O fim da internet? Como um youtuber lançou o pânico entre as crianças

"O meu canal vai ser apagado". O vídeo do youtuber Wuant sobre o artigo 13 (da reforma legislativa sobre os direitos de autor na União Europeia) fez disparar as visualizações. Alarme soou para crianças e... pais.

"Sup Doods , o meu nome é Wuant e sejam bem-vindos a mais um vídeo", disse ele ontem à noite, como sempre, uma saudação que faz parte da vida de milhares de crianças e jovens portugueses. Só que ontem, o youtuber mais famoso do país deixou a criançada em pranto: "o meu canal vai ser apagado e provavelmente não vai ser o único. Estou aqui para falar de um assunto muito, muito sério". Num tom dramático, o jovem Paulo Borges, conhecido com a assinatura de youtuber Wuant, anunciava o fim da internet e do seu canal, onde conta com mais de 3,2 milhões subscritores. O vídeo em causa já se aproxima das 800 mil visualizações e ultrapassou os 16 500 comentários. Número que raramente consegue atingir.

"A Google provavelmente deixará de existir como existe na União Europeia; as redes sociais (Facebook, Instagram, Whatsapp) vão levar restrições e muito provavelmente também poderão ser bloqueadas. Muita gente está a dizer que isto é o fim da internet. E eu concordo. O próprio YouTube mandou-me um e-mail para eu vos falar disto", disse aos fãs, antes de ler o conteúdo: "imagine uma internet na qual os seus vídeos já não podem ser vistos; sem os seus criadores favoritos; na qual novos artistas nunca serão descobertos. Isto pode acontecer na Europa", refere o e-mail, que depois enquadra o art.º 13, no âmbito da diretiva da UE sobre os direitos de autor, cujo objetivo primordial é proteger a criatividade e os direitos de autor no online. Diz o YouTube que "apoia os objetivos do art.º 13", mas Wuant apressa-se a interpretar: "eles provavelmente têm que dizer isso, não podem dizer que são contra..."

O e-mail enviado pelo YouTube (a todos aqueles cujos conteúdos garantem a publicidade à plataforma) alerta para uma ameaça: "impedir milhões de pessoas na Europa de carregar conteúdos em plataformas como o YouTube", sendo que, de acordo com a atual proposta, "os visitantes europeus perderiam acesso a milhares de milhões de vídeos em todo o mundo".

Na sua linguagem direta aos mais novos - e recheada de palavrões - Wuant lembra no vídeo que "a própria pessoa que criou a internet é contra isso, e se ele é contra como é que nós não havemos de ser". E então vira o jogo para o lado do público: "isto vai afetar mais o pessoal que consome do que o pessoal que faz. Eu estou tranquilo, vocês é que vão perder o YouTube, o Facebook, o Instagram, o Twiter". O que Wuant não disse é que, sem seguidores, também ele não existe.

O youtuber considera mesmo estar perante "um boicote dos media tradicionais", uma vez que o artigo se aplica apenas ao digital. Apela a quem o vê que assine uma das petições em curso (a maior terá mais de 3 milhões de assinaturas), embora diga explicitamente que "isto não vai lá com petições, só vai lá com uma revolução, seja em Portugal, seja em França, para preservar os nossos direitos da internet e podermos postar as imagens que queremos, para fazer piadas com o que quisermos".

Wuant refere-se ainda ao art.º 11 da mesma proposta de lei, que obrigará a pagar créditos para a partilha de links de sites de jornais, rádio e TV. "Quer queiram quer não, nós somos concorrência para a televisão."

"Basicamente o YouTube vai deixar de existir na Europa. A nossa geração está preparada para sofrer uma cena assim?" questiona o youtuber, que garante aos seguidores que "vão ser feitas novas redes sociais para a Europa", mas que "isso vai demorar muito tempo a ser feito e até lá ninguém vai ter paciência para aguentar". Mas Wuant tem consciência do público para quem está a falar. "Se tiverem algum pai, um tio ou um primo que esteja dentro desta cena toda da União Europeia falem com eles, mostrem-lhe este vídeo. As notícias não estão a falar disto, a televisão, é só pensar porque é que não estão a falar disto..."

Ser youtuber, o sonho de menino

Em casa de Sandra Marques, na zona de Leiria, o vídeo de ontem caiu que nem uma bomba. Maria, a filha de 11 anos, "chorou baba e ranho, ficou em pânico porque o Youtube ia acabar, porque o canal do Wuant ia fechar. Ela segue-o religiosamente, tudo o que ele diz é lei, e obrigou-nos até a ir pesquisar sobre o art.º 13, de que nunca tínhamos ouvido falar". Enfermeira de profissão, a mãe habituou-se a ver a filha muito mais ligada ao YouTube do que à televisão, ao contrário do que acontecera com o filho mais velho, agora com 16 anos. "Ela e as amigas também querem ser youtubers, porque tudo aquilo que eles lhes mostram é uma vida boa, em que o trabalho é prazer, é filmar e fazer paródias na internet, ganham todos imenso dinheiro e é como se estivessem sempre de férias", acrescenta.

Um dia antes o youtuber português tinha publicado um vídeo em que mostrava aos fãs a sua casa nova, que divide com a namorada, a (também) youtuber Owana. É o sonho de qualquer criança: espaços grandes e luminosos para jogar, ecrãs gigantes, máquinas de pipocas, de waffles e sumos. Uma piscina, terraço com bela vista, a vida que qualquer miúdo gostava de ter.

O cenário repetiu-se por todo o país em casa de milhares de crianças e adolescentes, incrédulos com a má notícia anunciada por Wuant, mas que outros youtubers têm vindo a propagar, cada um à sua maneira. O vídeo de Wuant revelou-se mais chocante por causa do título [o meu canal vai ser apagado].

A blogger Catarina Beato (mãe de três filhos, sendo que o do meio, Afonso, de 7 anos, quer ser youtuber e tem já um canal) sublinha como os youtubers são um fenómeno recente, "que dependem do número de visualizações. Da mesmo forma que os sites em geral, ou mesmo as televisões. Vivemos os tempos em que lemos os títulos mas não confirmamos o conteúdo. E quem depende das visualizações usa isso". Catarina acredita que estamos perante um caso desses, no vídeo em causa. "Num público tão ingénuo como as crianças e adolescentes é mais fácil. Como blogger e como mãe a minha postura é a mesma: sou contra esse aproveitamento mas ainda mais contra que não ensinemos os nossos filhos a irem muito além de um título".

Miguel Raposo, sócio da Be Influence Management, empresa que gere influenciadores como Wuant, e também autor do livro "Torna-te um guru das redes sociais", salienta que "os vídeos do Wuant são mesmo assim, a puxar para as visualizações". Na verdade, em menos de 24 horas o youtuber conseguiu fazer o pleno.

"O que ele diz não é tão absurdo quanto isso", sublinha Raposo, reportando-se ao referido artigo 13, embora não acredite "que a lei avance nestes termos". De resto, lembra que está em marcha uma petição e duvida mesmo que alguns gigantes como o Facebook, Instagram ou Whatsapp "permitam que isso aconteça. Há uma economia que se ressentiria muito com isso. Lembro o exemplo do Brasil, quando há cerca de um ano, por decisão judicial, o Whatsapp foi encerrado durante um dia. E foi o caos".

Quem é Wuant?

Paulo Borges, 23 anos, natural de Aveiro, é Wuant, um dos mais influentes youtubers, a faturar mais de um milhão de euros por ano, como divulgou o Dinheiro Vivo no início de 2018. Entre os cerca de três milhões de inscritos no canal está um público maioritariamente constituído por crianças e adolescentes, que colocam a visualização dos vídeos no topo das suas prioridades.

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O vídeo de ontem deixou-os à beira do abismo, como se lhes faltasse o chão. Porque para muitos o chão seguro que conhecem é virtual e pisa-se num ecrã.

Um vídeo "alarmista"

"É um vídeo alarmista, que apresenta como catastrófica uma situação. Gera ansiedade e receio", disse ao DN a psicóloga Rute Agulhas, quando confrontada com os efeitos que a visualização pode ter nas crianças, público-alvo do youtuber. "As crianças não têm capacidade para processar isto, refletir e procurar informação de forma adequada. Pelo menos não no momento imediatamente após terem visto o vídeo, quando as suas emoções estão ativadas. Eventualmente depois, se tiverem o devido acompanhamento parental. Que nem todos têm", acrescenta.

