Ao sétimo dia as chamas e o fumo ensombram o Algarve

Incêndio que começou em Monchique prossegue ativo e autoridades assumem que não será fácil extinguir o fogo com a rapidez desejada

A data e a hora de início está fixada na página da Autoridade Nacional de Proteção Civil: foi às 13.32 do dia 3 de agosto, sexta-feira, que o incêndio na serra de Monchique começou. Hoje, no sétimo dia de chamas, o fogo já não é só de Monchique. Os concelhos de Portimão e Silves foram atingidos, com este último a viver uma madrugada de ansiedade devido à proximidade das chamas, situação que obrigou ao final da tarde de ontem a evacuação dos habitantes de Enxerim e de Cumeada. E, tendo em conta as palavras de responsáveis, como o primeiro-ministro António Costa, é de esperar que a extinção das chamas ainda demora alguns dias.

O que impede de travar o fogo e sobretudo de impedir que se aproxime de localidades? No caso deste que é o maior incêndio florestal de 2018 em Portugal, o próprio terreno e as condições meteorológicas são decisivas. Sem colocar na mesa de discussão o ordenamento do território e a gestão florestal - as razões consensuais para muita destruição provocada por incêndios -, a 2.ª comandante operacional nacional da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), Patrícia Gaspar, apontou que os principais problemas do combate "foram a orografia", que dificultou o trabalho dos meios terrestres, e "o próprio comportamento do incêndio, que originou muito fumo", obstáculo para uma ação eficaz dos 15 meios aéreos.

As previsões da responsável que assumiu o comando de operações, após cinco dias em que o mesmo esteve entregue ao comandante distrital de Faro, são cautelosas. "Não nos espera um período fácil. A meteorologia, mais uma vez, sobretudo no que diz respeito ao vento, mantém-se bastante desfavorável", afirmou Patrícia Gaspar. No terreno estiveram mais de 1300 operacionais, apoiados por quase 400 viaturas e 15 meios aéreos.

Talvez por se ter informado com os responsáveis da ANPC, António Costa avisou que "não vai ser possível apagar o fogo nos próximos dias". Não era a frase mais esperada, mas evidencia que entre quem comanda as operações há a consciência de que a extinção não será fácil. O primeiro-ministro também disse que Monchique "é a exceção que confirma o sucesso" do plano governamental. Ainda vamos a meio da época de fogos.

Angústia nas evacuações

Para a população algarvia, os dias têm sido de angústia. Sabe-se que arderam várias habitações mas ainda não há um balanço feito. Os diretamente afetados pelos incêndios vivem momentos de desespero, entre a imposição para alguns abandonarem as suas casas e os bens e a impotência de outros que vê as chamas aproximarem-se. Ontem em Silves houve necessidade de evacuação de Enxerim. Na zona de Fóia, Monchique, os reacendimentos também geraram nova mobilização de meios.

A Proteção Civil aconselhou as pessoas da zona entre Silves e São Bartolomeu de Messines a fecharem portas e janelas, e a procurarem lugares seguros. A GNR já tinha pedido a colaboração e o respeito das populações às indicações dos guardas. As evacuações, por vezes impostas, são efetuadas por necessidade, frisou também o primeiro-ministro. "As autoridades quando apelam à evacuação não estão a violar a Constituição, nem a lei, estão a assegurar o bem mais precioso que existe, que é a vida", disse António Costa. A troca de informação entre autoridades e civis é essencial. Há exemplos de cooperação, espontânea e eficaz, entre população e operacionais na defesa de bens.

Fumo que cobre o Algarve

Nas praias e cidades do Algarve, a região portuguesa que concentra maior número de turistas, foi a surpresa. A gigantesca nuvem de fumo que se espalhou por praticamente todo o Algarve - de Lagos a Tavira - provocou a estupefação de muitos que colocaram imagens de diversos pontos do Algarve da nuvem de fumo que ensombrou a tarde solarenga. A Direção-Geral de Saúde que a inalação de fumos ou de substâncias químicas e o calor podem provocar danos nas vias respiratórias e emitiu recomendações sobre como agir nestas situações.

Pelo meio ainda se discute se os meios aéreos estão a utilizar agentes extintores (espumíferos), com a confirmação que os helicópteros não o fazem, por questões operacionais e que os aviões também nem sempre o fazem. "O que se está a verificar é que parte destes meios não estão a operar diretamente nas bases de origem, para que fiquem mais perto do incêndio, e quando esse produto se esgota, nem sempre é possível reabastecer os aviões com o agente extintor para as missões seguintes", disse Patrícia Gaspar.

O balanço atual é de 32 feridos, um deles em estado grave, e de mais de 21 mil hectares de área ardida. Os prejuízos serão muito elevados, sem que haja uma estimativa. É impossível fazê-lo já com as chamas ainda a galgarem terreno e a espalharem fumo por toda a região. Hoje é mais um dia de combate e, espera-se, que seja eficaz.

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