Sociólogo acusado de instrumentalizar revista científica para defender tauromaquia

Artigo que relaciona "atividade tauromáquica" de cada zona do país com taxa de criminalidade para concluir, "inquestionavelmente", que assistir a touradas não tem consequências negativas em crianças está no centro de uma crise na revista de Sociologia do ISCTE, cujo diretor é acusado de "fraude científica".

"O respeito pela verdade e pelos factos é essencial. Cada um tem a sua opinião, mas a opinião vale o que vale. E por isso é que apelamos aos estudos científicos e àquilo que a ciência tem para nos ensinar, porque a ciência supera aquilo que cada um acha. A ciência tem um discurso sobre a verdade e tem de ser respeitado."

Este foi o introito que Luís Capucha, professor de Sociologia no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e assumido aficionado, fez no Prós & Contras da RTP no qual se debatia o IVA da tauromaquia antes de mencionar "um artigo científico publicado numa revista científica de Sociologia" que permitiria refutar "aquela tese que os anti-taurinos utilizam a respeito das crianças e dos malefícios que a tauromaquia faz às crianças." Para tal, explicou, "os autores cruzaram o índice de atividade tauromáquica com o índice de criminalidade e de poder de compra, para ir ver se há alguma relação entre a violência e a presença da tauromaquia e se há ou não alguma relação entre o desenvolvimento e a tauromaquia."

E há?, perguntou a moderadora. Capucha, que vive em Vila Franca de Xira, um concelho ribatejano conhecido pela atividade tauromáquica, e é desde 2016 presidente da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal, foi taxativo: "Não há relação nenhuma. Se a tese dos antitaurinos fosse verdadeira, nós não conseguiríamos viver nos nossos concelhos, porque seriam tão violentos, tão mais violentos que em todos os outros sítios, que ninguém conseguiria sobreviver. Portanto esse argumento é completamente falacioso."

"Se a tese dos antitaurinos fosse verdadeira, nós não conseguiríamos viver nos nossos concelhos, porque seriam tão violentos, tão mais violentos que em todos os outros sítios, que ninguém conseguiria sobreviver. Portanto esse argumento é completamente falacioso."

Ninguém perguntou qual a revista que publicara o artigo e quem são os autores; o mesmo tinha sucedido três dias antes na SICN, num debate versando o mesmo assunto e no qual o sociólogo tinha citado o dito estudo. Assim, Capucha não teve de esclarecer ser um dos autores e diretor da revista que o publicara -- a Sociologia, Problemas e Práticas, revista do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE.

Questionado pelo DN sobre o motivo pelo qual não assumiu a paternidade do artigo nem o facto de dirigir a revista que o publicou, o sociólogo, cujos "principais temas de pesquisa", de acordo com o seu currículo no site do ISCTE, "são as políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social, as políticas sociais, as políticas de educação e de formação, as culturas populares, a reabilitação de pessoas com deficiência e as metodologias de planeamento e avaliação", tendo desempenhado vários cargos públicos (diretor-geral do Departamento de Estudos, Prospetiva e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social de 1998-2001; diretor-geral da Direção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação de 2006 a 2008; presidente da Agência Nacional para a Qualificação, responsável pelo Programa Novas Oportunidades, de 2008-2011; membro do Comité de Emprego da União Europeia), diz que "a questão da autoria era irrelevante naquele contexto e ninguém perguntou."

Artigos publicados e despublicados

As coincidências não ficam por aqui. Menos de duas horas após o final do P&C, ou seja, perto da uma da manhã de terça 20 de novembro, vários sociólogos que haviam submetido artigos para publicação na revista em causa, que sai três vezes por ano, receberam um email no qual eram notificados de que o seu artigo fora publicado on line, "ahead of print", ou seja, em pré-publicação, antes da edição impressa.

De facto, no site da revista encontraram vários artigos publicados, com data de 15 de novembro. Entre eles, aquele que o diretor referira na TV nos debates de 16 e 19 como tendo sido "publicado numa revista científica" -- Tauromaquia, Violência e Desenvolvimento - Opiniões e Evidências -- no qual consta como o primeiro de três autores.

Mas aquilo que à partida pareceria uma boa surpresa para os destinatários do mail - alguns tinham submetido os artigos há mais de um ano e as publicações fazem falta no curriculum e são relevantes para concursos e candidaturas - causou perplexidade e indignação.

