Manteve a mãe fechada num quarto e assistiu "impávido" à sua morte

A idosa, de 82 anos, "estava tão magra que parecia um prisioneiro de Auschwitz", descreve a PJ. Foi encontrada na cama, suja de fezes e urina, com o corpo cheio de escaras e vestida com roupa de inverno. Filho é suspeito de homicídio qualificado.

Não é comum serem revelados muitos pormenores de um crime, mas o cenário de sofrimento atroz que terá pautado os últimos anos de vida de uma idosa levou a Polícia Judiciária a abrir uma exceção. No comunicado enviado às redações já era clara a crueldade do crime que terá sido cometido em Grândola.

Dizia: "A investigação efetuada permitiu apurar que, desde há cerca de dois anos o presumível autor mantinha a vítima, sua progenitora, com 82 anos de idade, fechada em casa e confinada ao quarto de dormir, privada de alimentos, bebida e cuidados de saúde, assistindo impávido ao degradar do seu estado, até à falência total dos órgãos vitais e consequente morte, no passado sábado".

O que a nota da Polícia Judiciária não pode descrever com rigor - nem o que a seguir se conta - é a intensidade do cheiro, a desumanidade patente da falta de higiene na habitação e principalmente no quarto onde a mulher foi encontrada.

A idosa foi encontrada já cadáver num quarto com as janelas fechadas em agosto, vestida com roupa de inverno, e suja com as suas próprias fezes e urina.

A PJ suspeita que há pelo menos dois anos a mulher não sairia da cama. Tinha o corpo cheio de escaras - feridas que surgem na pele após longos períodos imobilização. A autópsia só será realizada na terça-feira, mas tudo indica que terá morrido de fome e de sede.

"O cheiro na casa era inacreditável - não era um cheiro a morte, até porque, ao contrário do que foi escrito, a idosa não estaria morta há vários dias, mas há apenas algumas horas", quando o filho contactou o INEM e a GNR local a dar conta de que teria encontrado a mãe sem vida na cama, segundo Vítor Paiva, coordenador do Departamento de Investigação Criminal de Setúbal.

"Deparámo-nos com um ambiente conspurcado, com urina e fezes por todo o lado - havia papel higiénico usado em cima da mesa da cozinha. A casa tinha um cheiro a podre decorrente de uma extrema falta de higiene, que piorava de forma indescritível no quarto da idosa, situado no primeiro andar", descreve Vítor Paiva ao DN.

PJ: "Não tenho a menor dúvida de que se trata de um crime"

O corpo da mulher de 82 anos foi encontrado nessa divisão que tinha as janelas fechadas e as persianas corridas, no mês de agosto e em pleno Alentejo. Estava deitada na cama e tinha roupa de inverno vestida - "não era um pijama, mas roupa de sair", conta o inspetor. As calças estavam de tal forma coladas ao corpo que tiveram de ser cortadas.

"Tudo indica que urinava e defecava na cama, uma vez que o filho não a deslocava nem a limpava", acrescenta.

Estava tão magra que o coordenador da PJ só encontra um termo de comparação: "Fazia lembrar as imagens dos prisioneiros de Auschwitz".

Por todo o lado, na casa, a polícia encontrou garrafas de álcool - "em muito maior quantidade do que medicamentos".

Os inspetores que estiveram no local foram obrigados a usar duas máscaras para conseguirem suportar o cheiro nauseabundo da habitação.

O cenário indescritível de sujidade - em 36 anos de profissão, o inspetor só se recorda de dois ou três casos parecidos - e o estado de desnutrição da mulher, foram indícios fortes que levaram a Polícia Judiciária à convicção de que a morte configura um crime por homicídio qualificado.

Desde a hora em que foi dado o alerta pelo suspeito para a morte da mãe - cerca das 13h30 de sábado - e até à hora em que lhe foi dada voz de prisão, não passaram mais de dez horas.

"Fui eu quem deu voz de detenção. Não tenho a menor dúvida de que se trata de um crime", afirma o inspetor. "Não a deixou simplesmente morrer, tudo fez para que isso acontecesse", frisa.

O suspeito foi ouvido e depois interrogado nas instalações da Polícia Judiciária e posteriormente detido. Foi ouvido esta segunda-feira por um juiz que lhe decretou a prisão preventiva.

Não trabalhava há seis anos. Sofre de problemas de alcoolismo

O homem de 53 anos mudou-se para casa da mãe, em Grândola, há seis anos, depois de se ter separado. A PJ contactou a ex-mulher - enfermeira - que contou que a separação se deveu aos problemas de alcoolismo do ex-marido. Desde então que não trabalhava e vivia à conta da pensão da mãe. É também o único herdeiro das economias da idosa.

Quando recebeu o filho em sua casa, a idosa tinha 76 anos e ainda confecionava as refeições e fazia a lida da casa. Há dois anos, sentiu-se mal no posto dos CTT, ao qual se deslocava todos os meses para levantar a pensão. Foi a última vez que foi vista em público.

Grândola é uma terra pequena. Apesar de nunca mais ter sido vista, o filho conseguiu renovar o cartão de cidadão da idosa - embora tenha deixado o seu próprio caducar. Precisava do documento da progenitora para continuar a levantar o cheque da pensão. Segundo a Polícia Judiciária, o valor era suficiente para que os dois vivessem sem dificuldades.

Com a mãe fechada em casa, no quarto do primeiro andar, sem acesso a cuidados de saúde e higiene, nem a comida ou água em quantidades suficientes, o homem conseguiu que um funcionário dos CTT lhe entregasse todos os meses o valor do cheque - em dinheiro - da pensão da idosa.

A mercearia da terra deixava bens alimentares, que o homem encomendava, à porta da habitação. Era tudo pago em numerário.

"Uma das primeiras coisas que o filho nos disse foi que a mãe não queria comer nem beber, o que nos deixou desde logo intrigados", diz ao DN Vítor Paiva.

"Ninguém faz isto sem consciência"

Para o inspetor, enquanto a idosa conseguiu tratar de si e da casa, e até do filho, era uma ajuda. Quando ficou debilitada, "passou a ser um empecilho", afirma o inspetor.

Para o coordenador do Departamento de Investigação da Polícia Judiciária de Setúbal, o suspeito teve intenção de matar a mãe.

"Ninguém faz isto sem consciência", afirma. "Não a deixava sair nem deixava ninguém entrar em casa. Não a alimentava, não lhe dava cuidados de higiene nem de saúde. Nunca pediu ajuda a ninguém", aponta.

Nem os vizinhos, nem os serviços da Segurança Social, ninguém se terá dado conta das condições em que a idosa terá vivido pelo menos durante dois anos.

"Já assisti a muitos casos difíceis, mas com este nível de maldade, não posso dizer que tenham sido muitos", diz Vítor Paiva. Há situações semelhantes a acontecer mesmo ao nosso lado, que isto sirva como um alerta", frisa.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG