Covid-19. O que vai acontecer no 'ressuscitado' Hospital Militar de Belém?

A estrutura hospitalar do Exército não vai estar, para já, preparada para tratar doentes graves. Terá uma equipa de 30 médicos e 80 enfermeiros da "pool" de voluntários das Forças Armadas. O ex-ministro da Saúde e médico, Adalberto Campos Fernandes, é um deles

Quando esta segunda-feira o primeiro-ministro visitar o edifício do antigo Hospital Militar de Belém (HMB) na Ajuda - que está a ser reabilitado para receber doentes infetados com o novo coronavírus - deverá encontrar um dos três pisos em obras quase preparado. A visita está agendada e esta é, pelo menos a expectativa do secretário de Estado Adjunto da Defesa Nacional, Jorge Seguro Sanches que, em declarações ao DN admitiu que todas as obras devem ficar concluídas em cerca de duas a três semanas.

O agora renovado edifício, criado em 1890 e antes denominado Hospital Militar de Doenças Infectocontagiosas, foi uma unidade pioneira neste campo.

O agora renovado edifício, criado em 1890 e antes denominado Hospital Militar de Doenças Infectocontagiosas, foi uma unidade pioneira neste campo. Encerrado desde 2013, volta agora a ter vida e a servir para acolher doentes, desta vez com o novo coronavírus.

O polo do Porto do hospital das Forças Armadas tem a sua capacidade esgotada com os cerca de 60 idosos provenientes de vários lares a norte do país e esta 'nova' unidade torna-se cada vez mais urgente. As instalações de Lisboa do HFAR estão a ser reservadas para acolhimento apenas de militares e familiares.

Vão estar disponíveis 150 camas e terá uma equipa de 30 médicos e 80 enfermeiros, recrutados da "pool" de voluntários criada pelo Estado-Maior-General das Forças Armadas.

O ex-ministro da Saúde e também médico, Adalberto Campos Fernandes, confirmou ao DN que é um destes voluntários. "Não será para exercer medicina, mas como professor de Saúde Pública e com a minha experiência de governo, penso que posso dar algum contributo. Daí ofereci-me ao Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas para dar todo o apoio necessário", explicou ao DN. O ex-ministro visitou as obras do hospital na passada quarta-feira, com alguma nostalgia: "Fiz a tropa naquele hospital, como aspirante médico", recorda.

Ótimo, inimigo do bom

O projeto em curso já teve, no entanto, alguns percalços. Apesar do antigo HMB ter tido todas as infraestruturas necessárias para o tratamento de doenças infetocontagiosas (como a tuberculose multirresistente), com quartos de pressão negativa (que estancam o ar e evitam contágio), ventiladores e uma unidade de cuidados intensivos, estes equipamentos não vão, para já, ser reabilitados.

O que que pretendeu foi disponibilizar, com a maior celeridade possível, um espaço em condições para poder receber, caso as autoridades de saúde assim o necessitem, doentes infetados que não estejam em estado muito grave a exigir cuidados intensivos

"O que que pretendeu foi disponibilizar, com a maior celeridade possível, um espaço em condições para poder receber, caso as autoridades de saúde assim o necessitem, doentes infetados que não estejam em estado muito grave a exigir cuidados intensivos. São pessoas a precisar de cuidados médicos especiais, mas sem uma situação extrema", explica Seguro Sanches.

Esta decisão, porém, não foi bem aceite pelo oficial que o Exército tinha, inicialmente, designado para coordenar o projeto, o major-general e médico pneumologista Esmeraldo Alfarroba. Este militar, um histórico na medicina do Exército, foi o diretor do HMB durante 22 anos e foi ele que ali equipou os primeiros quartos de pressão negativa do país.

O general pneumologista apresentou o seu plano, que implicava a reativação de todas as antigas valências, as quais, no seu entender, são cruciais para o tratamento dos doentes com covid-19.