Não só por os autores terem sido avisados cinco dias após a publicação, mas sobretudo porque ser publicado numa revista científica indexada internacionalmente, como é o caso desta, implica um sistema de certificação e verificação que se processa através de "revisão por pares", ou seja, especialistas da mesma área: os artigos são enviados, sem identificação dos autores, para outros cientistas, que os apreciam e fazem reparos ou sugestões que por sua vez seguem, também sem referência à identidade de quem os fez, para os autores, para que estes procedam aos ajustes e correções necessários.

Menos de duas horas após o final do Prós e Contras, vários sociólogos que tinham submetido artigos para publicação na revista dirigida por Luís Capucha receberam um email a informar de que esses artigos tinham sido publicados on line. Entre os artigos publicados, estava aquele a quem Capucha fizera referência no programa.

Chama-se a este procedimento "double blind", ou seja, "cegueira dupla", porque uns não sabem quem são os outros, e é considerado fundamental na credibilização da divulgação científica. Acrescia que os artigos em causa foram colocados on line sem revisão de texto nem formatação final, ou seja, estavam em formato "manuscrito", apresentando até "marcas de revisão, gralhas e outros erros", segundo autores.

Considerando que a publicação sem peer review punha em causa a integridade científica dos artigos e a credibilidade da revista, vários autores enviaram, na quarta 21, um "pedido de esclarecimento formal" à direção editorial da revista. Neste, perguntavam se os artigos tinham sido alvo de revisão científica, por que motivo não tinham sido notificados de que os artigos tinham sido aceites para publicação e não tinham tido ocasião de fazer uma revisão final de texto, e, por fim, como funciona afinal o sistema de revisão científica da revista.

Na sexta 23, os autores do pedido de explicações foram notificados de que os artigos tinham sido retirados. A justificação foi de que não estavam "devidamente formatados", adiantando que "logo que estejam devidamente formatados todos os artigos, caso os autores explicitamente não se oponham, voltaremos a editá-los no prelo." As perguntas não foram respondidas.

Considerando que a publicação sem revisão por pares punha em causa a integridade científica dos artigos e a credibilidade da revista, vários autores enviaram, na quarta 21, um "pedido de esclarecimento formal" à direção editorial da revista, perguntando se os artigos tinham sido alvo de revisão científica, por que motivo não tinham sido notificados de que os artigos tinham sido aceites para publicação. Dois dias depois os artigos foram retirados.

Ao DN, porém, Luís Capucha esclareceu, por escrito, qual o sistema de revisão científica em vigor na revista: "Quando um artigo é submetido, ele é analisado pelo Conselho de Redação (CR) que, de três uma: ou decide aceitar; ou remete para revisão por parte de dois ou três peritos, ou rejeita. No segundo caso, o único que se tem verificado, há peritos convidados a rever que não estão disponíveis, sendo por isso necessário convidar outros. Os pareceres podem demorar algum tempo a chegar, embora a revista automaticamente emita reforço do pedido de revisão após três semanas de espera. Os pareceres dos dois ou três peritos podem ou não ser coincidentes, e podem ser, genericamente, do seguinte tipo: publicável como está; publicável com pequenas alterações, que são especificadas; publicável com grandes alterações, também especificadas; não publicável, com a devida justificação."

Nos casos em que os pareceres "são no sentido de "publicável"", explica Capucha, "com pequenas ou com grandes alterações, as recomendações dos peritos são enviadas aos autores, que decidem se querem ou não proceder às alterações. Se o fizerem, submetem novamente o artigo, que é reenviado aos peritos para verificar a conformidade. Nos casos em que estes não se dão por satisfeitos, normalmente o CR rejeita os artigos. Nos casos em que recomendam a publicação, o CR decide geralmente aprovar."

Mas, sublinha o atual responsável da revista, "a última palavra é sempre do Diretor e do CR, que têm em conta os pareceres dos peritos revisores. De todas as rejeições, como das aceitações, é dado conhecimento aos autores."

Uma vez aprovado, prossegue Capucha, "o artigo fica a aguardar a sua vez para ser publicado. Por exemplo, podemos estar neste mês a aprovar artigos que só terão lugar num número a publicar em 2020. Por isso se criou, no âmbito da política de ciência aberta, este procedimento do Ahead of Print. No fundo, o artigo está aceite, não está definitivamente publicado num número da revista, mas pode ser acedido e entrar no circuito de divulgação da ciência."

