Pinhal de Leiria renasce, mas a mortalidade das plantas chega aos 70%

Há 18 milhões de euros para investir nos próximos quatro anos, mais de um milhão de plantas no terreno, mas as alterações climáticas não perdoam. O sobreiro que António Costa plantou há um ano está entre os que secaram

O Governo vai investir cerca de 18 milhões de euros nas matas públicas da região centro, nos próximos quatro anos. O secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas, esteve esta manhã no Pinhal de Leiria a fazer essa apresentação do plano plurianual de investimentos para a região centro, ficando a faltar conhecer o plano referente ao norte.

"Pela primeira vez estamos a cumprir aquilo que era o nosso compromisso de cativar uma verba plurianual", disse ao DN Miguel Freitas, depois de plantar vários pinheiros no talhão 60 do Pinhal de Leiria, no concelho da Marinha Grande.

"Vamos fazer uma intervenção em cerca de 15.500 hectares, dos quais 5000 são reflorestação. O resto são intervenções de gestão de combustível, ou de regeneração natural. Estamos a seguir o guião da comissão científica, por isso vamos continuar a ter um pinhal", ou seja, o pinheiro continuará a ser a espécie dominante.

Mas o ICNF e o Governo querem testar outras soluções. Quer dizer que "à volta dos aglomerados urbanos, à volta das escolas, vamos colocar espécies de crescimento lento - o medronheiro, por exemplo, ou o sobreiro, para zonas de proteção", adiantou o secretário de Estado.

Neste conjunto de medidas que constituem o plano plurianual de investimento nas matas públicas - que são as grandes redes da floresta contra incêndios - haverá cordões de pinheiro manso. "Temos que ter um modelo que proteja melhor as nossas matas públicas. Mantendo o pinhal temos que ter outro tipo de silvicultura", esclarece Miguel Freitas.

Arderam cerca de dois terços do território

No fogo que destruiu o pulmão verde da região centro arderam cerca de dois terços do território. "Temos que olhar para isto numa perspetiva de médio e longo prazo. Temos que fazer matas públicas para os próximos 100 anos. A dimensão da catástrofe é de tal maneira que temos que planear isto desta maneira", sublinha o governante, ressalvando a importância de todos os anos ir olhando e fazendo ajustamentos a esta trajetória. "Nós temos uma estratégia clara, um plano e uma programação financeira, temos dinheiro cativo através de uma resolução do conselho de ministros, pelo que podemos fazer isto numa perspetiva de médio e longo prazo".

Passou um ano e meio desde o incêndio que a 15 de outubro de 2017 destruiu cerca de 85% das matas nacionais, nomeadamente o Pinhal do Rei. À medida que o tempo passa são notórios os efeitos da devastação, nomeadamente os constantes ventos fortes naquela região. Até à data o ICNF retirou apenas a madeira de 2.500 hectares, através de 15.000 cargas. "Nós estamos a trabalhar a um ritmo 10 vezes superior àquilo que seria um ano normal. Para retirar toda a madeira que está queimada e que tem aproveitamento económico - não estou a falar da madeira que nós estamos a triturar - são precisas 42.000 cargas, ou seja, 42 mil camiões a saírem destas matas públicas do centro".

Confrontado com as críticas da população, que se queixa de não ver avançar a remoção da madeira queimada e a reflorestação, Miguel Freitas responde que "as pessoas têm que perceber a dimensão do tempo. Até este momento estão florestados 1039 hectares, e aí temos mais de um milhão de plantas no terreno. É preciso ter em conta estes números para perceber que este é um trabalho muito difícil, que vai levar tempo. Estamos a trabalhar para 100 anos".

Taxa de mortalidade atinge 70%

A verdade é que, no âmbito de reflorestação, existe uma taxa de mortalidade elevada. Rogério Rodrigues, presidente do ICNF, lembra que as alterações climáticas "trazem-nos uma componente que não é inovadora, mas temos sempre de ter presente: o grau de secura que o verão nos proporciona, de cinco ou seis meses sem chuva, em que no ano passado chegámos aos 47 graus, aqui em particular aos 45, certamente que colocam uma componente de risco muito grande à vitalidade destas plantas. Em anos muito secos, o tipo de plantação que se faça, que segue as regras adequadas, tem no entanto níveis de mortalidade elevada. Passa dos 15% que é o normal para os 70%". Foi o que aconteceu ao sobreiro chamado Mário, que o Primeiro-Ministro António Costa foi plantar à Vieira de Leiria em janeiro do ano passado.

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