Caos de Norte a Sul. Dois mortos, pontes condicionadas e barcos parados

Mais de 5.400 ocorrências registadas pela Proteção Civil em todo o país, com dois mortos, um desaparecido e 51 pessoas desalojadas. Em Lisboa, todas as ligações fluviais no rio Tejo foram suspensas. Cidade de Águeda está a sofrer com cheias.

O mau tempo provocado pela depressão Elsa já levou a Proteção Civil a resolver mais de 5.400 ocorrências desde as 15.00 de quarta-feira, sobretudo inundações (1.152) e quedas de árvores (2.862). Duas pessoas morreram, uma no Montijo após uma árvore ter atingido um camião, e outra em Castro Daire na sequência da derrocada de uma casa. No mesmo concelho de Castro Daire, um condutor de uma retroescavadora está desaparecido após a máquina ter deslizado para o rio Paiva quando operava. Às 23.30 decorriam buscas para encontrar o homem. Há 51 desalojados no país, informou Pedro Nunes, da Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC), realçando que todos foram já acolhidos por Proteção Civil e Segurança Social. A maior preocupação é agora a cidade de Águeda, com o responsável a admitir que poderia ser inundada tal como sucedeu no ano 2000, o que veio agora a confirmar-se.

"A situação que mais nos preocupa é Águeda. Os rios têm caudais muito próximos dos verificados nas inundações que atingiram Águeda no ano 2000. É muito provável que seja inundada", admitiu.

Mais tarde, já depois das 23.00, confirmou-se a cheia em Águeda. "Neste momento, as fossas pluviais já não estão a dar vazão e a baixa está inundada. O rio está com cotas muito altas e já não temos capacidade de encaixe, porque a barragem de Ribeiradio está a libertar 1000 metros cúbicos por segundo", disse o presidente da Câmara de Águeda, Jorge Almeida.

O autarca diz que a subida súbita da água tem a ver com as descargas "brutais" que a Barragam de Ribeiradio está a fazer. "A Estrada Nacional EN16, entre Carvoeiro e Pessegueiro do Vouga, está encerrada e não há memória que isso tenha acontecido. O caudal do Rio Vouga, neste momento, é qualquer coisa de extraordinário", disse.

Pelas 23.20, Jorge Almeida dava conta da existência de algumas ruas da baixa da cidade inundadas e várias casas com cerca de "30 ou 40 centímetros de água à beira da porta", mas admitia que essa altura iria aumentar.

No caso do rio Tâmega, mais a norte, o dirigente da ANPC referiu que "a situação está estabilizada mas tem que se rmonitorizada nas próximas horas", já que é possível que o caudal venha a aumentar. Chaves e Amarante são as cidades mais afetadas. Também no rio Mondego, há um grande caudal e admite-se que na região de Coimbra aconteçam cheias.

Até às 03.00, o vento forte é um perigo. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) estendeu o aviso vermelho emitido para os distritos de Viseu, Guarda, Castelo Branco, Coimbra e Aveiro até às 03:00 de sexta-feira devido à previsão de rajadas de vento fortes. Antes estava até às 21.00 de quinta-feira.

Nas mais de 4200 ocorrências, o Porto foi distrito que mais situações registou. Braga, Aveiro, Viseu, Coimbra também tiveram muitos incidentes relacionados com o vento forte e a chuva.

Muito vento na sexta-feira, Fabien no sábado

A partir das 03.00 da madrugada, irá haver um desagravamento da situação, mas sexta-feira à tarde o mau tempo volta a preocupar. Na sexta-feira à tarde, os ventos serão intensos e a chuva persistente sobretudo nas regiões Centro e Alentejo.

O IPMA alerta também para os efeitos de uma nova depressão, denominada Fabien, que atingirá Portugal no sábado. Segundo o IPMA, o Norte e o Centro serão as zonas do país mais afetadas por esta depressão, estando previstos intensos períodos de chuva e fortes rajadas de vento.

A nota refere ainda que haverá "vento forte de sudoeste", prevendo-se que as rajadas atinjam valores de 90 quilómetros por hora no litoral norte e centro e 120 quilómetros por hora nas terras altas. "A agitação marítima associada ao Fabien irá também fazer-se sentir na costa ocidental, em especial no litoral norte", acrescentou a nota.

Contudo, prevê-se que os efeitos da depressão Fabien não apresentem em Portugal continental a mesma intensidade do que os da tempestade Elsa, "em particular em termos de vento e com mais significado em termos de precipitação". O IPMA prevê uma melhoria gradual do estado do tempo a partir de domingo.

Pontes com circulação condicionada

O agravamento das condições meteorológicas levou a Transtejo e a Soflusa a suspender esta quinta-feira todas as ligações fluviais no rio Tejo.

Também a circulação na ponte 25 de Abril esteve afetada: a passagem dos comboios que fazem a ligação entre Lisboa e Setúbal esteve condicionada a apenas um de cada vez no tabuleiro da ponte, o que teve impacto no cumprimento dos horários.

