Nélson: "Há uma frase que guardo: 'isto correu mal, vamos embora daqui'"

O treinador de guarda-redes Nélson Pereira afirmou esta quarta-feira que ouviu alguém que participou no ataque à academia do Sporting. em Alcochete, gritar no vestiário "isto correu mal, vamos embora daqui".

Nélson Pereira, à data dos factos treinador dos guarda-redes da equipa principal do Sporting, foi ouvido esta tarde como testemunha na nona sessão do julgamento da invasão à academia leonina, em 15 de maio de 2018, que decorre no Tribunal de Monsanto, em Lisboa.

"Há uma frase que guardo, quando alguém gritou bem alto: 'isto correu mal, vamos embora daqui'. E começaram todos a sair do vestiário. Os jogadores estavam em pânico. Fiquei por ali a tentar dar algum apoio aos jogadores, alguns choravam, outros gritavam que iam embora", relatou ao coletivo de juízes o atual coordenador técnico na Academia do Sporting.

"Não consigo dizer que vinham para a conversa, mas também não consigo dizer que vinham deliberadamente para agredir. Percebemos que vinham exaltados: vamos marcar posição, algo do género. Nunca me ocorreu que os adeptos, as claques [fizessem aquilo]. Por isso é que me chocou um bocadinho. Alguém dar com um cinto é inconcebível e deixa-me triste. Alguém perdeu ali o discernimento das coisas e acabou assim. Lido com estas pessoas há 23 anos e sempre fui bem tratado", respondeu Nélson Pereira ao advogado do Sporting.

Nélson Pereira encontrava-se no ginásio quando, através da janela, viu "um grupo de pessoas a correr no exterior, na zona dos campos de treino, com a cara coberta", situação que achou "anormal e estranha", razão pela qual correu na direção dos balneários na tentativa de avisar os atletas ou de fechar a porta do vestiário, mas que não tinha a chave.

A testemunha, que se chegou a emocionar durante o depoimento, explicou que o grupo chegou até à porta que dá acesso ao vestiário: "Já deparo com eles muito em cima de mim e, naquele momento, tentei impedir. Quando falo com um deles, diz-me: 'Nélson, isto não é contigo, é com o Acuña e o Bataglia'. Respondi 'não deem cabo disto, não brinquem com isto'. Fui empurrado e entraram."

Para o então treinador de guarda-redes, que contabilizou cerca de 20 pessoas, foi "tudo muito rápido", mas viu agressões a futebolistas: "Vi o Misic a ser agredido com um cinto, no tronco. Há uma altura que o Rui Patrício e o William Carvalho estavam de pé no meio daquilo tudo e foram empurrados. Mas havia muito fumo devido às tochas deflagradas e atiradas para o meio do vestiário. Eu apaguei uma delas e há outra que foi lançada e que atingiu o professor Mário Monteiro, já no corredor, quando já estavam a sair."

Só mais tarde é que se apercebeu que o holandês Bas Dost estava ferido, assim como "o mister Jorge Jesus, que tinha uma marca, e o Ludovico [fisioterapeuta] também".

A viatura do antigo guarda-redes foi atingida com um cinto e por tochas. Nélson Pereira disse que gastou 3.000 euros na reparação do Porsche, que teve de levar um capot novo.

Durante os cinco anos em que foi um dos capitães da equipa principal do Sporting, Nélson Pereira referiu que houve reuniões com as claques, sobretudo quando os resultados eram negativos, mas que as mesmas "eram programadas, autorizadas e acompanhadas".

Nélson Pereira contou ainda ter estado presente na reunião entre o então presidente Bruno de Carvalho e os elementos do staff, realizada em 14 de maio de 2018, véspera do ataque, já depois de Bruno de Carvalho ter reunido com a equipa técnica. "O presidente disse-nos que teria de tomar medias, pois tínhamos falhado um dos principais objetivos da época [acesso à Liga dos Campeões, após derrota 2-1 no Marítimo]. Queria saber do staff quem estava com ele, que quem não estivesse que saísse, pois ia tomar medidas. E lembro-me de ter dito que ainda tínhamos uma taça [de Portugal] para ganhar. Quando entrámos para essa reunião, as notícias que circulavam eram de que o treinador tinha sido despedido. Nós, o staff, éramos a equipa que já vinha a trabalhar no clube, independentemente do treinador", explicou Nélson Pereira.

A próxima sessão está agendada para segunda-feira, 9 de dezembro, durante a qual serão ouvidos os primeiros jogadores: o guarda-redes Luís Maximiano, Wendell e Jeremy Mathieu.

Em 15 de maio do ano passado, durante o primeiro treino da equipa de futebol do Sporting, após uma derrota na Madeira com o Marítimo, por 2-1, cerca de 40 adeptos leoninos encapuzados invadiram a academia do clube, em Alcochete, e agrediram vários jogadores, bem como o então treinador, Jorge Jesus, e outros membros da equipa técnica.

O atual líder da claque Juventude Leonina, Nuno Mendes 'Mustafá', o antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos do clube, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Os três arguidos respondem ainda por um crime de detenção de arma proibida agravado e Mustafá também por um crime de tráfico de estupefacientes.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à academia, o Ministério Público imputa-lhes a coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Estes 41 arguidos vão responder ainda por dois crimes de dano com violência, por um crime de detenção de arma proibida agravado e por um crime de introdução em lugar vedado ao público.

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