Assim, explica, "o que foi colocado on line, em Ahead of Print (no Prelo) foram os artigos que estavam aprovados na data da última reunião do Conselho de Redação, alguns dos quais poderão só vir a ser editados na versão definitiva em 2020."

Regras da revista violadas?

Sobre a existência ou não de revisão científica de todos os artigos publicados "ahead of print", porém, Luís Capucha não é claro: "Se os autores não receberam indicações de peer review (revisão pelos pares), foi porque os seus artigos foram aceites para publicação sem sugestões de correção. Com a mensagem recebida no dia que refere [20 de novembro], os que não sabiam ficaram a saber que o seu artigo tinha sido aceite para publicação, numa data ainda a determinar pelo Conselho de Redação em função da data de aprovação e de critérios editoriais como, por exemplo, a temática que abordam. Embora o Diretor tenha a autoridade suficiente para aprovar artigos, nenhum, no meu mandato ou no anterior, que eu saiba, foi aprovado sem a devida revisão pelos pares."

A utilização do condicional por Luís Capucha implica que não sabe se os artigos publicados on line tiveram ou não revisão científica; ora, nesse caso, como poderia ter decidido publicá-los?E como pode, sendo diretor, alegar não saber? É a editoria da revista que faz a ponte entre autores e "árbitros", e, como o próprio Capucha explicou ao DN - "A última palavra é sempre do Diretor e do CR, que têm em conta os pareceres dos peritos revisores. De todas as rejeições, como das aceitações, é dado conhecimento aos autores" -- a decisão de publicar os artigos depende do feed back dos revisores científicos. Logo, de acordo com as regras, não poderia ter decidido publicar os artigos sem conhecer as revisões.

E, como os membros da academia contactados pelo DN certificam, não só é raríssimo não haver sugestões de correção ou quaisquer observações, como mesmo que fosse o caso os autores receberiam sempre a notificação da revisão.

"O que os senhores dizem que "provaram" não podia ser sequer testado com os indicadores que escolheram (que raio de referees [revisores científicos] deixam isto passar em claro?). Instrumentaliza-se a sociologia e uma revista de que se é diretor para fazer valer um ponto de vista interessado."

Ora vários dos artigos publicados no dia 15 de novembro, "ahead of print", foram submetidos para integrar um número temático da revista sobre questões de família e género. Esse número tem duas editoras "convidadas" - Karin Wall, diretora do Instituto de Ciências Sociais, e Maria das Dores Guerreiro, anterior diretora da revista e atual vice-reitora do ISCTE. A primeira admitiu ao DN que o processo de revisão científica dos artigos em causa ainda não está terminado, ou seja, não havia de facto ainda peer reviews desses artigos.

Além disso, certifica Wall, "os autores recebem sempre um feed back da revisão, tinham de ser notificados". Sobre as circunstâncias da publicação, prefere não se alongar: "Não soube, não fui avisada antes. Esta é uma revista muito importante para a comunidade científica, que prezo muito. Confio no ISCTE e no Centro de Sociologia para resolverem a questão."

O DN não teve possibilidade de confrontar Luís Capucha com esta informação, já que este não voltou a responder a mails ou mensagens ou a atender chamadas do jornal após sexta 23.

"Não soube da publicação, não fui avisada antes. Esta é uma revista muito importante para a comunidade científica, que prezo muito. Confio no ISCTE e no Centro de Sociologia para resolverem a questão."

Nesse dia o sociólogo tinha acabado por reconhecer, em conversa telefónica, que "publicar os artigos daquela forma pode ser considerado um lapso", e comprometeu-se a enviar ao DN a revisão "por pares" do artigo de que é autor, assim como a especificar a data da sua aprovação para publicação e de quem foi essa decisão. Nas respostas escritas, antes dessa conversa, tinha adiantado que "a revisão pelos pares indicou que o artigo era publicável com alterações significativas. Foram realizadas, e os revisores ter-se-ão dado por satisfeitos, porque a indicação que recebi depois é que o artigo, na versão revista, foi aprovado" mas declarou não poder disponibilizá-la alegando que "não é possível ter acesso às revisões, dados os processos de "double blind review".

