Há 32 anos a vender livros e lápis em Benfica resistindo aos hipermercados

As aulas começam esta semana e é a corrida ao material escolar. Mesmo com os "hipers" e a venda online, a Superlivro, em Benfica, resiste há 32 anos. Manish, o dono, não é de lamentações: aliou-se às tecnologias e diversificou o negócio.

Manish Jamnadas deixou o curso de engenharia, na Índia, para ajudar o pai, que tinha vindo de Moçambique e inaugurado um quiosque na Amadora. Acabou por pegar no negócio e, anos mais tarde, montou uma papelaria/ livraria em Benfica, a Superlivro. Trinta e dois anos depois, o espaço é quatro vezes maior, inclui uma grande variedade de artigos e está adaptado às novas tecnologias. Vende de tudo, embora o material escolar continue a ser a maior parcela da faturação. E o mês de setembro, o mais rentável, sobretudo esta semana.

Os hiper são os seus grandes concorrentes mas, assegura Manish Jamnadas, isso acontece porque as pessoas não fazem as contas. "Aqui, podem comprar à unidade, nos supermercados têm de comprar mais quantidade. Vendo um lápis por 45 cêntimos, lá vendem três por 1,98 euros. Não acredito que seja uma questão de dinheiro que atrai as pessoas, a questão é que já estão mentalizadas para ir às grandes superfícies e lá podem comprar tudo, livros, batatas, detergentes".

Outro grande concorrente é o comércio online, com as próprias editoras a disponibilizarem os livros diretamente ao público e com descontos. Manish Jamnadas conta que percebeu há muito que não pode lutar contra esses gigantes e, como não é de se lamentar, diversificou a oferta. Há 11 anos passou a vender online, não só livros, como todo os produtos e artigos disponíveis na loja, Vende de tudo: jornais e revistas, material escolar livros, papelaria, economato (utilização administrativa), Informática, fotocópias, jogo, tabaco e guloseimas, também fornece serviços de logística.

Manish tem o comércio nas veias. Nasceu em Moçambique, como os pais, com raízes na Índia - e foi para onde o mandaram estudar após a descolonização. Estava no primeiro ano de Engenharia quando o chamaram para Portugal. "Uma chamada da Europa não se pode ignorar. Para nós, Europa é sinónimo de oportunidades", conta.

E a dele passava por abrir um quiosque. O primeiro passo foi escolher a localização do negócio, que sabia ser a sua maior aliada. Encontrou um espaço na Estrada de Benfica, em frente à Escola Pedro Santarém e perto das escolas Quinta de Marrocos e José Gomes Ferreira. Era uma meia dúzia de metros, com a montra para uma das principais ruas do bairro. Correu bem e, logo que pôde, ampliou o espaço.17 anos depois, comprou a loja do lado.

"Se tivesse continuado só com o quiosque, a vender apenas jornais, revistas e tabaco, já tinha morrido, como, provavelmente, irá acontecer com os livros. Estou sempre em alerta e tento contornar a situação, não estar sempre a lamentar. As lamentações não resolvem nada, temos que encontrar sempre uma solução. Temos um mix de todas as áreas para aguentar o negócio. Não pode ser como antigamente, em que se apostava num negócio", explica Manish.

Maior faturação é em setembro

O material escolar continua a ser a maior parcela de negócio - e as férias da família são, por isso, 15 dias de férias anuais no final do ano escolar. Isto porque é a partir de finais de agosto que se começa a notar o movimento do início das aulas, continuou por setembro dentro e aumenta substancialmente no último sábado antes das aulas começarem. Ou seja, prevê-se casa lotada até ao final da semana. Setembro é, claro, o mês de maior faturação, mas o "sr. Manish", como o tratam, não diz quanto...

Por esta altura, a Superlivro ("livraria, papelaria, informática), rebenta pelas costuras. Livros e encomendas espalhados por todo o lado, pais, crianças e jovens a entrar e a sair, com listas e listas de materiais. Já os livros basta dizer qual é o ano escolar do aluno e a escola. E, muitos desses pais que aqui chegam já são de 2ª geração de clientes, mesmo que tenham até já deixado de morar no bairro onde cresceram.

É o caso de Carlos Pereira, 47 anos, bancário. "Os meus pais compravam aqui os livros. Estudei na Quinta de Marrocos e depois na escola das Telheiras, conheço o sr. Manish há muitos anos, já não moro em Benfica mas venho aqui comprar o material escolar da minha filha, é tudo mais fácil. Fazemos a encomenda e é só vir levantar", conta. A filha é a Madalena, de seis anos, que vai para o 1.º ano, no Colégio Manuel Bernardes, no Lumiar, e que, além dos livros, tem na mão a sua primeira mochila. E, ainda, vai voltar para a compra do restante material.

Carlos e a mulher, Teresa Rosa, advogada, vivem nas Telheiras, ao pé de supermercados mais perto mas que não os aliciam. "Há coisas que não compensam comprar nas grandes superfícies e aqui temos um tratamento mais direto. Quando a lista de livros está completa, telefonam-nos para vir buscar, os supermercados não fazem isso", diz.

"Há coisas que não compensam comprar nas grandes superfícies e aqui temos um tratamento mais direto", diz uma cliente

O "sr. Manish" entrega mais uma encomenda, cumprimenta mais uma cliente que já conhece de criança. É Patrícia Barbosa, 45 anos, psicóloga e formadora, que compra o material escolar para a filha, incluindo os livros, apesar destes serem grátis no ensino público até ao 12.º ano. "Os meus pais vinham aqui comprar os livros e eu gostava de vir com eles, Às vezes até vinha sozinha, acho que naquele tempo tínhamos mais maturidade. E continuei a ver quando a minha filha foi para a escola, gosto de comprar no pequeno comércio, somos melhor atendidos", justifica a Patrícia, que continuou a morar em Benfica quando se tornou independente dos pais. A filha é Joana Isaías, uma adolescente de 17 anos, que vai para o 12.º ano na Escola José Gomes Ferreira

Entre os clientes mais recentes, está António Vasconcelos, 52 anos, operador comercial do Metro, que mora em Loures. É pai do Lucas, 17 anos, que vai para o 12.º ano, e de Eduarda, a iniciar a escolaridade. "Esta papelaria tem um protocolo com o Metro e que, além de dar descontos, permite o pagamento faseado", explica.

Esses protocolos com as empresas são mais uma das forma de sobrevivência deste comerciante astuto. Manish diz que tem de manter os bons números do negócio. "Tem que ser, há quatro famílias a depender dele", argumenta. Está a contabilizar-se a si próprio e a mulher e três funcionários, com a garantia de que tudo fará para o manter a clientela. Se os filhos vão continuar o negócio, ainda não pode prever. É pai de uma rapariga, de 19 anos que estuda Gestão, e de um rapaz, de 26, que está em Contabilidade.

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