Metade dos docentes universitários está em exaustão

Estudo sobre o impacto da pandemia na saúde mental dos professores universitários mostra também que 37% estão em "burnout" profissional

Cerca de metade dos docentes universitários apresenta sinais de exaustão e fadiga elevada no contexto da atual pandemia, enquanto 37% sofrem de burnout associado à atividade profissional. A maioria (60%) refere ainda dificuldades relacionadas com o sono e um quarto admite sintomas de ansiedade, agitação e dificuldades em relaxar ou acalmar.

São os resultados preliminares de um estudo inédito em Portugal sobre a saúde mental dos docentes do ensino superior em tempos de covid-19, que foi realizado por uma equipa de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, do CINTESIS - Centro de Investigação em Tecnologias, e da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto (P.PORTO, InED), sob a coordenação de Ivone Duarte e Carla Serrão.

O estudo, que está ainda a decorrer, mas já com dados que "apontam pistas importantes", como sublinham as duas coordenadoras, é o primeiro em Portugal a avaliar o impacto da covid-19 na saúde mental dos professores universitários.

O objetivo foi, justamente esse: lançar luz sobre essa realidade até agora desconhecida, abrindo assim a porta à possibilidade de soluções para os principais problemas encontrados.

"Não havia nenhuma referência na literatura científica sobre esta questão, por isso decidimos avançar", explica Ivone Duarte, psicóloga, investigadora do Cintesis e professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Ivone Duarte e Carla Serrão já tinham coordenado antes uma investigação sobre este mesmo tema, do impacto da pandemia na saúde mental, mas em relação aos profissionais de saúde.

Os dados desse anterior estudo, que foram divulgados em maio, mostraram que 52% desses profissionais mostravam sinais de exaustão física ou psicológica e burnout associado ao exercício da sua atividade durante a pandemia - o burnout, ou estado de exaustão associado ao stress laboral, acompanhado de diminuição da eficácia profissional, é reconhecido como doença pela OMS desde 2019.

Mudança abrupta

"Ficámos com muita curiosidade sobre o que estaria a acontecer a este nível com os docentes universitários, uma vez que, por causa da pandemia, de um momento para o outro, foi preciso mudar do ensino presencial para um sistema de ensino à distância em exclusivo, o que constituiu um enorme desafio", conta Ivone Duarte. "A grande maioria dos docentes, como mostram os nossos resultados, não tinha sequer experiência anterior de ensino à distância", sublinha a psicóloga e investigadora.

Tal como já tinha feito para os profissionais de saúde, a equipa lançou um inquérito on line dirigido aos professores universitários, que decorreu entre 19 de junho e 31 julho, já depois do período de confinamento puro e duro, mas com a situação de ensino à distância ainda em curso, uma vez que ela acabou por se prolongar até final do ano letivo.

No universo das 355 respostas válidas obtidas pela equipa, e que englobam docentes de todas as regiões do país, incluindo as ilhas, havendo no entanto um maior peso da região norte, a maioria (67%) são de mulheres.

De todos os participantes, 34% têm filhos menores de 12 anos, e 22% são cuidadores de pessoas idosas ou com algum tipo de incapacidade, enquanto 13% admitiu ter vivenciado a perda de alguém próximo desde o início da pandemia.

Em relação à sua atividade profissional, 68% dos respondentes afirmaram ter mais de 15 anos de experiência letiva, e se 96% confirmaram ter lecionado à distância neste período de pandemia, através de plataformas on line (o Zoom foi a mais utilizada), 77% admitiu, no entanto, que não tinha qualquer experiência prévia nessa matéria.

Este último dado, sobretudo, devido à falta de formação específica para o ensino à distância e para as suas tecnologias, com todos os problemas técnicos e práticos que isso implicou no quotidiano profissional, podem ajudar a explicar o facto de cerca de metade dos inquiridos apresentarem fadiga elevada e exaustão, acreditam os investigadores.

"Foi preciso fazer uma adaptação muito rápida, com mudanças a acontecerem em cada semana, ou mesmo diariamente, e o apoio das equipas técnicas das instituições de ensino superior, em alguns casos acabou por não ser suficiente para todos os problemas técnicos que os docentes tiveram de enfrentar", diz Ivone Duarte.

Mas a mudança abrupta do ensino presencial para as plataformas digitais, a partir de casa, também teve outras repercussões importantes na vida destes docentes, que passaram a ter de gerir a vida profissional e familiar num único espaço: a própria casa. Muitos deles com filhos pequenos ou idosos a seu cargo, o que não terá deixado de pesar nos resultados tão expressivos do estudo, com metade dos participantes em situação de exaustão pessoal, e 37% em burnout associado à atividade profissional.

Encontrar soluções

A investigação não está ainda fechada. Neste momento a equipa está ainda a analisar os dados qualitativos, já que o inquérito incluiu uma série de perguntas abertas, nomeadamente sobre as vantagens e desvantagens do ensino à distância, a forma como decorreu a aprendizagem por parte dos estudantes nas circunstâncias excecionais vividas e, também, sobre eventuais soluções para o futuro. Essa análise só deverá ficar concluída no final de novembro, mas os dados preliminares já apontam caminhos.

"Os resultados dão-nos pistas importantes sobre o impacto da situação pandémica na saúde mental dos docentes universitários, e apontam para a necessidade de se encontrarem soluções para os problemas identificados", nota Carla Serrão, também psicóloga, professora Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto e investigadora do InED , Centro de Investigação e Inovação em Educação.

"É urgente que as instituições de ensino superior proporcionem soluções imediatas na resposta a necessidades quer instrumentais, quer socioemocionais a este grupo em particular", alertam as coordenadoras do estudo.

Essas soluções terão de passar, na vertente operacional, por "ações de formação sobre ensino à distância destinadas aos docentes, pelo reforço das equipas técnicas para apoio nas questões tecnológicas que se colocam, e até pelo desenvolvimento do próprio sistema de ensino distância", sublinham as coordenadoras do estudo.

Mas há também trabalho a fazer, por parte das instituições de ensino superior, na dimensão socioemocional. "Nomeadamente deve ser disponibilizado apoio psicológico aos docentes, tal como já acontece em relação aos alunos, e ações de formação para treino de resiliência", conclui Ivone Duarte.

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