Apesar de ter sido relembrado várias vezes do compromisso de envio da peer review, Luís Capucha não a disponibilizou, nem esclareceu a data em que o artigo foi aprovado para publicação nem de quem foi a aprovação.

"Artigo é uma fraude científica"

A existência de revisão científica do artigo que Capucha assina em co-autoria com Luís Pereira e Tiago Tavares (identificados, respetivamente, como "mestre em Economia Política" e "mestre em Finanças") e a identificação de quem o aprovou para publicação tem particular relevo porque sociólogos contactados pelo DN - a maioria preferindo não ser identificada - não têm dúvidas em classificar as correlações estabelecidas no artigo como "sem pés nem cabeça" e "não permitindo tirar qualquer conclusão, para um lado ou para outro", para além de se espantarem com o tom belicoso - há referência repetida a "argumentos dos antitaurinos" -- e com a irredutibilidade das conclusões.

Há mesmo quem caracterize o artigo como "travesti de ciência" e "fraude científica". Neste último caso está João Sedas Nunes, professor no departamento de Sociologia da Universidade Nova.

Sedas Nunes reagiu logo no dia 20, no Facebook, à tese expendida por Capucha no Prós & Contras: "O que os senhores dizem que "provaram" não podia ser sequer testado com os indicadores que escolheram (que raio de referees [revisores científicos] deixam isto passar em claro?). Instrumentaliza-se a sociologia e uma revista de que se é diretor para fazer valer um ponto de vista interessado." Voltou à carga a 23 de novembro, ao partilhar um artigo de António Guerreiro, no Público, intitulado "O Púlpito dos charlatões", e no qual o articulista refere a participação de Luís Capucha no P&C em termos particularmente duros, descrevendo-o como "o sociólogo, o aficionado, o propagandista e o inimigo do saber, tudo na mesma pessoa", considerando que tal "só na televisão é que é possível."

Comentou Sedas Nunes: "Não é nada de pessoal. É só negócio, o da integridade da sociologia. Quando alguém, de púlpito, puxa dos galões da ciência e da sociologia, omitindo entre o mais que a ciência em que se guarda é a sua própria ciência timbrada na revista de que é diretor, para, com ou sem dolo, faltando grosseiramente à verdade e fazendo tábua-rasa do próprio conhecimento sociológico, propagandear um ponto de vista eminentemente político, torna-se-me imperativo reagir com firmeza. Calar perante a impostura é ser cúmplice da desqualificação pública da Sociologia enquanto ciência que a sua (despudorada) instrumentalização para fins políticos constitui."

"Não é nada de pessoal. É só negócio, o da integridade da sociologia. (...) Calar perante a impostura é ser cúmplice da desqualificação pública da Sociologia enquanto ciência que a sua (despudorada) instrumentalização para fins políticos constitui."

Ao DN, e após ler "até ao fim, com enorme esforço (e bastante irritação)", o artigo em causa, o professor da Nova aprofunda a análise sobre o que classifica como "uma fraude científica nos três níveis em que o juízo se pode realizar".

E elenca: "O epistemológico -- se, como os autores esclarecem, a questão é apenas mostrar que um certo ponto de vista político é uma mera opinião sem fundamento, então a prova que realiza e a conclusão que produz inscrevem-se em exclusivo no espaço das asserções políticas (não no das científicas); Teórico -- sendo quase omisso quanto a teoria, quando lhe recorre abusa. Nada nas teorias da socialização que são invocadas autoriza "afirmar que se no passado as crianças tivessem sido afetadas pelo contacto com a violência das festas taurinas e com as suas estruturas culturais, supostamente anacrónicas, isso se refletiria nas práticas e representações que são produto das disposições incorporadas e dos processos de socialização dos adultos abrangidos pelos dados estatísticos relativos aos níveis de consumo e às taxas de criminalidade, que não deixariam de as refletir.""

Isto, diz, "já para não notar o absurdo lógico de afirmar uma conjetura - que se entende porque todo o texto está redigido dentro de uma economia de argumentação política em que se dispensa a prova empírica do juízo de facto; metodológico -- nada, mas mesmo nada no conhecimento científico-social - sociológico, antropológico, mas também económico (um dos autores é pelos vistos economista) -, nada, mas mesmo nada do que se sabe dos processos a que o texto se refere permite a conceptualização que os autores elaboram da noção de "mal-estar físico e mental das crianças" e todas as operações de equivalência lógica que essa conceptualização contém."

