Pais de crianças com cancro do Hospital S. João consideram despacho "pouco claro"

Projeto para construir uma ala pediátrica já conta com dez anos, mas desde então que o serviço tem sido prestado em contentores

O porta-voz dos pais de crianças com doença oncológica tratadas no São João, no Porto, considerou esta quinta-feira "pouco claro" o despacho governamental que autoriza o hospital a lançar um concurso para a construção das novas instalações do Centro Pediátrico.

"Este despacho é um nim, nem não, nem sim", afirmou Jorge Pires em declarações aos jornalistas, depois de o Governo de António Costa ter autorizado na quarta-feira a administração do Centro Hospitalar Universitário de São João a lançar o concurso para a conceção e construção das novas instalações do Centro Pediátrico.

Classificando este despacho como "pouco claro", Jorge Pires considerou que a "melhor solução" seria aproveitar o projeto já existente para a ala pediátrica, agilizando processos, porque se for necessário voltar a fazer um novo projeto de arquitetura e especialidades isso significará voltar à "estaca zero".

"Se esse concurso for para voltar a fazer tudo de novo, é um processo moroso e um voltar atrás, mas se for para aproveitar o projeto antigo, fantástico, o que nos queremos é ganhar tempo para que as crianças não sofram", vincou.

Já esta quinta-feira, em conferência de imprensa, o presidente da administração do hospital, António Oliveira e Silva, revelou estar a "auscultar os serviços jurídicos" sobre a possibilidade de poder aproveitar o projeto existente.

Apesar de considerar o projeto que tem há já dez anos "obsoleto", o presidente da administração disse que lhe "facilitava a vida" poder trabalhar "em cima do projeto" que já existe, porque há estruturas e infraestruturas que vão ser comuns.

"Isto não é claro, na verdade é mais uma trapalhada jurídica para resolvermos, estamos a jogar contra o tempo", disse o porta-voz.

Jorge Pires frisou que é "urgente andar para a frente" com a ala pediátrica, mas não com "fait-divers", nem com medidas de secretária, acrescentando que agora com este anúncio do Governo "calam-se todos durante uns tempos" enquanto continua "tudo na mesma".

As condições das instalações e dos transportes continuam "miseráveis", contou, questionando-se sobre "quantas crianças precisam de morrer para que isto melhore".

O representante dos pais perguntou ainda como é possível o Governo anunciar esta semana 300 milhões de euros para ciclovias e para uma coisa "urgentíssima e importantíssima" para a região Norte, como é o caso do Centro Pediátrico, dizer que não há dinheiro.

"É uma questão de prioridades", concluiu.

O Governo autorizou na quarta-feira a administração do Centro Hospitalar Universitário de São João a lançar o concurso para a conceção e construção das novas instalações do Centro Pediátrico.

A autorização foi concedida através de despacho assinado pelos ministros das Finanças, Mário Centeno, e da Saúde, Adalberto Fernandes, publicado no Diário da República.

Este é o desenvolvimento mais recente deste 'dossiê', que já teve uma intervenção do Presidente da República e a mobilização de personalidades do Porto.

No dia 07, Marcelo Rebelo de Sousa declarou estar à espera que o Governo esclarecesse a sua posição sobre este centro pediátrico.

Na véspera, dia 06, um movimento cívico informal, intitulado "Pelo Joãozinho", lançou um abaixo-assinado, dizendo ser "tempo de agir", romper o impasse e avançar de imediato com a construção da nova ala pediátrica.

Há dez anos que o hospital tem um projeto para construir uma nova ala pediátrica, mas desde então o serviço tem sido prestado em contentores.

Em junho, o presidente do Centro Hospitalar afirmou que o problema do centro ambulatório pediátrico, que inclui o hospital de dia da pediatria oncológica, ficou resolvido, mas "continuam a faltar as instalações do internamento pediátrico".

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