Marisa Matias (ao centro), acompanhada pela coordenadora do BE, Catarina Martins na ação da campanha

eleições europeias 2019

Bloco: "O voto da mulher que limpa o banco vale tanto como o do banqueiro"

Bloquistas com olhos postos no combate à abstenção e na eleição de segundo deputado para o Parlamento Europeu. Afinal, o voto de cada um no domingo vale o mesmo, disse Catarina Martins. DN fez 600 quilómetros com o BE na campanha.

A 48 horas do fim da campanha eleitoral, o Bloco de Esquerda esticou uma linha de Norte a Sul, de Famalicão a Évora, para terminar o dia em Almada, com os olhos postos no combate à abstenção e na eleição de um segundo deputado para o Parlamento Europeu. Afinal, o voto de cada um no domingo vale o mesmo, sublinhou a coordenadora bloquista, Catarina Martins.

"O voto do trabalhador temporário no call center vale exatamente o mesmo que o voto do CEO da Altice, o voto do bolseiro da universidade vale o mesmo que o voto do reitor que não o quer contratar, o voto daquela mulher que se levanta de noite para ir limpar o banco vale tanto como o voto do banqueiro", atirou Catarina Martins, esta quarta-feira à noite, na Incrível Almadense, com o palco ao centro da plateia a encher mais o espaço.

Braga - Famalicão: 24 kms

A noite de terça-feira fechou com um comício em Braga, na manhã de quarta a comitiva bloquista insistiu no Minho e no contacto de rua, com uma ida ao mercado de Famalicão - que não estava programada. Foi José Gusmão, o número 2 da lista do BE, que lembrou à noite, centenas de quilómetros abaixo, que naquela feira "uma pessoa disse que gostava muito de ouvir" a cabeça-de-lista do Bloco, Marisa Matias, "porque quando ela fala, as pessoas percebem, e percebem porque a Marisa fala das vidas delas, porque fala claro e fala sério - e as pessoas dizem que Marisa fala sério porque a Marisa ouve".

A eurodeputada ouviu e contou o que lhe têm dito. "Temos andado pelo país inteiro e não há dia algum que não nos venham falar da banca, dos desvarios para a banca, e das reformas baixas que têm", disse no palco de Almada. Estava dado o mote para um ataque aos Berardos deste país, melhor dito, das "elites parasitárias" financiadas por "uma máquina de acumulação" que é a banca.

"É fácil falar só de Joe Berardo, o charlatão rude", apontou, para dizer que na sua lista há mais Berardos. "Refiro-me a todas as elites que têm usado o nosso dinheiro como se fosse seu e não é." E essas elites "não têm direito à impunidade" porque, lembrou Marisa, "cada vez que correu mal, foi a nós, aos contribuintes, aos trabalhadores, aos pensionistas que vieram buscar o dinheiro".

"Quem pensa que Bruxelas não tem nada a ver com isto, desengane-se", lembrou, para exemplificar de como a União Europeia interveio no Banif. Ou "lembrem-se do escândalo chamado Durão Barroso, que acabou mesmo a trabalhar no pior banco do mundo". Ou "lembrem-se de Juncker, nunca se esqueçam de Juncker, o santo padroeiro dos paraísos fiscais da UE".

Marisa Matias argumentou que só "o BE que confrontou diretamente o PS, o PSD, e o CDS nas suas intenções e nos seus planos obscuros, mais ou menos obscuros, de privatizar os sistemas públicos de Segurança Social a nível europeu". Para deixar uma certeza: "Nós não aceitamos que depois do dinheiro dos contribuintes ser usado para pagar as fraudes do passado, queiram agora usar o dinheiro dos pensionistas para pagar as fraudes do futuro."

Famalicão - Évora: 427 kms

Os elogios a Marisa Matias, a deputada que aguentou sozinha em nome do BE os últimos cinco anos em Bruxelas, sucederam-se por cada um dos oradores que foram ao palco da Incrível Almadense: Joana Mortágua, João Lavinha, José Gusmão, Catarina Martins. Todos pediram o empenho de todos na ida às urnas, todos sublinharam o empenho de Marisa Matias no trabalho como eurodeputada. Só Marisa Matias foi mais longe no apelo do voto - e a verbalizar que quer José Gusmão a seu lado.

Em Évora, no final da tarde desta quarta-feira, Marisa recordou a senhora que se dirigiu ao candidato a deputado: "Ó José Gusmão, deixe lá de ser assessor e seja deputado!" A cabeça-de-lista concordou à noite: "Nós também queremos que o José Gusmão seja deputado. Não por ser deputado mas porque sabemos que vai ser um grande deputado."