Porque, frisa, "é preciso não perder de vista (e é fácil perdê-lo) que a "criminalidade" é, no modelo de estudo construído, no fundo indicador de perturbação do "bem-estar físico e mental das crianças envolvidas nos espetáculos tauromáquicos e representações associadas, bem como com o bem-estar mental e emocional das crianças que como espetadores estão expostas à violência das touradas" e "o seu potencial efeito no desenvolvimento das crianças." Por outras palavras, a "criminalidade" mediria a perturbação do bem-estar físico e mental das crianças."

A "criminalidade" é, no modelo de estudo construído, no fundo indicador de perturbação do "bem-estar físico e mental das crianças envolvidas nos espetáculos tauromáquicos, bem como com o bem-estar mental e emocional das crianças que como espetadores estão expostas à violência das touradas". Por outras palavras, a "criminalidade" mediria a perturbação do bem-estar físico e mental das crianças. Como é que se chega a esta indexação? Através de um conjunto de sucessivas conexões articuladas sem qualquer base teórica, empírica ou sequer lógica."

E Sedas Nunes pergunta: "Como é que se chega a esta indexação? Através de um conjunto de sucessivas conexões articuladas sem qualquer base teórica, empírica ou sequer lógica: a) primeiro, sintetiza-se aquelas premissas na seguinte: que a experiência taurina "tem efeitos psicológicos negativos para o crescimento psicologicamente equilibrado das crianças"; b) em segundo lugar, transformam-se estes efeitos em "violência", e especificamente em violência não como experiência mas enquanto conduta/prática, quer dizer, afirma-se que uma criança exposta a violência e, como resultado disso, sujeita a "perturbações psicológicas" será sujeito de violência; c) em terceiro lugar, por fim a "violência" transmuda em "criminalidade.""

Para tornar claro o que vê como uma cadeia de conexões sem sentido, o sociólogo vira-a ao contrário: "Vendo estas operações ilógicas inversamente, para os autores, a criminalidade é um indicador de violência, que, por seu lado, é uma expressão rigorosa de "perturbações psicológicas", que, finalmente, é o estado consolidado na idade adulta do "mal-estar infantil", tudo isto enquanto presumem o velho princípio (igualmente muito discutível) da economia ceteris paribus [tudo o resto permanecendo constante] para concluírem que a "demonstração de ausência de correlação desmente os argumentos antitaurinos de forma inquestionável" (isto aqui não é uma simples muleta retórica do argumento, é o remate coerente de um objeto que, de facto, participa de uma luta política entre prós e anti-taurinos, ao menos tal como ela é imaginada por aqueles)."

A "leviandade" da ONU

De relevar, por outro lado, que na literatura citada pelo artigo não figura qualquer estudo especificamente sobre o objeto que este supostamente visa analisar - o efeito nas crianças da assistência a espetáculos taurinos. Poder-se-á concluir dessa ausência de referência que esses estudos não existem, mas há pelo menos quatro, comissionados, em 1999, pelo então Defensor del Menor de la Comunidad de Madrid, Javier Urra, a peritos - incluindo sociólogos -- de várias universidades espanholas.

Em causa neste pedido de investigação estava a decisão, tomada em 1998, na Catalunha, de proibir a assistência de touradas a menores de 14 (em 2010 a região, por decisão do parlamento, proibiu as touradas, na senda da decisão no mesmo sentido das Canárias, em 1991; a decisão foi em 2016 considerada sem efeito pelo Tribunal Constitucional espanhol).

Os estudos foram coordenados por Enrique Echeburúa, catedrático de Psicologia da Universidade do País Basco; pelo menos um deles viria a ser publicado autonomamente em 2004. E se concluem pela inexistência de provas científicas de que assistir àquele tipo de espetáculos cause, em geral, "uma interferência emocional negativa nas crianças", não são inteiramente tranquilizadores, alertando para que a conclusão só vale "quando se trate de crianças psicologicamente sãs e que assistam a esses espetáculos esporadicamente, voluntariamente e acompanhadas de adultos que tenham uma atitude positiva face à corrida."

