"Não somos máquinas. Cada vez que saímos levamos 20 quilos a mais"

Manter a forma física dos 30 ou 40 anos aos 60 é praticamente impossível, defendem os bombeiros profissionais. "Não conseguimos ter a mesma agilidade", explica António Vinagre, que aos 56 anos é subchefe e formador no Regimento de Sapadores de Lisboa

"Eu tenho 56 anos, depois dos 50 é extremamente complicado, é quase impossível. São mesmo muito poucos os colegas que conseguem manter a condição física e fazer o que faziam aos 30, 40 anos". António Vinagre é um dos bombeiros profissionais que vão ter de trabalhar mais alguns anos até se poderem reformar, caso entre em vigor o decreto-lei que estipula os 60 anos como a idade limite para a aposentação dos sapadores. E alerta para as dificuldades que estes profissionais têm em cumprir a sua missão quando entram numa idade mais avançada.

A decisão da reforma aos 60 anos está a ser contestada pela Associação Nacional de Bombeiros Profissionais com a realização de manifestações, como a desta quarta-feira em Lisboa, onde tenta alertar para o alto risco da profissão e o desgaste a que são sujeitos estes elementos que prestam serviço nas corporações municipais.

"A nossa atividade é bastante exigente e por muito que queiramos não conseguimos ter a agilidade que tínhamos [aos 50 anos]. Não somos máquinas, somos humanos. Nas intervenções na malha urbana cada vez que saímos vamos equipados com cerca de 20 quilos a mais. É o que representa o equipamento que levamos", explica, referindo-se ao fato, máscara, luvas, colete etc, todo um conjunto de meios pensados, como afirma, para "a proteção, a segurança" do bombeiro. "É pensado para isso, não para o conforto", recorda.

Hoje em dia, a situação dos bombeiros profissionais no que diz respeito à reforma é muito diferente da que António Vinagre conheceu quando entrou no regimento, em julho de 1989. "Na altura beneficiávamos de um regime em que nos aposentávamos aos 50 anos e íamos beneficiando ao longo da carreira de uma percentagem de tempo de serviço de 30%, isso fazia com que aos 50 anos já tivéssemos o tempo suficiente para a reforma. Depois, em 2005, esse benefício passou para os 15%; e mais tarde desapareceu", explica.

António Vinagre considera que "se houver vontade do governo é possível corrigir [o diploma dos 60 anos], penso que sim. Basta que eles sejam sensíveis a este tema", sublinha.

Nos 30 anos que leva de profissão diz que os bombeiros profissionais têm "andado sempre a correr atrás do prejuízo e em vez de reivindicar melhores condições acabamos por estar a lutar por manter as que temos. No fundo é o que estamos a fazer. Queremos ter uma carreira digna, devidamente regulamentada, que nos esclareça até onde podemos ir. Queremos ter uma aposentação tão justa quanto nobre é a nossa profissão. Simplesmente isso".

Daí os protestos como o de janeiro frente ao Ministério do Trabalho e da Segurança Social e o desta quarta-feira em que cerca de 500 bombeiros profissionais de vários pontos do país, incluindo a Madeira e os Açores, desfilaram entre a zona de Santos até à Assembleia da República, numa manifestação recheada de palavras e frases em tarjas que aludiam para a necessidade de equiparar os bombeiros às forças de segurança - no caso da idade da reforma - e para as dificuldades que um bombeiro tem aos 60 anos em cumprir a missão de socorro.

A esperança que resta

"Do socorro para o caixão" ou "quartéis de Lisboa = novos lares de idosos", eram algumas das ideias chave que se liam nas tarjas que mostravam na rua em frente à AR.

Após ser recebido no Parlamento, o presidente da ANBP, Fernando Curto, explicou que o memorando que tinham preparado "vai ser remetido aos grupos parlamentares e às várias comissões. Há um prazo legal após a aprovação em conselho de ministros e antes da promulgação por parte do Presidente da República para fazer alterações [aos diplomas] e nós temos esperança".

E esperança é mesmo só o que resta a estes profissionais que, como lembra António Vinagre, estão sob a alçada da lei geral - ou seja, são penalizados por cada mês em que pretendam antecipar a reforma - e que, a manter-se a decisão governamental, não vão poder aposentar-se sem penalização. "Tendo em conta que a grande maioria de nós entra [para os bombeiros] depois dos 20 anos, só conseguimos chegar aos 40 anos de serviço aos 60 anos", reconhece.

Também lembra que é necessário renovar as corporações e daí serem necessários os concursos que estiveram congelados - tal como em toda a função pública -, mas garante que no caso de Lisboa a situação é melhor do que no resto do país.

"O efetivo atual é de cerca de 900 elementos [no Regimento de Sapadores Bombeiros] e neste momento temos uma casa bem organizada, os responsáveis políticos [da autarquia] são sensíveis às nossas necessidades e nos últimos anos têm-nos dotado dos equipamentos necessários, quer a nível individual quer a nível de viaturas. Creio que fizeram um enorme esforço financeiro para nos dar o que necessitávamos para fazer bem a nossa função", reconhece, acrescentando: "Temos pena que o resto do país não nos veja como exemplo a seguir."

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