O português acusado pelos EUA de "lavar" dinheiro da Venezuela

Hugo Góis, corretor financeiro do Porto, diz estar inocente e desconhecer o esquema de corrupção na petrolífera venezuelana que envolve mil milhões de euros. É também investigado em Espanha, onde já entregou à justiça 20 milhões. Não há mandado para a sua detenção.

"Um profissional da lavagem de dinheiro." É assim que os investigadores norte-americanos que conduziram a operação Money Flight, sobre o desvio de mais mil milhões de euros da petrolífera venezuelana PDVSA e o seu branqueamento em Miami e outros locais, descrevem o português Hugo André Ramalho Góis. O corretor financeiro de 39 anos, residente no Porto, está indiciado neste processo que tem oito suspeitos, dois deles já detidos. Sobre Hugo Góis não pende nenhum mandado de detenção internacional. O próprio financeiro foi nesta semana à Polícia Judiciária e à PSP do Porto para informar que está disponível para colaborar com a investigação, adiantou ao DN o seu advogado Pedro Marinho Falcão.

Entre os oito acusados, que incluem ainda um uruguaio, um colombiano, um alemão e quatro venezuelanos, Góis não é apresentado como uma peça principal. No auto de notícia, um documento de indiciação que inicia o procedimento judicial, os investigadores da Florida descrevem os factos e incluem o português como um operacional na Europa para branquear o dinheiro. A ligação seria estabelecida através do advogado venezuelano Jose Amparan, visto como um dos cabecilhas do esquema.

"O meu conselho é sair disto logo que possível. Sei que vamos ser todos apanhados, mais tarde ou mais cedo", disse Hugo Góis.

Nas 33 páginas do auto, a que o DN teve acesso, são descritas várias operações financeiras com títulos falsos, investimentos de fachada e aquisição de vasto património imobiliário. Para desmantelar o grupo, a polícia recorreu a um agente infiltrado, um arrependido que em 2016 aceitou continuar a atividade e usar microfones ocultos.

Esta fonte confidencial, como é referida pela investigação, foi fundamental para reconstituir o caminho do dinheiro desde 2014. Quando conheceu Hugo Góis, em março de 2017, em Madrid, o português foi apresentado como o homem que garantia que a operação pretendida iria ser bem-sucedida. No encontro participou também Carmelo Urdaneta, outro venezuelano apontado como especializado em lavagem de dinheiro.

Góis, lê-se no auto, terá dado instruções ao agente infiltrado sobre como proceder para evitar suspeitas nos movimentos de capital. Mas é num encontro posterior, em dezembro do ano passado, que Hugo Góis tem um comentário com o agente que pensava ser apenas um parceiro de negócio que leva as autoridades norte-americanas a apontar que estava ciente dos crimes em curso.

É transcrita a conversa, gravada pelo agente com Góis incomodado, reconhecem os investigadores no documento, com a exposição criminal: "O meu conselho é sair disto logo que possível. Sei que vamos ser todos apanhados, mais tarde ou mais cedo. Isto acaba sempre dessa forma. Sei bem que do que falo, sei como esta merda funciona. Eles vão acabar por chegar ao dinheiro e quem tiver o dinheiro vai ter problemas."

O advogado de Hugo Góis diz que esta conversa prova o contrário daquilo que os norte-americanos consideram. "Nessa altura, o meu cliente já tinha dado conta de que tinha sido enganado. Ele é um profissional que recebe ativos de pessoas para serem rentabilizados. Não sabia nada da Venezuela, onde nunca esteve, nem da corrupção. Quando deu conta disso, quis afastar-se", adiantou ao DN Pedro Marinho Falcão.

Entregou 20 milhões à justiça espanhola

Em Espanha, onde os venezuelanos controlavam uma imobiliária, por onde passaria dinheiro vindo de Miami, decorre também uma investigação. "Hugo Góis está a colaborar, como testemunha, com as autoridades espanholas. Já fez mesmo a entrega de dinheiro que tinha sob a sua custódia e de documentos", refere o advogado. A verba rondará os 20 milhões de euros.

A investigação americana foi conhecida na quarta-feira quando o Departamento de Justiça dos EUA anunciou a detenção em Miami de Matthias Krull, um banqueiro alemão residente no Panamá, e na Sicília de Gustavo Frieri, um colombiano naturalizado americano, também banqueiro, no âmbito do esquema de lavagem de dinheiro, obtido de forma ilícita com desvios da companhia estatal da Venezuela. Seriam os cérebros e têm grandes conhecimentos de como funciona o sistema bancário. Krull estava ao serviço do banco suíço Julius Baer e já passou pelo Credit Suisse e pela UBS. Em causa estão esquemas sofisticados de investimentos financeiros e imobiliários para encobrir a origem do dinheiro, aproveitando a PDVSA e o mercado cambial e as variações na troca de bolívares por dólares e euros.

Disponível para colaborar em Miami

Perante as notícias, Hugo Góis compareceu na sexta-feira, com o seu advogado, na Polícia Judiciária e na PSP para saber se era procurado e confirmou que não existe nenhum mandado de detenção internacional. "Com notícias de que era fugitivo, foi às autoridades. Ele vive no Porto, tem família no Porto e tem uma vida estável. Não fugiu. Não existe mandado de detenção e ele está disponível para esclarecer tudo. Mesmo nos Estados Unidos. Já temos advogados em Miami a trabalhar no caso. É inocente, ele não participou em nenhum esquema de branqueamento de capitais. Se existe crime é com os venezuelanos, foi lá a corrupção, foi lá que o dinheiro foi obtido", diz o defensor, para quem Hugo Góis é erradamente descrito como um dos operacionais para o branqueamento do dinheiro. "Estava a fazer o trabalho dele apenas."

Os crimes - conspiração e branqueamento de capitais - são punidos nos EUA com pena mínima de 20 anos.

Os crimes em causa - conspiração e branqueamento de capitais - são severamente punidos nos Estados Unidos. A pena mínima, se provados os crimes, é de 20 anos. A pena a aplicar depende do montante envolvido. Se existisse um mandado de detenção e Hugo Góis fosse apanhado em Portugal dificilmente seria extraditado. Portugal não extradita nacionais quando estão em causas punições com penas indeterminadas ou exista a pena de morte - o que se verifica nos Estados Unidos. Há jurisprudência já sobre casos de rejeição de extradição para os EUA.

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