Estudantes acampam na rua. "É urgente criar mais residências"

A ação simbólica da Federação Académica do Porto pretende sensibilizar governo e Câmara do Porto para as dificuldades que os estudantes deslocados sentem para encontrar alojamento na cidade

"Estudantes deslocados = estudantes na rua." É esta a comparação que se lê numa faixa colocada na Praça dos Leões em frente à reitoria da Universidade do Porto, onde estão concentrados dezenas de estudantes, com tendas de campismo montadas para ali passarem uma boa parte da noite para chamar a atenção sobre a situação. Não é um protesto, garante João Pedro Videira, presidente da Federação Académica do Porto (FAP). "É uma ação de sensibilização dos poderes, desde o Governo à Câmara do Porto, para o problema de alojamento que os estudantes deslocados enfrentam", diz.

Há estudantes a viver na rua? João Pedro Videira conta que, na semana passada, a FAP recebeu um email de uma estudante preocupada com dois colegas que estavam a viver num carro. "Temos relatos de estudantes que estão na rua. Recebemos a comunicação de que havia dois estudantes universitários que estavam a dormir no carro por ainda não terem encontrado alojamento", relata o dirigente estudantil, assumindo que não teve contacto com os dois contactos nem sabe se já resolveram o problema. "Já pedi à estudante que nos comunicou para nos dar feedback sobre a situação deles."

Aumento de 100 euros por quarto

O preço médio de um quarto no Porto é hoje superior a 300 euros, chegando aos 400 euros nalguns casos. Por apartamento as rendas ultrapassam os 1000/1200 euros, contaram estudantes. João Pilão, da Faculdade de Direito do Porto, é de Mirandela e está no quarto ano. "Vi este processo, esta onda de crescimento dos preços a acontecer. Quando cheguei ao Porto pagava cerca de 200 euros por um quarto. No ano passado já comecei a pagar mais 70 euros. Com despesas, atualmente gasto cerca de 300 com a renda do quarto", contou ao DN. É a média do aumento desde 2014, cerca de 100 euros. Como dirigente da associação de estudante da sua faculdade, João diz que este ano foram muitos os alunos deslocados a pedir apoio. "Vêm perguntar como podem conseguir um quarto. Os apartamentos já não são para estudantes, poucos são os senhorios que querem ter estudantes. Há opções mais rentáveis", explica.

Jacinta Mendonça, 21 anos, chegou dos Açores há quatro anos. Na Escola Superior de Saúde, o problema é idêntico. "São imensos os colegas com dificuldades em arranjar casa. Não é só o preço, é que não há quartos", diz a estudante originária da ilha das Flores. Quando chegou ao Porto foi procurar quarto e sentiu dificuldades. "Nessa altura só encontrei quartos a 200 euros e em locais maus, longe e com poucos transportes públicos. Depois acabei por me candidatar a uma residência, como sou bolseira, e consegui. Tenho estado sempre numa residência." É num desses espaços que vive a colega de escola Diana Mateus, de Guimarães. Sou uma privilegiada nesse aspeto. Vejo colegas que chegam este ano e estão a ter grandes dificuldades. Não há quartos", aponta, e "os preços são altos" mesmo em zonas já fora do Porto.

João Pilão aponta que é necessário "uma resposta rápida". E critica o Governo e partidos que o apoiam: "É inadmissível que um governo socialista apoiado pela esquerda unida não consiga fazer políticas sociais que deem resposta a este problema."

Procura nos arredores

A realidade, diz João Pedro Videira, é que no Porto, entre universidade e politécnico, há cerca de 23 mil deslocados e a oferta pública resume-se a 1300 camas. "Neste momento não há quartos para arrendar. Com a especulação imobiliária, o AirBnB e outros, os proprietários conseguem fazer numa semana aquilo que rendia o aluguer mensal a um estudante", diz o presidente da FAP, que reivindica uma política a nível nacional para o alojamento de estudantes. "Não há. O ministro Manuel Heitor tem grande responsabilidade nisto. O plano que foi criado para o alojamento no ensino superior não dá resposta aos problemas. No caso do Porto, a Câmara e as próprias instituições também devem dar resposta."

O que acontece com este ausência de oferta ou preços muito altos nos alojamentos disponíveis é que os estudantes se espalharam por concelhos vizinhos. "Matosinhos, Maia e Gondomar são locais onde muitos procuram alojamento agora. E mesmo aí, onde há oferta, encontra-se já preços muito caros", diz João Pedro Videira, enquanto outros estudantes iam montando as tendas. O objetivo era passar ali grande parte da noite para alertar sobre o problema. " A solução é construir mais residências estudantis e duplicar o valor dos complementos de alojamento. Muitos bolseiros não conseguem aguentar e acabam por desistir do curso. O ideal seria existir uma cama para cada estudante deslocado."

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