Bairro Amarelo. "É feito de pessoas que trabalharam sempre durante a pandemia"

As "vistas" do bairro Amarelo, no Monte da Caparica, tornaram-se famosas com a polémica da presidente da Câmara de Almada. Mas quem lá vive, que condições tem?

Os últimos census dizem que vivem 13 mil pessoas naqueles prédios amarelos que dão nome ao bairro, que se tornou mais visível nesta semana depois de a presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, ter dito que não se importava de viver num sítio com tão belas vistas. Este bairro social do Monte de Caparica espreita o estuário do Tejo e Lisboa do outro lado. "É feito de pessoas que trabalharam sempre durante a pandemia", diz ao DN a presidente da Junta da União de freguesias da Caparica e Trafaria.

Esta frase de Teresa Coelho, a autarca, assinala que, além dos prédios degradados e dos problemas sociais e económicos do bairro, há pessoas a respeitar neste pingue-pongue de críticas a Inês de Medeiros. Sobre o que disse a presidente da câmara, limita-se a frisar que "não concorda". Mais não diz.

Prefere falar do bairro que nasceu nos anos de 1970 e foi concluído na década de 80 e onde foram realojados muitos retornados da ex-colónias. Mas também pessoas realojadas do morro de Cacilhas. E apesar de ser da tutela do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), tendo sido mesmo retirado do Plano Diretor Municipal durante algum tempo, "nunca a nível local se deixou de fazer a recolha do lixo" ou de se criar equipamentos sociais como a biblioteca, a piscina municipal e o parque urbano, entre outros.

Agora, admite, até porque a manutenção não depende da autarquia mas do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, tem todos os problemas de um bairro social, construído com "materiais menos bons", como a tinta, a tal amarela, com a qual os prédios foram pintados.

"Ainda bem que está naquele sítio. Quando a cidade começar a crescer, é para ali que o fará, com toda a centralidade."

"A manutenção é complicada", admite. A autarca conhece o bairro por dentro. "As casas são húmidas e muito quentes no verão, não há conforto térmico. O ruído é mau, ouve-se tudo na casa ao lado". Os espaços comuns estão em mau estado.

Teresa Coelho não quer ouvir também polémicas sobre a "boa" localização do bairro Amarelo. "Ainda bem que está naquele sítio. Quando a cidade começar a crescer, é para ali que o fará, com toda a centralidade." Recorda que há hospital e universidades por perto. E há problemas sociais e de delinquências? Há, diz, os que são típicos destes bairros, porque, frisa, "como em todo o lado, há gente boa e má".

O bairro não tem associação de moradores, mas em 2014 - Governo de Passos Coelho e com a lei das rendas de Assunção Cristas - um grupo organizou-se para contestar o aumento das ditas após 30 anos em que permaneceram congeladas. "Foi feito de uma forma abrupta e até foi introduzida uma taxa de conforto, as tais vistas" para sustentar o aumento. Rendas que variam, segundo a presidente da junta de freguesia, entre os 5 e os 400/500 euros.

"Há famílias que ficaram com rendas muito altas, agregados que não conseguiram pagar e até tiveram ordem de despejo. Alguns tivemos de realojar em situações-limite."

Mais recentemente, afirma Teresa Coelho, ficaram sem transporte à porta das suas casas, os TST deixaram de passar no bairro. E agora os moradores têm de se deslocar até aos "três vales" para apanharem o autocarro. Os tais muitos trabalhadores dos serviços operacionais dos hospitais, das limpezas urbanas e da recolha de lixo que ali vivem. "E que tiveram um papel fundamental nesta pandemia para manter tudo a funcionar", garante a autarca.

"Há famílias que ficaram com rendas muito altas, agregados que não conseguiram pagar e até tiveram ordem de despejo."

O bairro ganhou neste momento visibilidade com a polémica em torno das declarações da presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, que foi alvo de críticas por ter afirmado que os bairros sociais de Almada têm o privilégio de ter uma "vista maravilhosa" e que ela própria se mudaria "amanhã" para um desses bairros.

"Almada tem este privilégio de ter bairros sociais em espaços absolutamente maravilhosos, com uma vista invejável. Qualquer bairro social da margem norte tem inveja. Eu própria amanhã iria viver para o bairro Amarelo, com aquela vista maravilhosa", afirmou Inês de Medeiros, que falava numa reunião pública da câmara municipal.

A vereadora do Bloco de Esquerda Joana Mortágua comentou o assunto no Twitter.

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