Fake News: regresso aos "princípios básicos" do jornalismo é resposta possível

O fenómeno das 'fake news' ameaça a democracia, mas também é uma "oportunidade" para o jornalismo de referência, defendem os responsáveis de media portugueses em entrevista à Lusa, que apontam o regresso aos "princípios básicos" da atividade como receita.

O fenómeno das 'fake news' ameaça a democracia, mas também é uma "oportunidade" para o jornalismo de referência, defendem os responsáveis de media portugueses em entrevista à Lusa, que apontam o regresso aos "princípios básicos" da atividade como receita.

Para Luísa Meireles, diretora de informação da Lusa, as agências noticiosas devem ter "especiais cuidados" perante as notícias falseadas, ou manipuladas, pela sua capacidade de difusão, defendendo a literacia para os media nas escolas como forma de debelar o fenómeno.

"Por isso, acho que as agências têm que tratar a informação de uma forma mais rigorosa, ainda mais canónica, para garantir os seus padrões de rigor e credibilidade", sublinhou, citando o caso de uma editora de 'fact checking' [verificação de factos] numa grande agência que diz que "não existe receita segura para lutar contra as 'fake news' sem ser o voltar ao básico".

Em outras palavras, "voltar às velhas regras do jornalismo do contraditório, do 'checkar' informações", apontou Luísa Meireles.

Por sua vez, o diretor-geral de informação da Impresa, Ricardo Costa, considera que os media têm de "ser capazes" de "não cometer erros" e, quando estes acontecem, devem ser assumidos e corrigidos de imediato.

"O grande desafio do jornalismo hoje é conseguir trabalhar em dois tempos: se há alguma coisa que aconteceu, nós temos que dizer isso, temos de ser capazes de ir contando o que está a acontecer, ao mesmo tempo temos de ser capazes de não embarcar em coisas que não estão confirmadas e termos a capacidade de trabalhar as coisas com tempo", rematou.

O fundador do Expresso, Francisco Pinto Balsemão, considera as 'fake news' uma ameaça global e para o jornalismo, neste último caso "porque é uma concorrência completamente desleal".

No entanto, o fenómeno é também "uma grande oportunidade [no jornalismo] de separar o trigo do joio".

Também Mafalda Anjos, 'publisher' da Trust in News e diretora da revista Visão, considera que apesar de uma ameaça, as notícias falseadas podem ser "uma oportunidade para os media de referência e de qualidade".

Isto "porque, na verdade é isso que os distingue, os media de referência (...) que conseguem garantir os princípios básicos do jornalismo, o código deontológico, a ética jornalística e (...) que conseguem passar a mensagem de que o jornalismo com 'fake news', com mentiras, com desinformação, não entra, esses têm aqui algum espaço", sublinhou Mafalda Anjos.

"Acho que um dos segredos da profissão é voltar aos princípios básicos. Se conseguirmos respeitar esses, correremos menos riscos", defende o diretor da rádio TSF, Arsénio Reis, o mesmo defendido pelo seu homólogo da Antena 1, João Paulo Baltazar, e pelo diretor da revista Sábado, Eduardo Dâmaso, para quem uma das formas de combater as 'fake news' é respeitar as regras do jornalismo e menos a "pequena indústria" do 'fact checking'.

Para David Pontes, diretor adjunto do jornal Público, trata-se de um "desafio" para o jornalismo, considerando que as 'fake news' reforçaram os mecanismos de vigilância.

"Tenho olhado mais como uma grande oportunidade das 'fake news', de nós reafirmarmos esses princípios e de mostrarmos às pessoas que o jornalismo tem profissionais credenciados que têm processos que são escrutinados", disse.

Já Domingos Andrade, diretor do Jornal de Notícias (JN), aponta que a maior ameaça aos media assenta na incompreensão dos públicos em relação ao seu papel enquanto mediador e escrutinador dos demais poderes.

Para o responsável do jornal da Global Media, os jornalistas, que partilham responsabilidades na propagação das chamadas notícias falseadas, têm de fazer "uma espécie de 'back to basics' e perceberem que têm de ser absolutamente rigorosos naquilo que fazem, que o exercício do contraditório é para ser exercido permanentemente, que a mistura entre factos e opinião acarreta perigos enormes, que muitas vezes a emergência do instante faz perder o pé naquilo que são as fundações no exercício do jornalismo".

"Mais verificação, mais calma, um esforço maior de perceber o que é verdade e o que não é verdade", considera a diretora executiva do Diário de Notícias (DN), Catarina Carvalho, que defende uma nova atitude no jornalismo para combater a desinformação.

"Terem deixado sair a memória das redações e terem fragilizado também a relação entre o trabalhador e a empresa, em que há trabalhadores precários, e a pressão do tempo... tudo isso leva a que não se faça aquilo que tem de se fazer em jornalismo. Se não cumprirmos as regras da profissão, em princípio não somos alvo de 'fake news'", rematou, por sua vez, Maria Flor Pedroso, diretora de informação da RTP.

António Costa, 'publisher' do jornal económico 'online' ECO, Filipe Alves, diretor de O Jornal Económico, consideram o fenómeno uma ameaça, mas ambos também defendem que é uma oportunidade para o jornalismo de qualidade.

Por sua vez, o diretor do Observador, Miguel Pinheiro, admite que o fenómeno ajudou a alterar hábitos na sua redação, a começar pelo ceticismo.

"Hoje em dia todos temos de estar muito mais desconfiados da informação que circula do que acontecia no início das redes sociais, em que havia uma presunção de veracidade de uma série de coisas. Hoje em dia, não", afirma.

O "ceticismo tornou-se maior em relação à informação" que lhe chega à redação e acabou com a "ilusão do jornalista cidadão", segundo o qual "qualquer pessoa podia filmar um vídeo, estava aí a notícia e podia mandar para os jornais", refere o diretor do jornal 'online'.

"Seremos sempre um guardião daquilo que é a verdade interpretada pelos jornalistas e isso é o nosso exercício secular e eu creio que é insubstituível mesmo. Está a sofrer dificuldades nesta fase de transição, mas não corre perigo de desaparecer", sublinha Sérgio Figueiredo, diretor de informação da TVI.

Antes, "éramos os porteiros da discoteca, dependia de nós quem entrava e quem não entrava. Agora, entram por todo lado, mesmo coisas que não passam nas televisões - que ainda são os grandes media a nível mundial", salienta.

"Haverá um momento em que as pessoas normais vão deixar de querer ser enganadas - porque estamos a falar de um fenómeno, apesar de tudo, muito recente -, e aí o papel das marcas e da relação de confiança que a gente tem com a Reuters, a Lusa, a TVI" vai marcar a diferença e "as marcas de informação tenderão a ser o filtro natural", conclui o diretor de informação da estação de Queluz.

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