Uma conclusão dos estudos é de que a maioria das crianças de uma das amostras - 240, entre os oito e os 14 anos - não gostavam de touradas e 60% achavam-nas "violentas" e entre 30 e 50% consideravam-nas maus tratos aos animais, sendo 66% contra a morte do touro.

Reconhece-se porém que "em alguns casos as crianças podem mostrar algumas manifestações emocionais de nervosismo e preocupação, especialmente quando o animal demora muito tempo a morrer [em Espanha os touros são mortos na arena] ou quando há uma colhida, mas estes sintomas são transitórios e não têm mais importância que as reações experimentadas depois de assistir a um filme de terror na TV." E que pode haver perigo para crianças "com uma psicopatologia clínica específica - transtornos de ansiedade e depressão --, assim como para aqueles que possuam maior vulnerabilidade (muito sensíveis ou muito impulsivos), que não devem assistir às corridas. Tão-pouco são aconselháveis a crianças que tenham uma atitude ecológica extrema de proteção dos animais." Uma conclusão dos estudos é de que a maioria das crianças de uma das amostras - 240, entre os oito e os 14 anos - não gostavam de touradas e 60% achavam-nas "violentas" e entre 30 e 50% consideravam-nas maus tratos aos animais, sendo 66% contra a morte do touro.

Existe ainda pelo menos um "comentário técnico" da Ordem dos Psicólogos Portugueses, intitulado "Impacto Psicológico da Exposição das Crianças aos Eventos Tauromáquicos", datado de junho de 2016, efetuado a pedido do Partido Animais e Natureza, no contexto do debate sobre o projeto de lei deste partido, apresentado em 2016, visando proibir a assistência de menores de 18 anos a touradas.

"O Comité da ONU ao recomendar, levianamente, medidas de sensibilização sobre a violência física e mental associada às touradas [recomendação de 2014], abre caminho a um possível ataque à diversidade cultural que a UNESCO tanto defende, ao mesmo tempo que atenta contra a dignidade e continuidade das "nossas" práticas culturais."

Curiosamente, no site do parlamento, e presume-se que a propósito da discussão do citado projeto de lei do PAN, encontra-se não só o resumo dos estudos espanhóis citados mas também uma versão anterior, não datada e mais abreviada, do artigo de Capucha, Pereira e Tavares. Nesta, porém, o primeiro autor é Luís Pereira (autor de uma dissertação de mestrado orientada por Capucha, no ISCTE, em 2010 na qual correlaciona o índice de atividade tauromáquica com o índice de desenvolvimento, concluindo com um manifesto pela reintrodução no país da corrida de morte: "Os aficionados portugueses das corridas integrais, por uma questão de justiça, devem poder exercer um direito cultural, ou seja, devem poder participar neste tipo de rituais em Portugal. (...) É tempo de devolver aos portugueses a liberdade de legalmente assistirem na sua terra a uma representação cultural na íntegra e não só a um mero simulacro. Na corrida de toiros os animais bravos são os adversários dos homens, num combate ritualizado entre a cultura e a natureza, que em regra e com regras, deve finalizar com o Homem dominando as forças da natureza, ato este representado pela morte do touro no lugar da lide, a arena.").

Com o título "Atividade Tauromáquica Versus Indicadores de Violência e Desenvolvimento", o artigo encontrado no site do parlamento estabelece o mesmo tipo de correlação da versão posterior e tem a mesma conclusão: "A demonstração de ausência de correlação desmente os argumentos anti-taurinos de forma inquestionável." Termina com um ataque à ONU: "O Comité da ONU ao recomendar, levianamente, medidas de sensibilização sobre a violência física e mental associada às touradas [recomendação de 2014], abre caminho a um possível ataque à diversidade cultural que a UNESCO tanto defende, ao mesmo tempo que atenta contra a dignidade e continuidade das "nossas" práticas culturais. Desconhece-se quais as medidas de sensibilização que o Comité pretende implementar, mas sejam quais forem é obrigatório que os Direitos Fundamentais das comunidades, Constitucionalmente protegidos, sejam respeitados e que os valores culturais possam continuar a ser transmitidos."

