Cinzento perdido nos anos 1960 regressa com novas fardas do Exército

O Exército investiu menos de um milhão de euros na investigação e desenvolvimento de novos uniformes por empresas nacionais. Destaque para o camuflado de combate com padrão único, já em uso no Iraque.

Manuel Ribeiro Rodrigues, especialista em uniformes militares e que há anos escreve sobre o tema, considera que a cor cinzenta escolhida pelo Exército para substituir a tradicional farda verde com boina castanha constitui "uma rutura" com o passado.

Isso em si não é negativo, observa ao DN, até porque a adoção das fardas verdes em 1964 também foram uma rutura - curiosamente em sentido contrário, pois o modelo anterior era cinzento. Acresce que os novos uniformes, cujos desenhos constam do respetivo regulamento, "são bonitos" e, segundo os responsáveis do Exército, feitos com materiais adequados às atuais exigências operacionais e de conforto dos militares.

O desconforto de Manuel Rodrigues, que começou a escrever em 1977 para o Jornal do Exército sobre esse assunto e também desenhou (anos 1990) os uniformes da banda do Exército a pedido de um antigo chefe do ramo, o general Gabriel Espírito Santo, resulta do que considera ser a perda de elementos identitários: "Sabe-se que a farda verde com boina castanha é portuguesa", dado ter cores únicas e características das unidades de caçadores, enquanto as novas "parecem alemãs ou austríacas" (pela cor e desenho).

"Regra geral", olha-se para "um "uniforme espanhol, francês, italiano, inglês e sabe-se de que país é por causa de um pormenor... o boné, por exemplo", assinala o autor de livros sobre fardas utilizadas por soldados portugueses em momentos tão diferentes como "A Guerra da Restauração" e a "Guerra Peninsular" (dois volumes, um sobre os de infantaria e outro de cavalaria) ou "As Campanhas Ultramarinas 1961-1974", assim como escreveu o "Álbum de Uniformes de 1764 a 1806" ou sobre os "400 anos da Organização dos Uniformes Militares em Macau".

Soldados mais altos e mais fortes

O fim da farda verde e da boina castanha decorre do novo Regulamento de Uniformes do Exército (RUE), publicado no início de outubro e que começa a ser implementado ainda neste ano na categoria de praças.

Essa opção decorre de os oficiais e sargentos dos quadros permanentes já usarem fardas cinzentas, embora de cor mais clara do que as novas, enquanto as praças só tinham as verdes. O plano de implementação dos novos uniformes prolonga-se por quatro anos e abrangendo sete tipos de uniformes: os de cerimónia (grande uniforme e jaqueta), os de saída (n.º 1), de serviço (n.º 2), o camuflado (de campanha e de guarnição), o de instrução (n.º 4) e o de treino físico (n.º 5).

Segundo o tenente-coronel Simão Sousa, no caso específico dos camuflados (uniforme n.º 3), "não é só uma troca de fardas" porque "faz parte" do chamado Sistema de Combate do Soldado (SCS) - em tempos designado como Soldado do Futuro e que "não foi operacionalizado". Esse programa engloba três áreas: letalidade (armas com sensores e auxiliares de pontaria); sobrevivência (roupa, botas, capacete e colete balísticos, cotoveleiras e joelheiras) mochila, bolsa de primeiros socorros, sistema de hidratação; comando e controlo (aparelhos de visão noturna, de identificação, de comunicações).

O trabalho realizado há anos em matéria de investigação e desenvolvimento para o projeto Soldado do Futuro foi aproveitado nos trabalhos desenvolvidos, ao longo dos últimos três anos, por um consórcio entre o CITEVE (centro tecnológico que liderou o processo), o Exército e empresas do setor têxtil. O ramo, tendo feito um estudo antropométrico das características dos seus soldados que resultou na definição de uma nova tabela de medidas porque "o pessoal era mais alto e mais forte", elaborou o conjunto de requisitos desejados e entregou-os ao CITEVE, para desenvolver e desenhar o novo camuflado de acordo com as necessidades de "conforto e proteção no desempenho de funções operacionais", precisou Simão Sousa.

Note-se que houve outros critérios inerentes à adoção dos novos uniformes, a começar pelo da economia: o facto de o uniforme cinzento que vai substituir a farda verde servir duas funções - representação no exterior (n.º1) e serviço nos quartéis (n.º 2) - consoante se vistam ou não algumas peças de vestuário (casaco, por exemplo), permite uma redução anual de custos na casa do meio milhão de euros com esses dois modelos (e a correspondente redução do número de peças no guarda-roupa dos militares).

Uniformização entre os militares do ramo, acabando com as distinções entre uniformes dos quadros permanentes, dos voluntários e contratados ou dos alunos para reforço do espírito de corpo no Exército, assim como adaptação a homens e mulheres e abrangendo vários tamanhos, foram outros pressupostos da modernização das fardas, referiu a porta-voz do ramo, major Elisabete Silva.

Tendo em conta os custos do camuflado de combate, destinado às forças especiais (comandos, paraquedistas) e de operações especiais (rangers de Lamego), o Exército optou por ter uma versão para utilização nos quartéis - de guarnição - que só se distingue do primeiro por não ter as mesmas características de retardar o fogo, de ter pouca reflexão aos raios infravermelhos, de impermeabilidade ou de repelir insetos.

Os camuflados desenvolvidos entraram depois na fase experimental de fabrico pelas empresas, a que se seguiram os testes de conformidade no CITEVE e de operacionalidade pelos militares. Para este efeito, o Exército escolheu o teatro de operações do Iraque - e a experiência dos três destacamentos traduziu-se num grau de satisfação superior aos 80% para a quase totalidade dos parâmetros. "A nova farda de combate está ao nível da utilizada por qualquer outro país ocidental", onde a grande falha reside nas botas (rigidez, calor). Daí estarem a ser criados três novos protótipos para recomeçar o ciclo até aprovar o que será produzido e distribuído, revelou Simão Sousa.

Uma das fases-chave desse processo correspondeu ao desenvolvimento da nova camuflagem, pois pretendia-se acabar com as duas versões em uso (uma esverdeada para ambientes tropicais e uma bege para o deserto). Daí a criação do camuflado "multiterreno", adaptável a todos os teatros de operações onde os militares portugueses têm atuado desde 1996 - onde o Ártico é a exceção, adiantou Simão Sousa com humor.

O processo de substituição deverá iniciar-se ainda este ano e na categoria de praças, a única que ainda só tem uniformes verdes. No caso dos oficiais e sargentos, os dos quadros permanentes (ao contrário dos voluntários e contratados) já têm fardas cinzentas - num tom mais claro que vai desaparecer - e que podem ser mudadas numa fase posterior.

Veja aqui as capas de alguns livros sobre fardas escritos por Manuel Rodrigues:

Artigo publicado originariamente na edição impressa do DN de 26 de outubro

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