Estava fixado um objetivo que as sondagens apontam como possível. "Fomos sentindo que esta campanha está a crescer, está cheia de energia", atirou Marisa Matias. "A única coisa que pedimos às pessoas é que votem pelo vosso lado." Catarina Martins diria também (para além de dizer que o voto de todos é igual) que "as eleições europeias são convosco, com os precários e as precárias". "Queremos uma democracia, e só há democracia quando as pessoas andam de cabeça erguida".

É esta democracia que também acolhe migrantes e refugiados, como aqueles que Marisa encontrou casualmente no final da arruada por Évora: uma equipa do Serviço Jesuíta aos Refugiados de visita à cidade, onde inaugurou um centro, com um estudante sírio, Nour, que veio para Portugal pela plataforma de estudantes apoiada por Jorge Sampaio e que Marisa já tinha conhecido. E a deputada do BE congratulou-se por Nour estar já a finalizar o curso.

Évora - Almada: 125 kms

A coordenadora do BE, Catarina Martins, foi ao mundo do trabalho para lembrar das dificuldades: "Lembrem-se sempre do caminho feito e das dificuldades", exemplificando com as amas da Segurança Social e as tarefeiras do Serviço Nacional de Saúde e da escola pública que viram os seus contratos reconhecidos e a integração na administração. Não é coisa pouca.

Este caminho, argumenta o Bloco de Esquerda, vai contra "a economia do absurdo" que se defende e fala em Bruxelas. No meio do palco, rodeado de militantes e simpatizantes (incluindo um regressado Daniel Oliveira, antigo militante bloquista), José Gusmão sublinhou que era "um prazer" estar naquele "cerco amigável", mas "para falar de outro cerco não tão amigável que é a economia do absurdo, a economia que nos diz que ter contas certas é estar tudo errado".

Essa contabilidade de "contas certas" vs. "contas erradas" mede-se na defesa da escola pública, do Serviço Nacional de Saúde, nos transportes, nos investimentos públicos. O ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, já tinha discursado em Setúbal, a 45,5 kms, no jantar-comício do PS e deve ter ficado com as orelhas a arder. "Esta linguagem do absurdo fala-se muito em Bruxelas", é o "europês", que "não assiste ao Bloco de Esquerda", "não assiste à Marisa Matias, à Catarina Martins".

Catarina Martins também sublinhou que "quem vive na precariedade, vive com medo". E uma criança choramingou na plateia, provocando risos. E Catarina logo atalhou: "E nós estamos a fazer tudo para que não seja o caso."

Almada - Tondela: 276 kms

Em Almada, com o Tejo ao lado, num concelho onde a geringonça não se entende, a vereadora no concelho, deputada e líder da distrital bloquista, Joana Mortágua, atirou-se ao "ministro Pedro Marques", que hoje é o cabeça-de-lista socialista para atacar a falta de investimento público.

Pedro Marques era o ministro que "sabia bem como estava a Transtejo e a Soflusa", uma Transtejo sem barcos e uma Soflusa sem mestres, recordou Joana Mortágua - elogiando a descida do preço dos passes para criticar a falta de investimento nos transportes. Mortágua ironizou que ainda vamos ver Pedro Marques como mestre de um cacilheiro, vertendo alguns versos do Fado do Cacilheiro. "Sou marinheiro/ Deste velho cacilheiro/ Dedicado companheiro/ Pequeno berço do povo."

Mais a sério, disse a própria, a direita também não se livrou das críticas, ao notar que o PSD trouxe Passos Coelho para a campanha e o CDS Paulo Portas. "E é um susto ainda maior Nuno Melo exibir Pedro Mota Soares quando uma senhora lhe diz que a reforma não chega ao fim do mês."

Ao Chico Buarque, prémio Camões, que esteve presente em todos os discursos da noite de Almada, a deputada Joana Mortágua acrescentou uma das poetisas favoritas de Marisa, a brasileira Adélia Prado, que escreveu: "Não quero faca, nem queijo. Quero a fome." E, notou Joana, "a Marisa ergueu-se sempre para representar aqueles que têm fome de direitos e fome de democracia".

A campanha chega esta quinta-feira a Tondela, no distrito de Viseu. A abstenção é o alvo do Bloco, que esta quarta-feira à noite ignorou os ataques da direita e PS.

Exclusivos