Os embates de Ana Leal com a TVI

A jornalista anunciou esta sexta-feira, 3 de julho, através das suas redes sociais, que terminou a sua relação profissional de 20 anos com a TVI. A jornalista admite, na publicação feita, que chorou e fez um conjunto de agradecimentos a vários colegas e amigos de profissão. O DN republica aqui os grandes embates entre Ana Leal com a estação de televisão. (Publicado originalmente a 28-05-2020)

Em maio foi a denúncia das falhas no Sistema Nacional de Saúde em tempos de Covid-19, há sete anos foi a revelação de detalhes em torno do SIRESP. Ana Leal voltava a ter um embate com a estação de televisão: a promessa de emissão de uma reportagem que acabou por não ser exibida, pedido de esclarecimentos e um afastamento físico da redação da TVI.

Esta sexta-feira 3 de julho, a jornalista da TVI anunciou, através das suas redes sociais, que terminou a sua relação profissional de 20 anos com a TVI. A jornalista admite, na publicação feita, que chorou e fez um conjunto de agradecimentos a vários colegas e amigos de profissão.

Na altura, os processos da Entidade Reguladora pela Comunicação Social, que a jornalista considerou tratarem-se de "decisões sumárias", os ataques ao jornalismo de investigação feito em múltiplas frentes foram matérias denunciadas em fevereiro deste ano, ao jornal SOL, numa entrevista na qual Ana Leal antecipava a suspensão do seu formato "mais tarde ou mais cedo", devido a pressões. Fonte oficial do canal rejeitou e reagiu à data: "A TVI não decide criar ou acabar com programas em função de pressões externas."

Um mês depois, o formato que apresentava, tal como outro de investigação, é suspenso temporariamente por imperativos que se deviam à pandemia e, de acordo com a justificação dada pela direção, para realocar jornalistas para a redação de modo a fazer face à atualidade. Em fins de maio, não há data de regresso dos formatos e Ana Leal está, segundo a sua defesa, suspensa, em casa.

Covid-19 e Serviço Nacional da Saúde

A 24 de março deste ano, Ana Leal avançava, nas redes sociais, que, ao abrigo do segmento de jornalismo de investigação, se preparava para denunciar falhas no Serviço Nacional de Saúde em período extraordinário de combate à pandemia da Covid-19. A peça acabou por não ser exibida e começaram a surgir a perguntas de espectadores. Ana Leal explicou que a decisão não tinha sido sua, fonte oficial do canal de Queluz de Baixo rejeitou acusações de censura e justificou que "todos os dias caem peças, como foi o caso".

No entanto, uma carta conhecia em maio e enviada ao Conselho de Redação pelos jornalistas que integram esta equipa de investigação - cujo formato foi suspenso a 10 de março devido à pandemia e para reforçar a redação com matérias relativas à Covid-19 - trazia luz sobre conversas de WhatsApp, de 17 de março, com uma mensagem atribuída a Sérgio Figueiredo e que consideram que demonstra "o que pretendia da informação da TVI".

"Jornalismo é informar, mas é, sobretudo, ter a noção do papel que desempenha na sociedade. Por isso, também é filtrar, ter a noção do tempo e do modo como o nosso trabalho impacta na vida dos outros. Enquanto os incêndios não se apagam, não é hora de questionar os bombeiros. Não ignoramos as falhas, mas estar a insistir nelas, estar sobretudo preocupado em denunciar o que não funciona, assusta as pessoas e afasta-as da antena, provoca rejeição. As televisões têm agora a preocupação de informar, de esclarecer, de ser pedagógicos, de perceber que as pessoas precisam sobretudo tranquilizar-se e confiar", terá dito Sérgio Figueiredo, em resposta a Ana Leal sobre uma reportagem que seria exibida no dia seguinte (18 de março).

"Quando ela acabar [a pandemia], quando ela for vencida, então voltamos a questionar, a denunciar, a pôr em causa. Como sempre temos feito, como esta equipa tem feito, com o aval e o comprometimento pessoal deste diretor que vos admira e dá o corpo às balas para que nenhuma pressão nenhum interesse vos trave", terá acrescentado o diretor de Informação da TVI na carta citada pela agência Lusa.