A psicóloga toca num outro ponto, já abordado pela blogger ( e mãe) Catarina Beato: "o vídeo começa com algo concreto, dito de uma forma confusa e complexa, para que nem mesmo os miúdos mais velhos possam compreender bem. Claro que as crianças mais novas (e este youtuber tem seguidores com 7/8 anos de idade e até mais novos) não têm capacidade para processar esta informação. Ou seja, aquilo que retêm é: vai ser o fim da internet; as crianças podem ser processadas; ou seja "EU posso ser processado" e ainda "o canal do meu youtuber preferido vai acabar".

O Artigo 13 e os filtros de upload: a internet vai mesmo mudar?

No dia 12 de setembro o Parlamento Europeu votou a favor da reforma legislativa sobre os direitos de autor para o Mercado Único Europeu. Dentro deste pacote, estão incluídos dois artigos que têm gerado muita polémica: o Artigo 11, conhecido como o imposto dos links; e o Artigo 13, conhecido como os filtros de upload.

O artigo 13 prevê que os conteúdos sejam revistos pelas plataformas antes de serem publicados online e apenas vai ser vinculativo para as plataformas com um número significativo de uploads. Sites de menor dimensão não vão ser englobados.

Isto significa que os conteúdos que publicar no Twitter, Facebook e YouTube poderão ser, no futuro, revistos pelas plataformas antes de serem publicados. Se for identificada alguma violação dos direitos de autor, então o conteúdo não é publicado. Este facto, de os conteúdos revistos poderem nunca chegar "à grande rede", é visto por uns como uma ameaça à liberdade na internet, enquanto outros veem neste artigo uma forma mais agressiva, mas necessária, de proteger os direitos de autor.

Um exemplo: na sua formulação atual e caso o Artigo 13 já estivesse em vigor, se publicasse no YouTube um vídeo de um convívio com os amigos a fazer um churrasco, mas esse vídeo tivesse uma música do músico Ed Sheeran, muito provavelmente seria bloqueado antes de ser publicado; ou seja, os detentores dos direitos da música não teriam sequer a opção de permitir aquela utilização, algo que existe atualmente. Isto pode significar o fim de algumas criações de utilizadores na internet, incluindo os chamados conteúdos virais ou os que dão origem aos chamados "memes", pelo menos sempre que esses conteúdos contêm elementos que estão protegidos por direitos de autor.

O que o Artigo 13 também prevê é que as grandes tecnológicas, como o YouTube, Facebook e Instagram, sejam responsáveis por esses conteúdos a partir do momento em que ficam online. Como as tecnológicas vão proteger-se, isto significaria que as suas plataformas passariam a funcionar de forma muito diferente. Atualmente o bloqueio de conteúdos é feito assim que há uma denúncia por parte do detentor do direito de autor de parte daquele conteúdo, mas com o Artigo 13 o bloqueio seria feito antes e de forma automática. E isto traz desafios mesmo para as maiores empresas do mundo.

"O Artigo 13, na sua forma mais extrema, significaria que nós seríamos responsáveis, a partir do momento em que alguém carregasse um vídeo, por policiar os direitos de autor. A razão pela qual isso não é possível, é que não há um sítio onde possas ir para descobrir quem é o detentor dos direitos de tudo", disse Matt Brittin, o diretor de operações da Google na Europa, numa entrevista exclusiva à DN Insider.

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"As consequências não intencionais do Artigo 13, como está atualmente feito pelo Parlamento Europeu, significariam que quem tiver conteúdos dos utilizadores carregados para as suas plataformas, seria responsável por esses conteúdos a partir do momento do upload. Isso significa que não conseguirias operar as plataformas tal como elas são atualmente e pensamos que isso deixa em perigo as vidas e as oportunidades de milhões de criadores", acrescentou o responsável.

Já Susan Wojcicki, diretora executiva do YouTube, tinha alertado para o facto de os utilizadores europeus poderem perder acesso a vídeos do YouTube por causa do Artigo 13. "Não estão em causa direitos relevantes dos utilizadores. Esta é uma diretiva para cortar os abusos das grandes empresas americanas (e outras) que ganham milhões à custa dos autores e jornais europeus", disse o eurodeputado Marinho e Pinto sobre o novo pacote legislativo em junho, numa altura em que ainda estava a ser discutido no Comité de Assuntos Legais;

Para todos os efeitos, o Artigo 13 [e também o artigo 11] ainda pode vir a sofrer alterações. A votação para o novo pacote legislativo dos direitos de autor na UE deverá acontecer no início de 2019 e caso a reforma venha a ser definitivamente aprovada, ainda poderá sofrer variações nos diferentes 28 Estados-membros da União Europeia.

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