Moto Clube de Faro: "Extrema-direita criou-nos maior problema de sempre"

Recusa reforçar a segurança, vai autorizar a entrada de navalhas em campo, diz que as guerras entre gangs motorizados são antigas no estrangeiro - mas uma novidade em Portugal. Entrevista com o presidente do Moto Clube de Faro, José Amaro.

Tem repetido nos últimos dias que não vai reforçar a segurança da Concentração Internacional de Motos de Faro, mesmo depois de as autoridades terem disto que o encontro ia ser palco de um ajuste de contas entre dois gangs: os Hell's Angels e Los Bandidos. É uma questão de fé? Acredita que não vai acontecer nada?

Temos 120 seguranças destacados para o interior do recinto, que é o mesmo número dos outros anos. Não vamos reforçar porque nos parece um número adequado à multidão que visita a Concentração de Faro. Se agora há um problema de crime organizado, e parece que há, não pode cair apenas sobre a organização a responsabilidade de precavê-lo. Acredito que as forças policiais montem um dispositivo capaz de impedir problemas. Para já, estão a controlar a entrada dos Hell's Angels na fronteira e estão a identificar os elementos potencialmente perigosos. Por isso não, não considero reforçar a segurança.

Nem quando leu as notícias de que o SIS alertou a polícia para o risco de um atropelamento em massa?

Fiquei assustado com essa perspetiva, claro que fiquei. Mas também sinto que há aqui um grande empolamento por parte da comunicação social. Veja uma coisa, por mais que nos preparemos para um atentado terrorista, dificilmente conseguiremos travar um tipo que se queira pôr num carro e acelerar sobre uma multidão. É uma decisão individual e rápida, que um mero reforço da presença de seguranças privados não consegue travar. Tem de haver um trabalho de prevenção, tem é de se tentar que os indivíduos perigosos não se consigam sequer aproximar do recinto. A polícia está em campo para isso. Mas também não me parece muito credível a hipótese do atropelamento em massa.

Porquê?

A rivalidade entre Hell's Angels e Los Bandidos pode ser uma novidade em Portugal, mas é muito antiga no estrangeiro. Começou nos Estados Unidos, alastrou-se à Europa e há padrões de comportamento nesta guerra entre dois grupos rivais. É um conflito entre eles, por isso são violentos uns com os outros e vingam-se uns dos outros. Um ataque gratuito a terceiros parece-me mais uma especulação sensacionalista para vender jornais do que um risco lógico e real.

Estes 120 seguranças vão estar mais alerta a estes grupos?

Sabe qual é a maior preocupação da segurança no recinto? Os incêndios. Estamos no meio da natureza, é verão e a mata está seca. Depois há milhares de veículos motorizados e litros de combustível. Sinceramente, essa continua a ser a primeira preocupação da segurança da Concentração de Faro. Depois é que vem a atenção às escaramuças e alguns pequenos roubos que possam existir.

As autoridades não falam de risco de escaramuças, falam do risco de uma escalada de violência. Vai haver revistas à entrada?

Não. E até lhe digo uma coisa: faz parte da cultura motard andar com uma faca. É como o alentejano que anda sempre com a sua navalha para cortar o pão e o presunto. Um motard usa a faca para comer, arranjar uma peça da mota, cortar um fio. Não vamos controlar isso, como nunca controlámos antes.

Tem noção do estrago que as notícias dos últimos dias têm feito na adesão à Concentração de Faro?

A Concentração arranca hoje e não vendemos os bilhetes por antecipação, por isso só teremos a real noção de como isto nos prejudicou no domingo. Estávamos a prever 18 mil motociclistas, mas acredito que muitas pessoas fiquem com medo e desistam de vir. Quem é que quer ir passar uns dias a um sítio que as televisões dizem que vai estar carregado de elementos de extrema-direita? Em 37 edições da Concentração, a extrema-direita criou-nos agora o maior problema de sempre, a maior crise de sempre.

Já tinha tido tido problemas com a extrema-direita na Concentração?

Não, e a primeira vez que ouvi falar da existência de elementos da extrema-direita em grupos motard foi em março, quando vi na televisão a notícia do ataque a Los Bandidos no restaurante do Prior Velho. Só aí percebi que o Mário Machado tinha formado um núcleo em Portugal. Foi uma novidade absoluta.

Mas os Hell's Angels são mais antigos, e já tinha havido problemas com eles em Faro.

Há três anos envolveram-se numa rixa com um grupo de polícias, que tinham vindo como civis à Concentração. Mas, repare, os Hell's Angels já existem em Portugal desde 2002. Não são santinhos nenhuns e até lhes reservávamos uma zona mais isolada no recinto, para evitar problemas. Agora nunca lhes conheci qualquer filiação política, nem aqui nem em país nenhum.

E os Los Bandidos?

Historicamente, também não têm filiação política. Tal como os Hell's Angels têm fama de violentos e um historial de crime, mas que eu saiba sem ligações à extrema-direita. Como lhe disse, só me apercebi do aparecimento deste núcleo em Portugal quando vi nas notícias que tinham sido atacados no Prior Velho e que o líder deles era o Mário Machado.

Incomoda-o esta conotação política num grupo motard?

Muito. A filosofia motard tem a ver com partilha e liberdade, que é tudo o que a extrema-direita não é. E, se pensarmos na própria origem daquilo que é hoje a Concentração de Faro vemos que é quase uma traição aos nossos ideais.

Como assim?

Nós fundámos o Moto Clube, e consequentemente a Concentração, em 1982. Mas desde o início dos anos setenta que nos encontrávamos num café de Faro. Discutíamos motas mas também discutíamos a guerra colonial e o salazarismo. E, à nossa maneira, com as nossas motorizadas, as nossas conversas e a nossa rebeldia, enfrentávamos a PIDE e desafiávamos o regime. Ver hoje a ideia de extrema-direita associada ao nome da Concentração de Faro é uma coisa que me mexe cá dentro.

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Henrique Burnay

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