Ilse Berardo: "Não ouvi uma única vez a palavra culpa. Estão gratos por ainda estarem vivos"

Líder da Igreja Luterana da Madeira tem estado com os sobreviventes do acidente do Caniço e confia que a imagem da ilha junto dos alemães não vai ser afetada

Nascida em Einbeck, no Estado alemão da Baixa Saxónia, há 63 anos, Ilse Everlien Berardo lidera há mais de 30 anos a Igreja Evangélica Alemã na Madeira e esteve desde ontem no hospital com vítimas do acidente do Caniço, a quem não ouviu uma única reclamação. Mãe da deputada do PSD Rubina Berardo e casada com um irmão do empresário Joe Berardo, a pastora luterana relata ao DN o estado de espírito dos sobreviventes.

Que papel tem tido junto das vítimas do acidente no Caniço?
Estar à frente da Igreja Evangélica Alemã na Madeira significa não só ser responsável pelos residentes alemães, mas também por todas pessoas que nos visitam e falam a língua alemã. Uma pastora deve estar pronta para estar ao lado das pessoas que sofrem e é isso que tenho feito desde ontem. Estou numa lista de pessoas a chamar quando acontecem catástrofes, ainda mais envolvendo alemães. Estive com eles até agora, no hospital, não quis ir ao local do acidente, interessam-me as pessoas e não visitar destroços.

Mas que tipo de acompanhamento se faz numa situação destas?
Eu não sou médica nem enfermeira, cada pessoa tem feridas exteriores, mas também muitas feridas interiores. A alma está ferida. Têm a noção de que de um momento para o outro a vida muda completamente. Foi esse o sentimento que encontrei nestas pessoas. Foram para umas férias num paraíso e viveram uma situação oposta. De um momento para o outro, a vida mudou.

Mas sentiu que culpam alguém pelo que aconteceu?
Não, ninguém fez uma reclamação. Todos dizem que os cuidados são de uma extrema humanidade. Nestas situações não se pensa no sistema, mas sim na confiança que se tem em que está à nossa frente. Têm confiança nos médicos, nos enfermeiros, nos bombeiros que os ajudam. É claro que ter um acidente no estrangeiro é duplamente terrível, porque além das consequências do acidente, há a barreira da língua. Mas a ajuda de quem tem facilitado a comunicação ajudou a suavizar esse impacto.

Quem tem feito esse trabalho de tradução? Há muitos alemães residentes na Madeira?
Não serão mais de 400. Há pouco falava do sistema e aqui o sistema funciona, sabem quem chamar em situações destas, quem tem conhecimento de português e alemão. Estamos a falar de professoras e professores que estão a dar essa ajuda.

Disse que o sistema funciona neste caso, mas os feridos sentem que possa não ter funcionado noutros aspetos?
Não, nada disso! O que eu quis dizer é que quando temos um acidente destes não estamos a pensar no sistema, mas sim em quem está à nossa frente a ajudar. Isso que fique claro. A última coisa em que se pensa é na culpa do sistema. Não ouvi uma única vez a palavra culpa. Escaparam da morte, estão gratos por ainda estarem vivos, a última coisa em que pensam é na culpa.

Apesar de dizer que os sobreviventes estão gratos por estarem vivos, a situação dos que continuam internados, longe de casa, sem conhecer a língua, não deve ser fácil...
Os tradutores acorreram logo, o nosso embaixador já está cá no Funchal e tem falado com tanto carinho com os sobreviventes, garantindo todo o apoio do governo alemão, que tudo isso gerou confiança nas pessoas.

E na Alemanha, também não se discutem culpas? Que mensagens tem recebido?
Muitas mensagens de grande comoção, de pessoas que estão tristes, que fizeram questão de dizer que estão a rezar pelas pessoas que estão na Madeira. Mas também para sublinhar que conhecem os cuidados que os madeirenses têm com os turistas.

Acha que o acidente não vai afetar o turismo e a imagem da Madeira?
Não vai afetar. Já tivemos outras tragédias, o aluvião, os incêndios, e o que aconteceu sempre foi que as pessoas que frequentam a nossa igreja e vivem na Alemanha ajudaram sempre a Madeira, enviaram donativos. O alemão, regra geral, sofre com o sofrimento dos outros.

O acidente deu-se numa altura especialmente simbólica para os cristãos. Como será vivida a Páscoa na Igreja Luterana da Madeira?
É claro que não vamos ter uma liturgia normal de sexta-feira santa. Vamos dar um conforto especial às vítimas do acidente, às 16.00 na nossa Igreja Presbiteriana.

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