Proteção Civil diz que "situação é preocupante, mas está controlada"

Com a vila algarvia ameaçada pelo fogo, algumas casas foram evacuadas e várias pessoas levadas para uma escola no centro. Proteção Civil admite que algumas casas podem ter ardido e pede às pessoas para não entrarem em pânico

A frente do fogo que lavrava há 48 horas na serra de Monchique aproximou-se este domingo da localidade algarvia e levou à evacuação de algumas casas perto dos locais onde as chamas se aproximavam - por uma questão de segurança, algumas pessoas foram levadas para uma escola no centro da vila. Viveram-se, ainda assim, momentos de grande aflição, pois as chamas aproximavam-se perigosamente da vila.

O presidente da Junta de Freguesia de Monchique, que esteve desde o início do incêndio a prestar apoio junto à sede do órgão autárquico, também levou a família para a escola, onde a sua mulher é diretora. "Eu também tenho filhos e mãe e trouxemos todos para aqui para evitar qualquer problema, porque o fogo estava na encosta atrás", disse José Duarte da Silva à Lusa.

Mas alguns dos deslocados reagiram pior, lamentando como foram obrigados a deixar as suas casas à mercê das chamas. "Tiraram-nos de casa só com a roupa no corpo e até sem dinheiro para beber um café", disse Carlos Almeida, que foi transportado para a escola com a mulher e a neta, depois de ser retirado de casa, a cerca de dois quilómetros a nordeste de Monchique, ainda durante a tarde.

Em Lisboa, ao final da noite, o comandante operacional nacional da Proteção Civil, Duarte da Costa, disse que os meios - 800 operacionais, 230 viaturas e 12 meios aéreos - foram concentrados para proteger a vila de Monchique e Alferce, a cerca de 9 km. "A maior parte de Monchique está salvaguardada do fogo", garantiu o responsável, acrescentando que, por uma questão de segurança, foram requisitados alguns autocarros para evacuar a vila em caso de necessidade, mas que tal não deveria ser necessário. "Em Monchique a situação é preocupante, mas está controlada", concluiu, apelando a que a população não entrasse em pânico.

"Num conjunto de pequenas povoações ao longo do incêndio, pode ter havido casas isoladas que podem ter sofrido as ações das chamas."

O porta-voz da Proteção Civil confiava que a mudança das condições meteorológicas esperadas para a noite e madrugada, com menos calor e mais humidade, ajudasse os bombeiros a combater mais rapidamente o incêndio. "A frente mais ativa deste incêndio chegou à bacia da barragem de Odelouca e existem boas condições para que pare aí. Esperamos nas próximas horas, também com a ajuda das condições climatéricas, sobretudo com uma subida da humidade relativa para 50% e uma diminuição da temperatura do ar, conseguir combater este fogo durante a noite. As pessoas estão numa situação protegida, essa é sempre a nossa prioridade. Mas pedimos que não entrem em pânico e sigam as recomendações de todas as forças. Confiem no trabalho das autoridades. Os agentes estão a fazer um trabalho fenomenal. Se pedirem às pessoas para saírem é para salvaguardar as vidas humanas", referiu o mesmo responsável, admitindo a possibilidade de existirem casas queimadas no fogo: "Num conjunto de pequenas povoações ao longo do incêndio, pode ter havido casas isoladas que podem ter sofrido as ações das chamas."

O comandante Duarte da Costa referiu-se ainda ao incêndio nas encostas do castelo de Marvão, em Portalegre, mostrando-se otimista que durante a noite deste domingo seria dominado.

O ministro da Administração Interna, também presente na conferência de imprensa da Proteção Civil, manifestou "total confiança e solidariedade" na estrutura da Proteção Civil e nos milhares de operacionais que estão a combater os incêndios, sobretudo o que lavra no concelho de Monchique, distrito de Faro. "Queria apenas, neste momento, transmitir uma manifestação de total confiança e de total solidariedade nos milhares de operacionais dos bombeiros, da GNR, das Forças Armadas, de toda a estrutura de Proteção Civil, das entidades que têm cooperado no terreno" e sublinhar a "articulação exemplar com a Câmara Municipal de Monchique", afirmou Eduardo Cabrita na sede da Autoridade Nacional de Proteção Civil, em Carnaxide, Oeiras.

Segundo o governante, isto "reflete a capacidade que o sistema de Proteção Civil demonstrou ao longo destes dias de alerta especial em que se verificaram no país as temperaturas mais elevadas de que há registo em grande parte das estações meteorológicas do contingente".Assim, acrescentou o ministro, "foi possível, num contexto de ocorrência de mais de seis centenas de incêndios rurais ao longo destes dias de alerta especial que, neste momento, as atenções estejam concentradas exclusivamente em dois pontos: em Marvão e, fundamentalmente, em Monchique".

