Defesa quer major Vasco Brazão como testemunha no caso da morte dos Comandos

O major Vasco Brazão é um dos oito arguidos da 'Operação Húbris', relacionada com o aparecimento das armas furtadas dos paióis de Tancos

Um advogado requereu hoje que o major Vasco Brazão seja ouvido como testemunha no julgamento das mortes no curso de Comandos, uma vez que este oficial da Polícia Judiciária Militar (PJM) foi o inspetor-chefe da investigação deste processo.

O major Vasco Brazão é um dos oito arguidos da 'Operação Húbris', relacionada com o aparecimento das armas furtadas dos paióis de Tancos, e que disse ao juiz de instrução criminal que, em finais de 2017, e já depois da recuperação das armas, deu conhecimento ao ministro da Defesa, juntamente com o então diretor da PJM, da "encenação montada em conjunto com a GNR de Loulé em torno da recuperação as armas furtadas".

Hoje, na quarta sessão do julgamento, que decorre em Lisboa, sobre as mortes dos recrutas Dylan da Silva e Hugo Abreu, em setembro de 2016, durante o 127.º curso de Comandos, Fernando Manuel Ramos, advogado de quatro dos 19 arguidos, requereu ao coletivo de juízes que o major Vasco Brazão, que chefiou esta investigação, seja inquirido na qualidade de testemunha, assim como outros sete militares da PJM.

O coletivo de juízes, presidido por Helena Pinto, deu prazo para que os restantes advogados e o procurador do Ministério Público (MP) José Nisa se pronunciem sobre este requerimento, para depois decidir sobre o mesmo.

Este requerimento surge após o procurador do MP ter requerido, na quarta-feira, a inquirição como testemunha do adjunto de Vasco Brazão nesta investigação, João Bengalinha, que, "por lapso", não consta das 99 testemunhas arroladas no despacho de acusação do MP.

Também na sessão de hoje, Paulo Sternberg, advogado do capitão médico Miguel Domingues apresentou um requerimento para que o tenente-coronel Sousa Pinto, à data dos factos, em 2016, com o posto de major, seja ouvido também como testemunha neste processo, por ser o "responsável pela elaboração/criação dos dois guiões" da 'Prova Zero'.

A presidente do coletivo de juízes pediu então que este oficial abandonasse a sala de audiência, pois é quase certo que venha a ser aceite a sua inquirição como testemunha numa fase posterior do julgamento e que, por essa razão, não podia assistir às sessões de julgamento.

O guião entregue para o 127.º curso de Comandos foi o mesmo utilizado no curso anterior, o 126.º curso, que serviria "de base" para todos os cursos seguintes, segundo o comandante da Companhia de Formação do 127.º curso de Comandos, capitão Rui Passos Monteiro.

Contudo, nos autos do processo existem dois guiões, um dos quais elaborado já durante o 127.º curso.

Hoje prossegue a audição do capitão Rui Passos Monteiro.

Dylan da Silva e Hugo Abreu, à data dos factos ambos com 20 anos, morreram e outros instruendos sofreram lesões graves e tiveram de ser internados durante a denominada 'Prova Zero' (primeira prova do curso de Comandos) do 127.º curso de Comandos, que decorreu na região de Alcochete, distrito de Setúbal, a 04 de setembro de 2016.

Em junho do ano passado, o Ministério Público deduziu acusação contra os 19 militares do Exército, todos do Regimento de Comandos, considerando que os mesmos atuaram com "manifesto desprezo pelas consequências gravosas que provocaram" nos ofendidos.

Os oito oficiais, oito sargentos e três praças, todos militares do Exército do Regimento de Comandos, a maioria instrutores, estão acusados, ao todo, de 539 crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.