1.º de Maio. O "antivírus" contra o desemprego, despedimentos e precariedade

A CGTP não cedeu à pandemia e a quem criticou as celebrações do Dia do Trabalhador na rua e comemorou o 1.ª de Maio na Alameda, apenas com sindicalistas e poucos curiosos. Sob o tradicional grito "a luta continua", a secretária-geral daquela central exigiu a proibição dos despedimentos e o fim dos cortes nos ordenados em regime de lay-off.

A celebração foi rápida e milimetricamente programada, sem o habitual desfile, apenas com expressão na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa. Com passos largos, seis contados por todos, vários sindicalistas da CGTP colocavam bandeiras junto às faixas que delimitavam, de dois em dois metros, os sindicatos que ali estavam para celebrar o Dia do Trabalhador e os 50 anos da maior central sindical portuguesa. E assim se mantiveram, distanciados, de bandeiras vermelhas ao alto dispostos pelo relvado desde a Fonte Luminosa até ao topo, junto do Instituto Superior Técnico. O ex-secretário-geral da central sindical, Arménio Carlos, discreto a observar as movimentações foi enfático a defender a celebração na rua em tempo de pandemia. "Este é um momento de compromisso em relação ao futuro, De lançamento do antivírus contra o desemprego, os despedimentos e a precariedade!"

"Precariedade", cortada por um traço vermelho, foi mesmo uma das palavras escolhidas para a nova roupagem destes dias de sindicalismo, cravada nas máscaras que quase todos os representantes dos sindicatos afetos à central disciplinadamente usaram durante cerca de uma hora de celebração. "Hoje deem demonstração da nossa firmeza e disciplina para levar por diante a defesa dos trabalhadores", gritava o speaker da organização, pouco antes da líder da CGTP Isabel Camarinha apelar à proibição dos despedimentos.

"Há um milhão no limiar da pobreza, salários cortados, trabalhadores em lay-off. O antivírus tem de ser contra a pobreza e a desigualdade, com novas políticas e com o pressuposto dos trabalhadores serem o mais importante nas políticas económicas dos próximos tempos"

Arménio Carlos, que a antecedeu no cargo, também garantia aos jornalistas, com poucos curiosos à espreita e sem vislumbre de pessoas nas varandas dos prédios da Alameda., que aquela era uma demonstração de força, porque a "vida não pode parar". Frase que o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, que ali também deu ar de sua graça como sempre, voltou a repetir. "Há um milhão no limiar da pobreza, salários cortados, trabalhadores em lay-off. O antivírus tem de ser contra a pobreza e a desigualdade, com novas políticas e com o pressuposto dos trabalhadores serem o mais importante nas políticas económicas dos próximos tempos".

As exigências da CGTP

A nova secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha, começou a falar já passava das 15:00, depois de ter cumprimentado o antecessor com um toque de cotovelo. "O tempo que vivemos comprova a importância fundamental do trabalho e dos trabalhadores. Estamos na rua, por direito e por dever, para com aqueles que representamos e que enfrentam uma brutal ofensiva, que estão sujeitos ao aproveitamento que alguns fazem do vírus para acentuar a exploração", disse.

Isabel Camarinha lançou o mote dos próximos tempos de luta da maior central sindical. Exigir a proibição dos despedimentos e a reversão dos que já aconteceram - e que estimou em 350 mil, a maioria com vínculos precários -, acabar com os cortes de ordenados dos trabalhadores em regime de lay-off e que seja o Orçamento do Estado a assumir o seu pagamento para a Segurança Social não ser descapitalizada. "Os trabalhadores não querem caridade, exigimos seus postos de trabalho e as suas retribuições".

"Os trabalhadores não querem caridade, exigimos seus postos de trabalho e as suas retribuições"

A sindicalista frisou bem que, apesar da pandemia, a CGTP não irá alterar o caderno de encargos que já tinha para este ano, em particular a exigência de aumentos de salários e do salário mínimo nacional; a revogação das normas "gravosas" da legislação laboral em particular da contratação coletiva, a luta pelas 35 horas em todos os setores; e apelar a alterações na política fiscal, pondo "o capital a pagar impostos para aumentar a receita e desonerar os rendimentos do trabalho". E "agora, mais do que nunca, ficou demonstrada a importância e o papel do Estado".

Sem ataques diretos ao governo, Isabel Camarinha apontou baterias para Bruxelas. "Estamos de novo reféns de uma 'bazuca' vinda de Bruxelas, mas nós sabemos que dali, as 'bazucas' são sempre rápidas a atacar os direitos, deixar o país mais dependente".

A perseguição há 50 anos

O sol e o calor não trouxeram muitos populares à celebração na rua. A PSP manteve-se discreta a meio da Alameda, sem necessidade de qualquer intervenção para manter o distanciamento social. O vasto relvado esteve sempre pontuado apenas pelos sindicalistas e as ruas laterais com um movimento reduzido e até quase alheio ao que ali se passava.

Encostada ao muro que ladeia a Alameda junto à Fonte Luminosa, Teresa veio como sempre ao 1.º de Maio. "Não podemos ter medo e temos de ajudar quem se bate pelo direito dos trabalhadores". Eduardo é mas idoso e assume que que "qualquer pretexto é bom para sair de casa". São dos poucos que ali resistem, numa celebração que se queria mesmo com poucas pessoas e muito distanciamento social, num fim de semana sujeito a apertadas normas de circulação.

"É preciso não esquecer que neste momento dezenas de milhares de trabalhadores com vínculos precários perderam o seu trabalho, viram reduzida a sua proteção social e limitados os seus direitos"

O líder do PCP quis dar a este 1.º de Maio na rua uma roupagem de "esperança". Jerónimo de Sousa insistiu que "é preciso não esquecer que neste momento dezenas de milhares de trabalhadores com vínculos precários perderam o seu trabalho, viram reduzida a sua proteção social e limitados os seus direitos".

E para contrariar os que criticaram a decisão da CGTP, afeta ao PCP, de ir para a rua no Dia do Trabalhador apesar de todas as restrições, Jerónimo de Sousa lembrou que a data se celebra hà 50 anos, ainda em ditadura. ""Para quem comemorou há 50 anos, no Rossio, com perseguição, com prisão e nunca desistiu de fazer o 1.º de Maio... " Estava tudo dito.

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