de doutor através do Instituto Universitário Militar (IUM).

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