Esta semana, advogado de Ana Leal, Ricardo Sá Fernandes revelava a existência de um inquérito à jornalista, que está em casa, a receber vencimento e sem atividade atual, e que na base da decisão estaria o facto de terem sido divulgadas conversas particulares entre a jornalista e a direcção do canal ao CR da TVI e no âmbito da análise deste caso. A estação de Queluz de Baixo nega essa causa e, ao Público, fala antes "em conjunto de várias situações" que não especifica.

Na quarta-feira à noite, Ana Leal falava pela primeira vez nas suas redes sociais. Sem concretizar a jornalista publicava uma imagem sua com a equipa e e escrevia: "o que nunca me poderão tirar".

Falhas e irregularidades do SIRESP:

Em janeiro de 2013 estava também prevista a emissão de uma reportagem na qual Ana Leal denunciava, pela primeira vez, falhas e irregularidades no SIRESP, sistema homologado em 2006 por António Costa enquanto ministro da Administração Interna.

A peça não foi posta no ar dia previsto, no principal bloco noticioso da estação, acabando por ser emitida no dia seguinte, na TVI24. O pedido de esclarecimentos feito pela jornalista à então direção de Informação do canal, José Alberto Carvalho, culminaria na abertura de um inquérito e numa suspensão e impedimento de entrar nas instalações da TVI. À data, os responsáveis da estação rejeitaram "qualquer espécie de censura", mas o Conselho de Redação considerou "injustificado o facto de a peça de Ana Leal não ter entrado no alinhamento do Jornal das 8".

A jornalista moveu uma ação em tribunal contra a TVI acusando-a de "censura", mas, como confirmou o advogado da repórter Ricardo Sá Fernandes à data, Ana Leal e a empresa chegaram a acordo em outubro do ano seguinte com a repórter a desistir do pedido de indemnização, a regressar ao trabalho, e a estação a anular sanção disciplinar.

Em fevereiro último, a jornalista revelava, na entrevista ao Sol, que um "político, à época ministro, ache que pode à distância de um telefonema ligar para uma administração ou para uma direção de informação a dizer: "Despeçam-na!"". Ana Leal declarou que a situação "várias vezes" e foi concreta: referia-se ao atual primeiro-ministro e à investigação sobre o SIRESP. António Costa rejeitou totalmente a acusação.

As outras batalhas

Em janeiro de 2019, a investigação TVI revelava práticas de um grupo secreto, composto por psicólogos, psiquiatras e padres católicos, que diz "converter" homossexuais. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social concluiu que a reportagem que abordava terapias de orientação sexual "desrespeitou várias exigências jurídicas e deontológicas" e por ter recolhido imagens em espaços reservados.

Também nesse mesmo mês, a conversa de Ana Leal com Manuel Maria Carrilho na sequência da divulgação de imagens da entrega das crianças à mãe, Bárbara Guimarães, e no âmbito do processo de violência doméstica acabou com o ex-político a passar o telefone ao filho, Dinis Maria, tendo havido diálogo, ainda que curto, entre a jornalista e o menor em direto. A condenação surgiu do Conselho Deontológico dos Jornalistas.

Em julho, a ERC tinha dado razão ao PCP na sequência da reportagem emitida sobre o alegado favorecimento do genro de Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do partido, nos contratos da Câmara Municipal de Loures. ERC deliberou que a peça foi "marcadamente sensacionalista" e conclui pelo "o enviesamento e a falta de isenção da TVI".

Deliberações lidas no arranque da nova temporada do formato, em setembro de 2019, e que Ana Leal considerou, em entrevista dada em fevereiro, que "a ERC, e que está a tomar decisões sumárias, porque muitas das deliberações publicadas a enxovalhar o meu nome e o do programa para as quais nem sequer me ouviram".

(Publicado originalmente a 28-05-2020)

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