Nas duas pontes - Vasco da Gama e 25 de Abril - está ainda proibida a circulação de veículos pesados com toldos e motociclos.

Inicialmente mantinha-se operacional apenas a ligação fluvial entre Cacilhas e o Cais do Sodré, mas o estado do tempo levou a Transtejo/Soflusa a suspender também esta ligação. "As condições atmosféricas não melhoraram, pelo contrário, agravaram-se neste espaço de tempo e tivemos que suspender também a ligação de Cacilhas", em Almada, no distrito de Setúbal, anunciou a empresa.

Devido ao mau tempo que se faz sentir, as restantes ligações fluviais entre a Península de Setúbal e Lisboa já se encontravam encerradas desde cerca das 16:00.

Segundo a Transtejo/Soflusa, o transporte fluvial apenas será retomado quando "se verificar uma melhoria das condições atmosféricas que permitam retomar a operação em segurança".

A Transtejo assegura as ligações fluviais entre o Seixal, Montijo, Cacilhas e Trafaria/Porto Brandão a Lisboa, enquanto a Soflusa garante a travessia entre o Barreiro e o Terreiro do Paço (Lisboa).

Ao final do dia dezenas de pessoas ainda aguardavam no Cais do Sodré um transporte alternativo. A Câmara de Lisboa reuniu com Carris, Transtejo e Soflusa e a solução encontrada foi transportar as pessoas de autocarro até à estação ferroviária de Sete Rios. No caso do Barreiro, os autocarros iriam mesmo levar as pessoas até ao concelho da margem sul.

A queda de uma árvore no Montijo causou a morte ao condutor de um veículo pesado, revelou a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). Mais a Norte, uma casa de desabou em Coudeçais, no concelho de Castro Daire, tendo ali sido localizado um homem já sem vida, anunciou o Comando Distrital de Operações de Socorro de Viseu.

Ao início da noite, a circulação ferroviária foi interrompida entre Pinhal Novo e Setúbal, devido à queda de uma árvore na linha, de acordo com o que foi dito aos passageiros. A circulação já estava a ser afetada devido a cortes de eletricidade.

Estrada Marginal cortada devido a acidente

A Estrada Marginal que liga Lisboa a Cascais está cortada ao trânsito nos dois sentidos na zona do Alto da Barra, em Oeiras, devido a um acidente rodoviário, disse à agência Lusa fonte da PSP. A mesma fonte adiantou que a estrada está cortada desde as 16:56. Os bombeiros de Oeiras avançaram à Lusa que o choque frontal provocou dois feridos ligeiros, que foram transportados para o Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa.

Trânsito cortado na Serra de Sintra e Wonderland Lisboa encerrado

A principal estrada da serra de Sintra, entre os cruzamentos de Azoia e de Portela e Portela Capuchos, foi esta quinta-feira encerrada devido à forte precipitação e intensidade do vento, divulgou a Câmara de Sintra.

A estrada foi encerrada às 17:00 e a interdição vai manter-se até que estejam "repostas as condições de segurança no local", informou a câmara, num comunicado em que apela ainda todas as pessoas "para evitarem qualquer atividade na serra de Sintra", no distrito de Lisboa.

A Câmara de Sintra decidiu também encerrar ao público o Reino do Natal, atendendo às condições meteorológicas.

De acordo com a autarquia, todos os corpos de bombeiros do concelho encontram-se em "estado de alerta laranja" e a Proteção Civil "reforçou a estrutura de resposta operacional para as próximas 48 horas, de forma a garantir o permanente acompanhamento e controlo de todas as eventuais ocorrências".

Foram ainda aumentadas as ações de monitorização, com especial enfoque nas áreas historicamente identificadas como mais sensíveis.

A tomada de medidas de prevenção ativa, vigilância e de planeamento operacional "tem em vista uma resposta antecipada e imediata a possíveis emergências, nomeadamente no que diz respeito à desobstrução de linhas de água em zonas historicamente mais vulneráveis e a salvaguarda de infraestruturas na orla costeira", pode ler-se no comunicado.

A câmara sugere ainda que para mais informações e auxílio em situações de emergência seja contactado o Serviço Municipal de Proteção Civil de Sintra através do número de telefone 800 21 11 13.

O mau tempo levou também ao encerramento do Wonderland Lisboa, no Parque Eduardo VII. De acordo com a TVI, a organização do evento já tinha anunciado na quarta-feira a suspensão da roda gigante até as condições meteorológicas melhorem.

Queda de árvores faz desalojados

O agravamento do estado do tempo tem originado centenas de ocorrências. Nove pessoas ficaram desalojadas em Almada, distrito de Setúbal, e outras sete em Santo Tirso devido à queda de árvores em habitações, disse à Lusa o comandante da proteção civil

"Em Almada resultaram nove desalojados que foram, entretanto, realojados pelos serviços de ação social da Câmara de Almada, e em Santo Tirso sete pessoas foram deslocadas e estão em casa de familiares acompanhados pelos serviços municipais", disse Rui Laranjeira.

