Américo Nave (primeiro da esquerda) é o diretor da associação Crescer, responsável pelo projeto, l no

restauração

"É um restaurante", mas também uma escola para a vida de quem se perdeu

O nome é mesmo É Um Restaurante. E é, mas diferente de todos os outros. Quem lá trabalha viveu na rua e está a aprender para voltar em pleno à sociedade. A partir desta terça-feira à noite, servem cozinha de raiz portuguesa, para partilhar.

"Ter uma casinha, o meu trabalho, viver com o meu companheiro, ter uma nova vida sem me envergonhar de ser quem sou." É o sonho de Luísa Gomes, 51 anos, um dos 15 funcionários do espaço É Um Restaurante e que abre ao público nesta terça-feira.

Luísa e os colegas foram sem-abrigo, precisam de apoio social para sobreviver, apenas um ou outro trabalhou na restauração. Tiveram vidas melhores, também piores, acreditam que, desta vez, terão um futuro. Foram selecionados pela associação Crescer, os mentores do projeto, e começaram a preparar-se há um mês na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. Seguem-se seis meses de experiência no restaurante, na cozinha ou a servir às mesas. Pretende-se que este seja um espaço de partilha, tanto para quem lá trabalha como para quem é cliente.

Inicialmente, o novo espaço, que fica na Rua de São José, na Baixa de Lisboa, só abre ao jantar mas o objetivo é servir também almoços.

Luísa foi toxicodependente, dez anos de um vício que deixou há 16, teve sempre empregos precários, chegou a trabalhar num refeitório. Viveu até há bem pouco tempo na rua, pediu ajuda à assistência social, é uma das pessoas apoiadas pela associação Crescer.

A associação trabalha especificamente com sem-abrigo e, mais recentemente, com refugiados, para quem desenvolveu oito projetos, nomeadamente: É Uma Rua, É Uma Casa, É Uma Vida e, agora, É Um Restaurante, sendo que este último começou a ser germinado em 2016.

Os filhos de Luísa estão criados, tem um teto, onde vive com um companheiro, mas é num prédio que vai para obras e só lá continuam por caridade do senhorio. Tem de resolver o problema da habitação dentro de dois meses.

"Não estou numa situação muito estável, mas tudo se irá resolver. Gosto de trabalhar aqui, estou a aprender, é um começo. Muitas pessoas me têm ajudado, fazem parte do meu percurso e sei que posso contar com elas", diz.

Como ajudante de cozinha, percebeu que a cevada não é só uma bebida, com os seus grãos preparam-se entradas; que o queijo também se pode consumir em espuma e que há batatas que se assam e depois se fritam (batata brava), tem cozinhado uma infinidade de coisas que desconhecia.

O chefe executivo é David de Jesus, que decidiu deixar as cozinhas afamadas onde trabalhou para se dedicar aos projetos sociais. "Candidatei-me a uma vaga que vi na internet, pensei: porque não? Enquanto estudante fiz voluntariado para o Banco Alimentar e, ao fim de dez anos na cozinha, achei que estava na altura de me envolver num projeto social."

Comanda na cozinha, com consultadoria do chefe Nuno Bergonse, que, entre outras coisas, aprova as ementas. "Já colaborava com a associação Crescer no projeto Marhaba [bem-vindo em árabe, catering de comida do Médio Oriente] e há dois anos e meio convidaram-me para ser o consultor no restaurante, o que me aliciou foi sobretudo o lado humano. É uma oportunidade única para a maioria destas pessoas", conta Bergonse. Está satisfeito com o caminho percorrido até agora, o maior receio é que alguns possam quebrar os compromissos laborais. A maioria dos empregados não está habituada a rotina.

No que depender de Fernando Piloto, de 43 anos, empregado de mesa, correrá tudo bem, assegura o próprio que, em tempos, foi vendedor. Concentrado com o que leva na bandeja, vai explicando que entradas são: abóbora assada com cevada e espuma de queijo; salada de beterraba, com molho de laranja e sésamo. "Vivi 16 anos na Europa (Suíça, França, Espanha, Sicília), falo francês, italiano, inglês, espanhol e alemão, o que é bom para este trabalho, penso que foi por isso que me escolheram. Vivo numa casa, agora já todos têm onde ficar", diz.

Américo Nave, diretor da Crescer, explica que o primeiro passo foi tirar as pessoas da rua, sendo que, dos 15 funcionários (entre eles cinco mulheres), quatro ainda vivem em albergues. O restaurante nasceu de uma proposta do presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) para fazer naquele sítio um espaço para fornecer refeições aos sem-abrigo.

"Respondi que esse não era o nosso core business [negócio] e o presidente da CML contrapôs, perguntando o que gostaríamos de ali fazer. Dissemos que poderíamos fazer o contrário, um projeto onde as pessoas sem-abrigo dessem de comer. Falámos com o Nuno [Begonse], um amigo criou a marca e arranjámos forma de garantir um salário a estas pessoas", explica. Sublinha que em todo este processo estão sempre acompanhados de um psicólogo, que inclusive vai ajudar os funcionários a encontrar estágios e empresas para trabalhar. O tempo que estarão no restaurante "é para ganharem ritmo" e regressarem à vida ativa.

Fernando Piloto trabalha no segundo turno, com entrada às 16.00, recebe um subsídio de 450 euros mensais, como todos os outros. Não é o salário mas uma bolsa de formação, em que este projeto se insere. Um mês de aulas, mais seis meses a treinar no restaurante, seguindo-se um estágio profissional. O objetivo é que fiquem onde estagiam ou encontrem outro emprego. A segunda turma já está a ser selecionada.

O responsável pelo serviço à mesa, o chefe de sala, é Francisco Sá Pessoa. Tem de "garantir que os métodos de trabalho são seguidos, este é um projeto de carácter social mas, acima de tudo, é um restaurante", salienta. Ele e David de Jesus são os únicos profissionais do ramo a trabalhar a tempo inteiro.

O restaurante abre ao público às 19.30 e a cozinha fecha às 22.30, serve petiscos. Nuno Begonse diz que é uma cozinha de partilha e de conforto. "Cozinha de sabor português, não é uma cozinha tradicional, mas as raízes estão lá. A ideia é que a cada duas pessoas peçam três pratos e partilhem."

Os preços de uma refeição, com bebidas, podem variar entre os 20 e 25 euros. As entradas começam nos 4,5 euros (batata doce ou salada, por exemplo) e vão até aos sete euros (tiborna com escalopes de porto e uvas tintas); os pratos principais, de 7,5 euros (ervilhas com ovos escalfados) e 9,5 (pica pau de polvo com batatas e coração de alface, peixe de mercado crocante com açorda de tomate e algas), até aos 14 euros (bife com batata frita e verdes da época). As sobremesas variam entre três euros (mousse de chocolate) e 4 (pudim de azeite e mel com sorvete de tangerina e rabanada com gelado de cordoma).

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