"O assistente sexual é um facilitador, ajuda quem tem deficiência a ter prazer"

"Vamos falar de sexo no museu", esta sexta-feira no Museu da Farmácia. O tema é a sexualidade das pessoas com deficiência, em que a psicóloga Diana Santos é uma das intervenientes. Fala, também, na primeira pessoa.

O Museu da Farmácia inicia esta sexta-feira, às 19:00, um ciclo de conversas sobre sexualidade. O DN entrevistou Diana Santos, psicóloga clínica, especializada em terapia do casal e sexualidade. É, também, uma ativista pelos direitos das pessoas com diversidade funcional, pertence à direção do Centro de Vida Independente, associação criada em 2015 para promover a autonomia de pessoas com deficiência. Ela só há pouco tempo o conseguiu. Tem 34 anos, uma deficiência motora, desloca-se numa cadeira de rodas.

"Vamos falar de sexo no museu", porquê?

A ideia é deitar abaixo alguns tabus que possam existir. Existem muitos tabus e os nossos homens estão a ficar cada vez mais aflitos em relação ao comportamento das mulheres. A sociedade está a mudar e os homens estão a ficar para trás, estão completamente desarmados.

Sente isso na sua prática clínica?

É um dos problemas. Dizem, "a mulher com que casei há 20 anos não é a mesma", 20 anos é muito tempo, até cinco anos é muito tempo na evolução da mulher. Os homens recorrem muito a medicamentos mas as mulheres recorrem muito a artigos eróticos, potenciadores de prazer.

Persistem muitos mitos?

Alguns. Por exemplo, um dos mitos é que as pessoas deixam de ter prazer com a idade, quando, felizmente, temos pessoas a fazer sexo quase até ao fim da vida e isso é maravilhoso. Outros foram quebrados, como o da masturbação fazer mal, já ninguém pensa isso. E práticas como sexo anal, sexo oral, são mais bem aceites. Ver pornografia já pode ser uma prática a dois, estamos a quebrar mitos e é muito libertador

Há peças do museu que ilustram alguns desses mitos quebrados, como um vibrador medicinal para o tratamento da histeria, doença diagnosticada às mulheres com a sexualidade reprimida.

Sim, mas ainda temos esse preconceito. A histérica é a mulher que não faz sexo, o que não se diz em relação ao homem, A chefe está mal disposta porque não teve sexo, muitos desses mitos ainda estão incutidos e geralmente para atacar o outro

O tema desta primeira conversa é a sexualidade das pessoas com diversidade funcional, do que é que falamos?

O nosso corpo é muito o reflexo das políticas do país. Um corpo com deficiência, com alguma deformação cívica, é um reflexo das políticas governativas e é importante realçar esta questão. Desloco-me em cadeira de rodas e sou mulher.

Sente-se duplamente discriminada?

Ser mulher no nosso país é uma desvantagem; ter uma deficiência aumenta todas as questões do preconceito, desde logo porque, muitas vezes, a mulher com uma deficiência não consegue responder aos estereótipos. Em relação à sexualidade, tanto nos identificam como alguém que não tem sexo como há o oposto, os que pensam que a pessoa com deficiência é super sexualizada.

Onde está o meio-termo?

Temos as mesmas necessidades do que uma pessoa sem deficiência. E, mesmo quando o pensamento está muito centrado no sexo, deve-se muitas vezes a uma privação, até porque são poucas as possibilidades de encontro. Gostaríamos de introduzir um conceito que é novo em Portugal, o da assistência sexual.

Um assistente sexual?

Sim, é algo que já não é novo noutros países europeus, nomeadamente em Espanha. O assistente sexual proporciona que a pessoa possa explorar o seu corpo, no fundo substitui as mãos da pessoa com diversidade funcional, é um facilitador, para ajudar quem tem uma deficiência a ter prazer sexual. A masturbar-se, ou ajudar um casal em que ambos têm uma deficiência.

Que formação deverá ter essa pessoa?

Não tem uma formação específica, não é um técnico de saúde nem tão pouco é uma prostituta ou prostituto. Muitas vezes, nem está ligado ao ato, ajuda a pessoa a descobrir o que lhe dá prazer. Já acontece em Espanha, primeiro começou por ser um grupo de facilitadores informais (Tandem Team). Numa fase mais avançada, construíram uma espécie de plataforma com um serviço mais funcional (projeto "Mis manos tu manos"). É constituído por pessoas com formação em especificidades emocionais, que oferecem o serviço que querem ao preço que querem.

Um serviço desses não corre o risco de ser mal interpretado?

Em Espanha está formalizado, em Portugal ainda não. Ainda estamos na fase de a defender a existência de um assistente pessoal, alguém que ajude a pessoa com diversidade funcional a superar barreiras, nomeadamente para conseguir chegar a um encontro. Alguém da sua confiança com quem tenha empatia, para a vestir, perfumar, etc. Todas estas componentes são essenciais para a autoestima da pessoa.

As famílias estão preparadas para isso?

Para o assistente pessoal acho que sim. Os cuidadores informais, como as mães, podem ter resistência e olhar o assistente como um substituto, mas a comunidade vai olhar com bons olhos para esta figura. É fundamental para que a pessoa possa ter uma vida independente, como defendemos no Centro de Vida Independente, a primeira associação dirigida exclusivamente por pessoas com deficiência. O assistente é a nossa determinação, a nossa voz, é fundamental para a nossa autonomia.

O que é que têm feito?

Além de ativismo, gerimos o primeiro Projeto de Vida Independente Lisboa, que é financiado pela Câmara Municipal de Lisboa. Estamos na fase piloto, em que cinco pessoas se tornaram autónomas através da assistência pessoal.

Qual foi a pergunta mais estranha que lhe fizeram?

Tantas. Há a curiosidade sobre os clichés, se posso ter filhos, se sentimos prazer, inclusive por parte dos parceiros sexuais no início, O mito de não poder ter filhos ou não te sexualidade está sempre presente. É bizarro além de ser contra natura, a sexualidade é um direito humano. E depois temos os fetichistas, pessoas que se dirigem a nós com a intenção de experimentar algo diferente.

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