Mulher que colocou bebé no lixo teve de ter "razão muito forte", diz Marcelo, pedindo "compreensão"

Depois de visitar o ecoponto onde o bebé foi encontrado e de ser filmado a "entrevistar" o sem-abrigo que o encontrou, o PR pede agora que haja "noção" e "compreensão humana" em relação à mulher acusada de ter dado a criança à luz e de a ter abandonado no lixo, e que se encontra em prisão preventiva desde sexta-feira.

"É importante que se tenha a noção e a compreensão humana para o ambiente que rodeou aquele gesto [da mãe] e é bom que aquela criança, quando um dia crescer, não fique com a ideia de que a sua mãe não fez aquilo senão por uma razão muito forte que tem a ver com as condições dramáticas de vida social em que teve de tomar aquela decisão", disse Marcelo Rebelo de Sousa este domingo, considerando ainda que deve ser "encontrada uma forma de defender uma pessoa que, em desespero total, fez o que fez", e agradecendo às autoridades cabo-verdianas pelo facto de terem já manifestado interesse pelo destino da mulher de 22 anos, indiciada por homicídio qualificado na forma tentada e que é nacional de Cabo Verde.

As declarações foram feitas aos media em Braga, onde o PR se deslocou para a missa celebratória da canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires (1514/1590) que decorreu a partir das 15.30.

Após ser divulgado o facto de a mulher, detida na madrugada de sexta-feira, ter nacionalidade cabo-verdiana, a embaixada de Cabo Verde em Portugal publicou um comunicado no Facebook no qual, depois de assegurar estar a "a fazer diligências no sentido de recolher mais e melhores informações sobre o caso e prestar todo o apoio que se mostrar necessário". acrescentava: "Não deixa a Embaixada de Cabo Verde de fazer notar, no entanto, que situações dessa natureza estão associadas a casos de profundo de desespero, de grande perturbação ou de desequilíbrios emocionais muito fortes. Nestas situações mostra-se sempre mais avisado compreender para ponderar as ações adequadas do que condenar à partida, no pressuposto de crueldade intencional."

A última frase da representação diplomática cabo-verdiana referia o PR português: "Palavras sensatas e de um profundo humanismo, como aquelas proferidas pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa são um vivo exemplo do modo como se deve lidar com estas trágicas situações."

Recorde-se que houve quem, como a deputada do PS e ex secretária de Estado da Igualdade Catarina Marcelino, tivesse considerado de outra forma a intervenção de Marcelo no caso. Referindo o facto de este ter na quinta-feira visitado, acompanhado de câmaras de TV, o ecoponto (perto da Estação de Santa Apolónia) onde o bebé fora dois dias antes encontrado, e dialogado com o homem de 44 anos, sem abrigo, que o retirou do lixo, a ex governante acusou, num post publicado no sábado no Facebook, o chefe de Estado de "explorar a pobreza, a miséria e a desgraça."

"Quando ouvi a notícia que tinha sido a mãe do bebé a pô-lo no lixo, depois de um ano a viver na rua, sem qualquer apoio, sem que alguém desse por ela e pela sua gravidez, apesar dos inúmeros projetos que dão comida aos sem-abrigo em Lisboa que o Presidente da República gosta tanto de acompanhar sempre com as televisões atrás tenham dado pela situação. Que a rapariga de 22 anos tenha parido no meio da rua e depois tenha deitado fora o bebé e voltado para a tenda, só pensei: 'Que país é o meu onde isto pode acontecer?"", escreveu a ex governante. "Quando vi o Presidente da República, sem escrúpulos, a fazer uma visita guiada ao local onde o bebé foi encontrado com o sem-abrigo que o encontrou a servir de cicerone, acompanhado pelas televisões, fiquei muito zangada. Com que direito Marcelo Rebelo de Sousa explora assim a pobreza, a miséria e a desgraça?"

https://www.facebook.com/CatarinaMarcelino2016/photos/a.494520547339732/1683256035132838/?type=3

Catarina Marcelino terminou o texto assegurado ter ficado "mais e mais zangada" ao ver "nas redes sociais pessoas sem compaixão atreverem-se, do alto das suas vidas estruturadas e confortáveis, a condenar esta rapariga cuja vida não fazem ideia do que poderá ser. Eu sei que hoje a mãe da criança não está sozinha, porque tal como eu há outras pessoas que não a vão deixar só!"

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