A volta ao mundo de uma foto verdadeira tornou-se uma mentira

Em Portugal já foi partilhada mais de 35 mil vezes a imagem de uma mulher a dormir na rua, abraçada a uma criança, supostamente em Lisboa. A imagem é verdadeira, a história e a localização, não

No dia 7 de Novembro de 2017, o site da Sud Radio francesa mostrava uma foto que tinha sido partilhada 90 mil vezes em apenas quatro dias. A foto mostra uma mulher, dormindo no chão de uma rua pedonal, abraçada a uma criança. Estão tapadas por um cobertor. A radio identifica o local: Rue de Sainte-Catherine, em Bordéus. Não é uma rua qualquer - é uma das mais longas ruas exclusivamente pedonais da Europa, com mais de um quilómetro. Faz parte da zona classificada como património mundial pela UNESCO.

A fotografia tornou-se, ela própria, num outro tipo de património mundial. Chegou a Lisboa na segunda-feira passada. Foi partilhada por mais de 35 mil pessoas que acreditaram que aquela mesma rua onde dormem aquela mulher e aquela criança era, afinal, na capital portuguesa. Bastaria olhar com atenção para perceber que não era.

A rua é pedonal. Os edifícios têm uma época. Há, numa esquina, um restaurante da cadeia KFC. Só isto bastaria para provar que a foto não foi tirada em Lisboa. Porque não há nenhum restaurante KFC no centro histórico de Lisboa. Também nenhum deles funciona numa rua pedonal.

Num ano e poucos dias, a foto de Bordéus chegou a Lisboa. Mas antes viajou por vários outros países. John Clinton denunciou, com aquela foto, a situação dos sem-abrigo na Irlanda. Ciáran Bolger denunciou-o logo, acusando o partido Sinn Fein de ter uma "mentalidade doentia". Bolger é do partido rival irlandês Fianna Fáil.

Há duas semanas, a foto surgiu no site Spotted in Yorkshire (encontrado no Yorkshire), lamentando que aquela mulher e aquela criança, agora inglesas, tivessem de dormir na rua.

Na antevéspera do Natal passado, a foto, afinal, era na Sicília - garantia do site italiano You Reporter. "Ajudem-nos, são seres humanos."

São? A difusão da imagem daquela mulher e daquela criança - que ora são de Lisboa, de Bordéus, de Yorkshire ou de Dublin - não nos conta nada sobre elas. Desumaniza-as. Torna-as numa bandeira - porventura bem-intencionada, é certo. Mas enganosa. O direito que ambas têm a uma habitação condigna não é mais importante que o direito que nasceu com elas de serem pessoas concretas, com nome, história, vida.

A circulação, em milhões de sites e páginas de redes sociais, da sua foto viola, ainda, o seu direito à privacidade. Uma breve pesquisa no Google Image Reverse Search mostra que a foto foi publicada na Indonésia, na Tailândia, na Tunísia. Serviu para criticar o autarca de Bordéus - o ex-primeiro-ministro de direita Alain Juppé-, para acusar um ministro português do PS de não fazer nada, para apontar a França como exemplo de falta de acolhimento a refugiados, para apontar à esquerda irlandesa uma falha moral... Serviu para tudo, menos para falar da realidade que a foto testemunha.

Na realidade, a mãe que aparece na foto chama-se Marie-Sophie e é uma francesa da região vinhateira do Médoc. Tem duas crianças. E, desde Dezembro do ano passado tem, também, uma casa. As associações Habitat e Humanisme Bordeaux, conseguiram disponibilizar-lhes um T3 na zona de Chartrons. A imagem que circula em Portugal é a do seu passado em versão viral. Muita gente usou a foto para protestar contra a desumanidade de haver pessoas a dormir na rua. Muitos outros fizeram-nos para criticar politicamente aqueles de quem não gostam. Outros terão ganho dinheiro com os cliques, que remuneram a publicidade online, à custa de quem seguiu a desinformação.

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