Professores saem em defesa de aluno que diz ter sido agredido pela PSP

Um jovem de 20 anos acusa agentes da PSP de agressões e apresentou queixa. A polícia diz que deteve o jovem por comportamento agressivo. No meio, está uma professora a dar razão ao aluno.

O regresso de Sandro de Jesus a casa na última segunda-feira revelou-se um tormento. Viajava de comboio e conta que foi ter com o revisor para lhe explicar que perdera o passe, mas que tinha o recibo do pagamento da mensalidade onde consta o número do cartão. Este mandou-o sair da carruagem e, perante a sua recusa, chamou a polícia, que, segundo o jovem, o agrediu e levou para a esquadra, Ao DN, fonte da PSP admite o uso da força justificando que se deveu à má educação e agressividade do rapaz. Atitude que uma professora nega, uma vez que estava ao telefone com o aluno e acompanhou toda a situação. "Trataram-no como um delinquente quando ele só queria ir para casa. É um rapaz tranquilo, sensível e com grande capacidade de argumentação", diz, sublinhando que o s professores do Conselho de Turma estão dispostos a testemunhar por ele.

Sandro tem 20 anos, mora no Barreiro e está no 10. º ano do Curso Profissional de Arte e espetáculo na Escola Secundária da Bela Vista, em Setúbal. Desloca-se no comboio da CP usando o Cartão Viva Lisboa que carrega mensalmente. Perdeu o título de transporte mas entendeu que devia continuar a viajar até a data limite da mensalidade, esta quinta-feira, porque tinha o comprovativo do pagamento com o número do cartão. Além disso, perguntou quanto tempo levava a fazer um novo passe, tendo sido informado que levaria " três dias a uma semana".

Na manhã desta segunda-feira apanhou o comboio para a escola. O revisor disse-lhe que o recibo não substituía o bilhete, mas tomou nota do número e deixou-o continuar a viagem. No final das aulas, Sandro falou com a professora de Teatro, Ana Estevens , sobre o que deveria fazer no regresso a casa. Ela aconselhou-se a expor a situação na bilheteira e, conta Sandro, foi atendido por uma senhora que lhe disse para ir ao encontro de revisor e explicar o que se passava.

Ao telefone com a professora

"Fui ter com o revisor, não foi ele que veio ter comigo, mas ele não me deu oportunidade de explicar nem quis ver o recibo. Disse-me para sair do comboio, mas achei que tinha o mesmo direito que os outros porque tinha pago e não saí. O revisor mandou parar o comboio e disse aos outros passageiros para me agradecerem pelo atraso, colocando-os contra mim", diz Sandro, Isto quando estavam na estação da Baixa da Banheira.

O DN questionou os responsáveis da CP sobre o que o utente deve fazer em caso de perda ou extravio do Cartão Viva Lisboa. Responderam que a única solução é pedir uma guia de substituição no gabinete de Apoio ao Cliente, o que admitiram levar tempo. Quanto à atuação do revisor, consideram que "atuou corretamente e de acordo com as regras em vigor, ao não permitir a viagem nestas circunstâncias". A legislação "determina que os clientes dos transportes públicos têm que ser portadores de um titulo de transporte válido, neste caso, o passe mensal. Um recibo, embora faça prova de compra, não pode ser validado, logo não substitui o título de transporte".

Sandro de Jesus contrapõe que não foi essa a explicação dada na bilheteira. Assegura que lhe disseram que podia contar com a compreensão dos funcionários da CP, o que aconteceu de manhã mas não à tarde. Nesta, o revisor exigiu que saísse do comboio e chamou a polícia

"Acabei por sair pelo meu próprio pé e um agente pegou pela gola do casaco como se eu fosse um cabide. Atirou-me contra as grades da estação da Baixa da Banheira, eram vários os apertos nos braços e no pescoço e os pontapés. Colocaram-me as algemas e atiraram-me ao chão com brutalidade. Voltaram-me a levantar e, continuando a agressividade, levaram-me para dentro do carro puxando-me pelos cabelos. Imediatamente, levei um soco na face do lado esquerdo", descreveu Sandro na queixa que apresentou ao SOS Racismo, que a remeteu à Comissão para a Igualdade contra a Discriminação Racial.

Além dos socos e pontapés, diz que o polícia o chamou de "gay " e "bicha".

O SOS Racismo lembra que a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância e o Comité Europeu para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa referiram como nota negativa de Portugal "a existência de prática reiterada do uso e abuso da violência por parte das forças de segurança".

Sandro esteve durante todo o tempo ao telefone com a professora Ana Estevens, a quem ligou quando o revisor o expulsou da carruagem, "Ligou-me para contar o que se estava a passar, eu pedi para falar tanto como o revisor como com o agente da PSP, que não o quiseram fazer. Fui ouvindo tudo, a forma como os polícias o estavam a tratar, ele a chorar e fui ter à esquadra".

PSP diz que teve de usar força

Fonte da PSP admite que "usaram a força para efetuar a detenção", justificando: "O indivíduo foi mal-educado e o revisor foi obrigado a chamar a polícia. Recusou-se a apresentar a identificação aos agentes e teve um comportamento agressivo. Há testemunhas identificadas que o comprovam".

Sandro de Jesus nega que lhe tenham pedido a identificação, acrescentando que nunca lhe disseram que estava detido. E apela ao visionamento das imagens de videovigilância da estação da Baixa de Banheira para provar que fala verdade. As afirmações de Ana Estevens são no mesmo sentido. "Ele não insultou ninguém, só gritava. E só lhe pediram a identificação na esquadra. O Sandro é uma pessoa muito educada e, se há alguém que não merece este tipo de tratamento, é ele. Tenho os professores do Conselho de Turma dispostos a testemunhar a seu favor". Acrescenta que o jovem é um exemplo de lutador, uma vez que tem tido uma vida "muito difícil".

Após saírem da esquadra, às 21.30 de segunda-feira, aluno e professora deslocaram-se ao Hospital do Barreiro, onde fizeram exames aos hematomas no corpo do jovem. E, terça-feira, presente ao Tribunal na Moita, Sandro de Jesus disse que queria apresentar queixa contra os agentes da PSP. E há, também, o processo movido pela PSP iniciado com a detenção.

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