Guterres recebe prémio Carlos Magno e pede "Europa forte e unida"

Secretário-geral da ONU é o primeiro português a receber o prestigiado prémio e insistiu na necessidade de a Europa defender de forma mais vigorosa o multilateralismo. Rei Felipe VI fez o discurso laudatório em Aachen e António Costa disse que prémio é uma honra para Portugal.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou esta quinta-feira à Europa que defenda com mais vigor o multilateralismo, atualmente "debaixo de fogo", garantindo que, pela sua parte, continuará a defender de forma apaixonada o pluralismo e a tolerância.

Discursando em Aachen, Alemanha, após receber o prémio internacional Carlos Magno pela sua defesa do modelo europeu de sociedade, do pluralismo, tolerância e diálogo, Guterres insistiu na necessidade imperiosa de uma agenda multilateral "nestes tempos de grande ansiedade e desordem geopolítica".

E argumentou que a União Europeia tem uma responsabilidade acrescida na sua defesa, até por ser "pioneira, mas também um posto avançado do multilateralismo e o primado do direito", valores cada vez mais postos em causa nos dias de hoje.

"Como secretário-geral das Nações Unidas, nunca senti tão claramente a necessidade de uma Europa forte e unida", disse.

Guterres apontou que o mundo enfrenta atualmente "três desafios sem precedentes" que agravam os riscos de confrontação e exigem respostas vigorosas: as alterações climáticas -- que classificou como sendo "hoje uma questão de vida ou morte" -, a demografia e migrações, e a era digital.

"O multilateralismo está sob fogo precisamente quando dele mais precisamos, e quando nunca foi tão adequado para fazer face a todos os desafios", defendeu.

Apontando que "a UE constitui uma experiência única em soberania partilhada", António Guterres comentou que se desenha atualmente "uma nova ordem mundial, com destino ainda desconhecido", razão pela qual "o mundo parece hoje caótico", e para uma nova ordem mundial multilateral é essencial uma Europa forte e unida.

"Mas mesmo que acabemos por ter um mundo multipolar, tal não é por si só uma garantia de segurança e paz comum", disse, acrescentando que basta recordar a História antes da I Guerra Mundial, quando, "sem um sistema multilateral na época, uma Europa multipolar não foi capaz de evitar dois conflitos mortíferos".

"Por tantas razões, e talvez um toque de saudade, gostaria que a Europa pudesse defender de uma forma mais decisiva a agenda multilateral. As Nações Unidas precisam de uma Europa forte e unida", afirmou, advertindo "nunca as instituições do pós-guerra mundial e os seus valores subjacentes estiveram tão erodidos e colocados à prova" como hoje.

O secretário-geral da ONU enfatizou que os conflitos se tornaram "mais complexos e interligados do que nunca, produzem violações horrendas da lei humanitária internacional e abusos dos direitos humanos".

"As pessoas foram forçadas a fugir de suas casas numa escala que não se via há décadas. E com as portas de um abrigo fechadas. Os princípios democráticos estão sitiados e o Estado de direito está a ser enfraquecido. As desigualdades estão a aumentar. O discurso de ódio, o racismo e a xenofobia estão a incitar o terrorismo através das redes sociais", alertou.

Defendendo que "tanto as Nações Unidas como a UE são um legado dos valores do Iluminismo", na sua opinião "o mais importante contributo europeu para a civilização mundial", António Guterres afirmou que aquilo a que se assiste hoje na cena mundial, com o ressurgimento de "paixões nacionalistas, populistas, étnicas e religiosas", é "a negação do Iluminismo".

"Tendo crescido sob a ditadura de Salazar, testemunhei o verdadeiro valor da liberdade. Como antigo Alto Comissário da ONU para os Refugiados, durante 10 anos, vi as cicatrizes da deslocação e desenraizamento. E a História consolidou a minha forte convicção de que essas tragédias apenas podem ser evitadas através da prevenção de conflitos e desenvolvimento através da cooperação internacional", afirmou.

Para tal, o mundo precisa mais do que nunca "dos dois maiores projetos de paz dos nossos tempos, as Nações Unidas e a União Europeia", sustentou.

"Como secretário-geral das Nações Unidas, não tenho outros poderes senão a persuasão e o apelo à razão. Posso assegurar-vos que darei sempre o meu melhor na defesa apaixonada dos valores do pluralismo, da tolerância, do diálogo e do respeito mútuo par construir um mundo de paz, justiça e dignidade humana", declarou, em português, no encerramento do seu discurso.

António Guterres é o primeiro português a receber o prestigiado prémio internacional, atribuído desde 1950 a personalidades que tenham contribuído para a unidade do continente europeu, e que no passado já distinguiu figuras como Winston Churchill, Robert Schuman, Jacques Delors, Bill Clinton, Jean-Claude Juncker, Angela Merkel e os papas Fancisco e João Paulo II.

Na cerimónia de entrega do prémio participam, entre outros, o primeiro-ministro, António Costa, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o Rei de Espanha, Felipe VI, a quem coube o discurso laudatório.

À saída da cerimónia, Guterres disse que este era um dia especial. "Com certeza que é um dia especial. Não é todos os dias que temos a oportunidade de estar numa cidade com 12 séculos de história e de sentir aqui tão profundamente a herança europeia, que nos dá a esperança de que a Europa possa ser melhor no futuro e ajudar a construir o mundo de que precisamos", declarou, enquanto era saudado pelos populares à saída da Câmara de Aachen, onde recebeu o galardão.

Felipe VI: prémio é "tributo perfeito aos muitos méritos"

O rei de Espanha, Felipe VI, afirmou que a atribuição do prémio Carlos Magno ao secretário-geral da ONU "é o tributo perfeito aos muitos méritos de António Guterres", que comparou aos navegadores portugueses da época dos Descobrimentos.