Segundo o jornal Sul Informação, os habitantes da aldeia Portela do Vento foram durante a tarde de domingo retirados, por "precaução", alguns deles à força. O comandante distrital de Faro quantificou também em mais de 100 as pessoas que tiveram de ser retiradas das suas residências, em 15 lugares dos concelhos de Monchique e Odemira, concelho do distrito de Beja também afetado pelo incêndio.Na zona existem várias casas dispersas, e com o fim do dia os meios aéreos deixaram de poder operar, complicando ainda mais o combate ao fogo.

População temeu o pior

Durante a tarde de domingo, o vai e vem intensivo de helicópteros a abastecer de água nas piscinas municipais, próxima do quartel dos Bombeiros Voluntários de Monchique e do centro de meios aéreos da localidade algarvia, e a espessa coluna de fumo que cobria a vila começaram a despertar uma preocupação maior junto das pessoas.

Lúcia Silva disse à Lusa que chegou a Monchique na sexta-feira para passar férias na casa de uns amigos e ainda não se tinha sentido ameaçada, mas confessou que agora "o movimento de tantos helicópteros" começava "a dar alguma preocupação".

"Daqui da vila só vemos o fumo, vemos e ouvimos os helicópteros a abastecer e a levantar voo do heliporto [existente junto ao centro de meios aéreos da Proteção Civil em Monchique], mas não sabemos ao certo como está a situação, a não ser pelo que vemos nas notícias", afirmou.

Também Isaura Alminha, de 70 anos, disse que passa todos os dias junto ao heliporto em Monchique e "ainda não tinha visto tanto movimento de helicópteros e carros de um lado para o outro", numa referência aos veículos das equipas de combate ao fogo, da GNR ou da Proteção Civil municipal que faziam a distribuição de água e alimentos aos elementos que no terreno.

"E hoje o fogo já parece estar mais perto do que estava ontem [sábado] e na sexta-feira. Vamos esperar que os bombeiros consigam controlar o incêndio rapidamente", desejou, afirmando-se "inquieta" e "preocupada" com o cenário que se vive, que é também tema de conversa em cafés e entre habitantes locais.

Vento a espalhar cinzas pode provocar reacendimentos

Ao longo da tarde de domingo, e consoante o sentido do vento, o fumo libertado pela massa florestal a arder também se fez sentir em Monchique, onde caíram em alguns períodos cinzas provenientes do incêndio, situação que José Feliciano, outro habitante da vila algarvia, também disse ser "preocupante" por demonstrar "complexidade" da situação, considerou.

"Se nós vemos cair cinza aqui na vila, podemos imaginar como é mais perto do fogo e como o vento pode projetar restos de vegetação ainda a arder para outras zonas e causar reacendimentos", acrescentou.

O incêndio está ativo desde sexta-feira em Monchique e obrigou as autoridades a retirar este domingo à tarde pessoas de uma zona próxima da Portela do Vento, por "precaução", disse fonte da Proteção Civil, sem determinar o número exato de deslocados.

Os bombeiros tiveram o trabalho dificultado pelo relevo acidentado do terreno, com encostas íngremes e vales profundos, pelas elevadas temperaturas e pela baixa humidade, assim como pelo vento.

O incêndio contou com duas frentes preocupantes, uma delas em direção à vila algarvia e sem acesso para meios de combate, disse o Comandante Distrital de Operações de Socorro de Faro, Vítor Vaz Pinto, no ponto de situação que as autoridades fizeram ao final da manhã de domingo.

UE está pronta para ajudar

O comissário europeu para a Ajuda Humanitária e Gestão de Crises, Christos Stylianides, declarou este domingo que a União Europeia está a acompanhar atentamente a situação do incêndio na zona de Monchique, distrito de Faro, e está "pronta para ajudar".

Na rede social Twitter, o comissário indicou também que "Portugal pediu a produção pelo Serviço Copérnico de Gestão de Emergências de mapas satélite dos incêndios que estão a afetar a zona de Monchique".

O incêndio no concelho de Monchique deflagrou na sexta-feira, por volta das 13:30, na localidade de Perna da Negra, e consumiu até agora uma vasta área florestal e alguns barracões de apoio à agricultura.

O Plano Municipal de Emergência está ativado desde a madrugada de sábado.

Com Lusa

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