Pesadelo em Lagos. O que se sabe da festa ilegal que já infetou 90 pessoas

No dia 7 de junho, uma festa de aniversário no salão do Clube Desportivo de Odiáxere, no concelho de Lagos, tornou-se um dos dos maiores focos de contágio por covid-19 identificados desde o início da pandemia em Portugal. Três horas de diversão que se transformaram num pesadelo. Para o Algarve e para o país.

A sala foi alugada para uma festa familiar, com vinte pessoas. Teve início cerca das 18.00 horas de domingo, 7 de junho, e terminou por volta das 21.40, depois de a presidente da Direção do Clube Desportivo de Odiáxere, Sofia Santos, chamar a GNR, por ter perdido o controlo de quem entrava e saía, contou a responsável, no dia 16 de junho ao jornal online Litoralgarve.

Por lá terão passado mais de cem pessoas, segundo as últimas informações disponíveis. O suficiente para criar um foco de contágio de covid-19, que de acordo com a Diretora Geral de Saúde, Graça Freitas, hoje, na conferência de imprensa diária, já se salda em cerca de 90 infetados, mais do que os 76 divulgados por Ana Cristina Guerreiro, delegada regional de saúde, também em conferência de imprensa esta tarde.

De acordo com a dirigente do Clube Desportivo onde a festa ilegal teve lugar, que garante que só alugou o espaço porque lhe foi garantido que o grupo era de vinte pessoas, a situação descontrolou-se e passaram pelo espaço muitas mais, o que a levou a chamar as autoridades.

"A GNR chegou, as pessoas foram pacíficas e saíram do salão, sem problemas. Eram 21h40. Sinto-me muito mal com tudo isto. É uma catástrofe", dizia Sofia Santos, quando ainda de se contavam "apenas" sete infetados e sessenta pessoas aguardavam os resultados dos testes

A 15 de junho, quando o surto identificado pelas autoridades de saúde foi comunicado pela Câmara Municipal de Lagos, o número de convivas não tinha sido determinado, falava-se num "avultado número de pessoas". Hoje, na conferência de imprensa que juntou a Autoridade Regional de Saúde do Algarve, a Comissão Distrital da Proteção Civil de Faro e a Câmara Municipal de Lagos, este número foi atualizado para "mais de cem", entre gente da região e de outras partes do país.

A autarquia, que a 15 de junho fez o primeiro comunicado expressando a sua preocupação com um foco de contágio ativo identificado no concelho decorrente de uma festa ilegal, pôs de imediato em marcha uma ação de testagem massiva.

Hoje à tarde, quatro dias depois, a delegada regional de saúde do Algarve, Ana Cristina Guerreiro, revelou em conferência de imprensa que "até à meia-noite de ontem foram realizados 1222 testes, focados em grupos de contactos no contexto laboral e familiar», tendo sido até ao momento identificados 76 casos positivos, número que baixou no último dia e que leva Ana Cristina Guerreiro a considerar que o surto "está contido".

Dos 76 casos já confirmados, com ligação à festa ilegal, 82% das pessoas são residentes em Lagos, 12% em Portimão e 5% noutros pontos do Algarve, nomeadamente em Lagoa, Albufeira e Loulé, mas há residentes fora do Algarve. Nem todos estiveram na festa, segundo adianta o site Sul Informação, tendo alguns sido infetados através de relações familiares e laborais, como é o caso das crianças. Destas pessoas, 31 têm entre 20 e 29 anos, 15 entre 30 e 39 anos e há 14 com idades dos 10 aos 19 anos. Nove são crianças com menos de nove anos. Há duas pessoas internadas ligadas a este surto e do total de 345 contactos em isolamento domiciliário, sob vigilância das autoridades de saúde do Algarve, a sua maioria estão ligados a esta festa ilegal em Odiáxere.

O caso foi referido por Graça Freitas e Marta Temido na conferência de imprensa diária, dizendo a diretora-geral de Saúde que "há 90 casos positivos entre os que estiveram na festa e os que foram infetados pelos que estiveram na festa, incluindo várias crianças com menos de nove anos de idade", para dizer que "não podemos fazer festas como fazíamos antes", lembrar que "para que economia funcione temos de ter situação epidemiológica controlada" e chamar a atenção que os atos de cada um implicam consequências para outras pessoas e para o país.

A ministra da Saúde, Marta Temido, por seu lado, lembrou que ainda estão proibidos os "ajuntamentos com mais de 20 pessoas" e questionada sobre um possível cerco sanitário no Algarve, respondeu que não só "não está em causa", como também "não é um cerco que institui a racionalidade suficiente para as pessoas se absterem de comportamentos que põem em causa não só a sua própria saúde mas a das pessoas que lhes estão próximas".

O caso pode ainda ter desenvolvimentos na justiça. Como noticiou o DN, o Ministério da Justiça pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar esta festa ilegal e para avançar, em nome do Estado, com pedidos de indemnização aos promotores da iniciativa em Odiáxere.

"A Ministra da Justiça solicitou hoje à Procuradoria-Geral da República a intervenção do Ministério Publico para, em representação do Estado, instaurar ações indemnizatórias contra os promotores do evento de Odiáxere, em Lagos, do qual resultou a infeção de mais de sete dezenas de pessoas, incluindo crianças", diz o comunicado emitido esta sexta-feira pelo Ministério de Francisca Van Dunem.

Em causa poderá estar um possível crime de negligência, dado que na festa terão estado mais de 100 pessoas, quando atualmente a lei proíbe ajuntamentos com mais de 20 pessoas.

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