"Fico muito orgulhoso enquanto espanhol e amigo de Portugal, e também como europeu, que António Guterres receba este ano o Prémio Carlos Magno", declarou Felipe VI, a quem coube proferir o discurso laudatório, numa cerimónia realizada no salão de coração da câmara de Aachen, a localidade alemã que foi outrora sede do império daquele que é considerado o "pai da Europa".

Lembrando que se trata do primeiro português a receber o prestigiado prémio, que distingue personalidades que tenham contribuído para a unidade da Europa, Felipe VI não poupou elogios ao antigo primeiro-ministro português e, citando Fernando Pessoa -- "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena" -, o rei de Espanha afirmou que "a alma de António Guterres é imensa, assim como são a sua sabedoria, experiência e paixão com que defende os seus ideais".

"Há mais de 1200 anos, o sonho europeu começou aqui, em Aachen. Hoje, esse sonho mantém-se muito vivo, graças à visão e determinação de indivíduos excecionais com o calibre de António Guterres, um homem que combina a perspetiva europeia com a vocação internacional do seu país, Portugal, a quem também hoje prestamos tributo", declarou.

O monarca espanhol disse então que, "tal como os seus compatriotas que navegaram pelos oceanos no início da era moderna" -- à semelhança dos seus compatriotas espanhóis -, "António Guterres é um homem de horizontes largos e, tal como esses grandes exploradores, ele investe a sua considerável energia em cada empreendimento no qual embarca".

"António Guterres é o homem que sabe como conciliar as suas profundas convicções éticas e sociais com o rigor científico dos seus antecedentes académicos", disse, lembrando que o atual secretário-geral da ONU entrou na vida política muito jovem, "num momento decisivo da história" de Portugal, de transição da ditadura para a democracia.

Desde então, apontou, "o compromisso de António Guterres com a justiça e harmonia orientaram a sua carreira, como primeiro-ministro de Portugal, de 1995 a 2002, como presidente do Conselho Europeu em 2000 (durante a presidência portuguesa da UE), como Alto Comissário da ONU para os Refugiados, entre 2005 e 2015, e, desde janeiro de 2017, como secretário-geral da ONU".

"Em cada um destes cargos, ele conduziu de forma consistente a sua ação política mantendo-se fiel a três princípios inalienáveis": a solidariedade com os mais necessitados, a busca de uma união ainda mais próxima entre os povos e países da Europa, e o contributo de uma Europa unida para as causas justa da humanidade.

Considerando que o trabalho de Guterres e a sua eleição para o cargo de secretário-geral da ONU constituem um lembrete claro de que o sonho europeu não termina nas fronteiras da Europa, Felipe VI afirmou que "o exemplo de António Guterres mostra que não há contradição entre a construção de uma Europa mais unida e a busca de uma ordem internacional aberta, plural, mais justa e mais cooperante".

António Costa: "motivo de orgulho" para Portugal

O primeiro-ministro, António Costa, considerou que a atribuição do Prémio Carlos Magno a Guterres é "motivo de orgulho" para Portugal e também "uma mensagem política muito importante" para o reforço do papel da União Europeia na cena internacional.

"Eu acho que é um motivo de orgulho para todos nós termos finalmente um português a receber o Prémio Carlos Magno, que é um prémio muito importante e que sinaliza bem o contributo que António Guterres deu para a unidade europeia", declarou o primeiro-ministro aos jornalistas, no final da cerimónia de entrega do galardão.

Costa observou que "não é seguramente por acaso" que António Guterres é o primeiro português primeiro a receber este prémio, tal com foi o primeiro português a ser eleito secretário-geral da ONU, "e isso significa o grande compromisso que ele tem com os valores que, como ele aqui evocou, sempre se bateu desde a sua juventude, e a forma como ganhou e construiu um prestigio internacional muito relevante, o que não deixa de ser obviamente importante para Portugal".

O chefe de governo considerou que a atribuição do prémio a Guterres "também é uma mensagem política muito importante".

"Em primeiro lugar, de como a União Europeia é fundamental para reforçar o multilateralismo, de como é essencial para termos um mundo mais solidário, que respeite o principio do estado de direito, da boa convivência entre os povos, reforçar as Nações Unidas, e também - uma prioridade clara em todos os discursos --, a necessidade de focarmo-nos no combate às alterações climáticas, de reforçar o nosso modelo social para assegurar uma boa transição para a sociedade digital com coesão, e a necessidade de não nos fecharmos sobre nós próprios, e, pelo contrário, nunca nos esquecermos que o estatuto internacional dos refugiados foi criado precisamente para proteger os europeus vítimas da II Guerra Mundial", disse.

Para António Costa, "a atribuição deste prémio a António Guterres enquanto secretário-geral das Nações Unidas é seguramente a mensagem de que esta deve ser uma prioridade da Europa e que António Guterres é um bom exemplo do que a Europa pode e deve fazer para reforçar as Nações Unidas e aquilo que é também uma sociedade global mais organizada, com maior respeito pelo direito, mais pacífica, com menos desigualdades, e onde todos possam encontrar mais esperança na construção de um futuro onde as alterações climáticas possam ser travadas".

Defendendo que é "seguramente necessária uma Europa melhor", com uma agenda estratégica ambiciosa e solidária para os próximos cinco anos, António Costa, questionado sobre se aproveitou o evento de hoje para continuar a negociar com outros líderes europeus quem deve liderar essa agenda, sorriu e comentou que "não, hoje não foi dia de negociação, foi um dia de inspiração para a construção de uma boa agenda para os próximos cinco anos".

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