Eduardo Beauté: de Leiria para Lisboa à procura de uma família

Eduardo Beauté nasceu Ferreira, em Leiria, numa família pobre. Tornou-se cabeleireiro e Lisboa abriu-lhe as portas a revelar a sua diferença e a uma vida que chegou a ser de sonho e acabou em pesadelo. Morreu no sábado.

Eduardo Ferreira nasceu em Leiria há 52 anos. Foi aí que abriu o primeiro cabeleireiro que se chamava Eduardo Haute-Beauté. A corruptela desse nome havia de lhe cunhar o nome profissional. E foi já como Eduardo Beauté que acabou por desembarcar em Lisboa, ainda não tinha 30 anos. Depressa se impôs, construindo uma carteira de clientes de figuras públicas. E fê-lo com tanto impacto e simpatia que passou a fazer parte do circuito dessas celebridades.

Filomena Cardinali lembra-se "do amigo", que ganhou há 27/28 anos, logo nesses primeiros anos de Eduardo Beauté em Lisboa. "Não se escolhe a família, mas escolhe-se os amigos, faz parte da minha vida toda, toda, tivemos momentos muito felizes", diz, visivelmente consternada. A última vez que a empresária falou com o cabeleireiro foi há uma semana. Pareceu-lhe que o amigo "estava bem", ou melhor, a sair da depressão que, garante, tinha sido causada pela separação do marido, o manequim internacional Luís Borges.

Antes de assinaram os papéis do divórcio em dezembro de 2016, Eduardo Beauté e Luís Borges tinham sido casados desde 2011. Era um casamento de sonho para o cabeleireiro que teve durante esse período o que sempre disse ter procurado: uma família. Uma família que afirmou na sociedade a diferença que sentia desde cedo, na sua vida. E que finalmente podia afirmar.

Luís Borges era 21 anos mais novo. Eduardo Beauté disse numa entrevista a Manuel Luís Goucha, no programa "Você na TV", foi o manequim que pediu que casasse com ele. O casal adotou três filhos - Bernardo, de 9 anos, Lurdes, de 7, e Eduardo, de 5. A adoção de Bernardo, um menino com Trissomia 21, que começou a conviver com o casal logo em 2011, foi um acontecimento inédito no país, inclusive para o sistema judicial. Só há três anos é permitida em Portugal a adoção por casais homossexuais.

É, aliás, significativo o título do livro que Eduardo Beauté publicou em junho deste ano "À procura de uma família". Memórias há muito tempo anunciadas, e com destaque, mas que acabaram por ser lançadas sem os holofotes a que se tinha habituado ao tornar-se uma figura pública. É, aliás, uma edição da Chiado Books e que os próprios autores pagam. As imagens do livro nos expositores da Fnac são os últimos post no Facebook de Eduardo, a 15 de junho.

No prefácio do livro, o cabeleireiro explicava que estava a cumprir o que desde miúdo pensava ser a sua missão: ser uma voz. Uma voz que teve dificuldade em ouvir desde a infância, nascido num meio pequeno, pobre, e a sentir que era diferente dos outros meninos. No livro conta que só depois dos 20 anos percebeu a sua homossexualidade. Teve um filho aos 19 anos - que morreu com meses, de cancro, e que teria hoje 33 anos.

"Todas as verdades nuas e cruas de 50 anos de virtudes e de erros que, nos sucessos e insucessos, tiveram sempre por base a certeza do que ainda hoje o move: a busca pela família", escreve na apresentação do livro. "Anos de violência, bullying, abusos, drogas, amores e desamores." Uma vida em que era notória a necessidade de agradar, lia-se nas entrelinhas das suas entrevistas, também nas suas publicações das redes sociais. Com altos e baixos, como a relação com Luís Borges, sobretudo no último ano de vida e comum.

Desmoronar de uma vida de sonho

Depois do divórcio, o casal trouxe os problemas para a praça pública, numa relação complicada que ultimamente estaria mais apaziguada. Mas Eduardo Beauté tanto surgia nas revistas sociais com a família e a falar da sua privada, como as criticava por publicarem notícias falsas a seus respeito, entre outros problemas, as que diziam que estava sem dinheiro e sem clientes. A separação do casal foi o desmoronar de uma vida que Eduardo tinha pensado ser de sonho. Mas a exposição da sua vida, em todas as suas vertentes, fez com que mais esta estivesse também à vista de todos. E à vista de todos estavam as declarações que faz desse período: tanto de profunda tristeza como de uma feliz recuperação. Contou, em entrevistas, que estava a ser tratado da depressão e bem acompanhado.

Manuel Luis Goucha também se surpreendeu com a morte de Eduardo Beauté. fNa entrevista que lhe deu dissera-lhes que os filhos, que tinha a cargo, tinham sido uma das razões de sobreviver à depressão. "Ele não fazia parte das minhas relações sociais, mas como profissional, destaco a sua grande generosidade ao adotar três crianças, ele e o ex-marido. São filhos e é uma responsabilidade para a vida. Adotou três crianças que precisavam de afeto e de segurança, deu-lhe esse afeto, conforto, sinceramente, o que mais me preocupa agora é o futuro dessas crianças", disse ao DN o apresentador. Até porque Luís Borges é um modelo internacional, com frequentes deslocações ao estrangeiro.

Filomena Cardinali também destaca a generosidade do amigo - e muitos falam da obra completada com a escrita do livro. Ele próprio o assumiu. "Faltava-me o livro. Não faltará mais. (...) Ele está aqui para ser lido, relido, sublinhado, rasurado, aditado. Mas nunca para ser apagado. Não apagaria nada. Tudo contribuiu para que fosse quem hoje sou. São as memórias mais marcantes dos meus primeiros 50 anos", escreve. Como um epílogo de uma vida complexa mas marcante. E que marcou, também, a modernidade em Portugal.

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