A "paixão inescapável" da afición

A Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial foi, precisamente, invocada na candidatura, em 2017, de um projeto liderado por Luís Capucha ao Orçamento Participativo com o objetivo de "inserir a cultura tauromáquica na lista de Património Cultural Imaterial de Portugal". O projeto é um dos 38 aprovados através de votação pública, recebendo uma dotação de 200 mil euros, e foi objeto de uma encomenda ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, tendo Luís Capucha sido nomeado o coordenador académico do mesmo.

De acordo com o próprio, em entrevista ao jornal i, "o ISCTE-IUL recebeu uma encomenda da Direção Geral do Património Cultural no sentido de executar os trabalhos conducentes ao cumprimento do projeto aprovado no quadro do referido Orçamento Participativo. O trabalho, cujo âmbito é estritamente científico, está sediado no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL".

"Revela um engajamento relevante da sociologia com agendas sociais e políticas específicas e particularistas, bem conotadas ideológica e partidariamente, e uma correspondente desresponsabilização em relação aos grandes problemas sociais das sociedades dos nossos tempos."

O concurso para os bolseiros que trabalharão no projeto decorreu até setembro último, tendo sido contratados quatro investigadores; em outubro, foi notícia uma pergunta do PAN sobre financiamento direto do ISCTE - e portanto público - para a promoção da tauromaquia, baseando-se no contrato assinado pelo instituto para a prossecução do projeto e no qual figuraria uma verba de 10 mil euros, em ajuste direto, para a realização de um documentário sobre o tema. Luís Capucha negou que tal fosse verdade, reputando de "erro" essa menção do contrato e assegurando, em entrevista à Lusa, "o rigor e qualidade científica do CIES neste como noutros projetos" e garantindo que "não há um ponto de vista ou orientação prévia para a recolha de material e elaboração da candidatura, e que as visões contrárias serão incluídas no trabalho que vai olhar para a tauromaquia no seu conjunto, incluindo as diferentes perspetivas a respeito da festa de toiros".

Como já foi dito, o DN não conseguiu voltar a falar com Luís Capucha desde 23 de novembro, pelo que não foi possível confrontá-lo com as escolhas bibliográficas do seu artigo, com as análises de colegas ouvidos pelo DN, com o facto de uma versão anterior do artigo figurar no site do parlamento português ou com a aparência de conflito de interesses na acumulação da promoção de um projeto de defesa da tauromaquia e do lobbying para a aprovação do mesmo com a coordenação científica desse projeto num instituto público.

Em setembro, Capucha escrevera no blogue Café Vila Franca uma reflexão sobre a Sociologia e o seu devir, intitulada "Preocupado com o presente e o futuro da sociologia em Portugal", na qual criticamente refere os temas das bolsas de doutoramento concedidas pela Fundação de Ciência e Tecnologia na área da Sociologia, concluindo: "Esta lista revela um engajamento relevante da sociologia com agendas sociais e políticas específicas e particularistas, bem conotadas ideológica e partidariamente, e uma correspondente desresponsabilização em relação aos grandes problemas sociais das sociedades dos nossos tempos."

"Não poderia deixar de ser um vilafranquense, nem que quisesse. Ser aficionado é trazer consigo uma paixão da qual não se consegue (pelo menos não imagino como) escapar."

Num outro artigo, publicado na revista AntHropológicas (da Universidade Federal de Pernambuco), em 2013, Capucha tinha escrito: "Julgo ter aprendido a distanciar-me da visão etnocêntrica com o auxílio da teoria sociológica, mas não podia deixar de ser um vilafranquense, nem que quisesse. Os meus interesses de pesquisa viraram-se para os temas da pobreza, das políticas sociais, do emprego e da educação e para as metodologias de planeamento e avaliação. Mas ser aficionado é trazer consigo uma paixão da qual não se consegue (pelo menos não imagino como) escapar."

O DN também procurou obter de João Sebastião, diretor do Centro de Sociologia do ISCTE, que edita a revista que Luís Capucha dirige, e de Maria das Dores Guerreiro, anterior diretora da revista e atual vice-reitora do instituto, comentários e esclarecimentos sobre esta polémica, tendo sido enviados mails para os dois com perguntas. Ambos estavam, aliás, por iniciativa de Luís Capucha, entre os destinatários das respostas que enviou ao DN a 23 de novembro. Nenhum dos dois académicos respondeu até ao fecho deste texto.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.