O general pneumologista apresentou o seu plano, que implicava a reativação de todas as antigas valências, as quais, no seu entender, são cruciais para o tratamento dos doentes com covid-19.

Alfarroba integrava o grupo, onde estava Adalberto Campos Fernandes, que visitou o edifício na passada quarta-feira e foi nessa ocasião que informou o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, também presente, que se afastava daquela missão. "O major-general tinha o seu projeto e percebeu que não era o que estava a ser seguido", contou ao DN um dos participantes da visita.

Jorge Seguro Sanches diz compreender a posição daquele responsável. "Entendo perfeitamente a preocupação do Sr. major-general Alfarroba, mas neste momento não temos condições para ativar todo aquele equipamento, devido à situação de emergência em que nos encontramos e à necessidade de ter aquelas instalações preparadas para os cuidados básicos. Como se costuma dizer, o ótimo é inimigo do bom. Mas essa base está feita, o espaço fica valorizado para o futuro. Caso venha a ser necessário, admito que todas as funcionalidades venham a ser reativadas", assinala o governante.

Valorização para o futuro

Ainda assim, o secretário de Estado admite que a reativação dos chamados "circuitos de oxigénio", considerados um cuidado básico para estes doentes que apresentam, na sua maioria, dificuldades respiratórias, possa avançar. "O ministério da Defesa tem estado em permanente diálogo com o Exército, que assumirá a coordenação clínica e está também a acompanhar toda a parte do projeto de engenharia, e a decisão de ativar os circuitos de oxigénio será tomada em breve", afiançou.

O investimento previsto para esta reabilitação situar-se-á entre os 500 e os 750 mil euros, dependendo do tipo de valências que se forem instalando. O projeto está a ser acompanhado pela Direção-Geral de Recursos do ministério de Defesa Nacional, que definiu o caderno de encargos e pelo Estado-Maior do Exército - na vertente clínica agora através médico e general Carlos Lopes (que substituiu Alfarroba) e, na vertente de engenharia, pelo general e engenheiro Corte-Real e pelo coronel tirocinado Manuel Pires Mateus, ambos do regimento desta especialidade.

Dois anos depois de ter sido encerrado, foi cedido pelo governo de Passos Coelho à Cruz Vermelha Portuguesa, por 25 anos, e em troca de um investimento de 8,5 milhões de euros. Mas o negócio acabou por ser suspenso.

Antes desta decisão de o reabrir, estava a ser preparado um processo de alienação à Câmara Municipal de Lisboa, para a construção de uma unidade de cuidados continuados, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia. Um acordo que previa que dois dos pisos seriam para os antigos combatentes.

"As obras que estamos a fazer vão inegavelmente valorizar este edifício, que estava abandonado, e prepará-lo para a sua utilização futura de serviço público", salienta Jorge Seguro Sanches.

"As obras que estamos a fazer vão inegavelmente valorizar este edifício, que estava abandonado, e prepará-lo para a sua utilização futura de serviço público", salienta Jorge Seguro Sanches.

As 150 camas que vão ficar aqui disponíveis fazem parte das cerca de 2300 disponibilizadas pelas Forças Armadas ao Serviço Nacional de Saúde, para apoiar o tratamento de doentes com covid-19.

O mais recente balanço da Direção-Geral da Saúde (DGS), divulgado este domingo, Portugal já regista 119 vítimas mortais devido à infeção pelo covid-19. Nestes dados não está incluída a morte de um jovem de 14 anos que morava em Ovar, cuja morte foi confirmada este domingo de manhã no Hospital da Feira.

O número de infetados subiu para 5 962, sendo que quase outros tantos aguardam o resultado dos testes. O balanço deste domingo aponta para 43 doentes recuperados. Quase 18 mil pessoas estão sob vigilância das autoridades de saúde.

Segundo o boletim epidemiológico da DGS, há 138 doentes internados em unidades de cuidados intensivos, num total de 438 situações de internamento.

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