A Câmara de Almada fez saber, entretanto, que vai assegurar o realojamento dos nove moradores da casa que sofreu danos na cobertura.

"A Câmara Municipal de Almada acionou o Plano Municipal de Emergência Social (PMES) com vista a realojar as nove pessoas, pertencentes a dois agregados familiares", adiantou a autarquia, em comunicado.

Segundo a nota, foi necessário acionar este mecanismo, porque a resposta de realojamento dada pela Linha Nacional de Emergência Social "não cumpria a função de proximidade social pretendida".

"Por conseguinte, a Câmara Municipal de Almada acionou de imediato o PMES, tendo providenciado alojamento condigno de proximidade e uma equipa especializada de acompanhamento da situação", referiu.

Possíveis alagamentos nas zonas ribeirinhas do Porto e Gaia

O comandante da Capitania do Douro alertou para "eventuais alagamentos" em "zonas mais sensíveis" do Porto e de Vila Nova de Gaia, devido à intensa queda de chuva.

Segundo Cruz Martins, às 18:30, a situação no rio Douro encontrava-se controlada, apesar da chuva intensa, podendo "eventualmente" existirem esta noite alagamentos pontuais nas duas cidades.

À noite, o capitão Cruz Martins afastou a possibilidade de uma cheia no rio Douro no decurso do pico da maré cheia, que ocorreu cerca das 21.00, na sequência da depressão Elsa.

"Para esta noite está afastado o pior cenário. Neste momento não há registo [de cheia], mas vamos continuar a acompanhar a situação porque há muita água a correr das albufeiras ao longo do rio Douro", acrescentou o capitão dos portos do Douro e Leixões.

Informando que a nova maré cheia no rio Douro "ocorrerá sexta-feira pelas 9:30", garantiu que o caudal "continuará a ser monitorizado toda a noite" e que a evolução deste "dependerá das descargas que se fizerem nesse período".

Alentejo regista quedas de árvores e estruturas em vários concelhos

Quedas de árvores e estruturas, inundações, deslizamentos de terras e danos em redes elétricas são os principais problemas registados esta quinta-feira no Alentejo, devido ao mau tempo, revelou a Proteção Civil.

Na Vidigueira, no distrito de Beja, o vento forte levantou as coberturas de um acampamento e cerca de trinta pessoas ficaram desalojadas, encontrando-se no local elementos do Serviço Municipal de Proteção Civil e da Cruz Vermelha a avaliar a situação, disse à agência Lusa fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Beja.

Já o Comando Distrital de Proteção Civil (CDOS) de Portalegre disse à agência Lusa que, entre as 00:00 e as 17:00, contabilizou um total de 28 ocorrências no distrito relacionadas com o mau tempo, mas salientou que todas foram "de pequena monta" e que "não causaram danos".

"A maior parte das ocorrências verificou-se a partir das 14:00 e a parte norte do distrito foi a mais afetada", acrescentou a fonte, assinalando que os concelhos com mais ocorrências foram Nisa (10) e Portalegre (seis).

Segundo o CDOS, houve "quedas de árvores" pelos concelhos de Portalegre, Ponte de Sor, Nisa, Marvão, Crato, Alter do Chão e Castelo de Vide, e "sete movimentos de massas".

No Alentejo, Beja e Portalegre integram o "lote" de distritos sob aviso laranja para precipitação, vento ou agitação marítima, enquanto só com avisos amarelos está o distrito de Évora.

200 pessoas retiradas de moto 4 da estação ferroviária da Trofa

Na Trofa, cerca de 200 pessoas foram retiradas de moto 4 da estação ferroviária da Trofa depois da subida das águas de um ribeiro afluente do rio Ave as ter retido no local, disse à Lusa o comandante dos bombeiros.

O alerta, segundo o comandante dos Bombeiros da Trofa, João Pedro Goulart, foi dado cerca das 17:00, mas a chegada dos bombeiros ao local, "devido ao grande volume de solicitações" por causa da depressão Elsa, "só ocorreu cerca de hora e meia depois, com o recurso a uma moto 4".

A subida das águas, acrescentou o comandante, "cobriu 10 degraus da escadaria de acesso à plataforma" ferroviária, numa altura em que "havia muitos comboios a chegar", situação que "já não ocorre devido ao recuo das águas".

Circulação esteve condicionada na Linha do Norte

A circulação ferroviária na Linha do Norte esteve a fazer-se alternadamente entre Vale de Figueira, no concelho de Santarém, e Entroncamento, devido à queda, nesse troço, de quatro árvores sobre a catenária, disse fonte da Infraestruturas de Portugal (IP).

Segundo a fonte, depois de resolvido um primeiro condicionamento entre Vale de Figueira e Santarém, também devido à queda de uma árvore, a circulação voltou a ser afetada ao princípio da noite com a queda de outras quatro árvores, desta vez entre Vale de Figueira e Entroncamento.

A circulação ferroviária foi depois restabelecida por volta das 19:50.

notícia atualizada às 07.50

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