500 anos depois, causas sociais unem judeus e católicos do Porto

Dois cheques no valor total de 15 mil euros passam das mãos do presidente da Comunidade Judaica do Porto para instituições de apoio aos sem-abrigo e a famílias carenciadas da Diocese do Porto. Um gesto que não se via há 500 anos.

Um cheque de 7500 euros passa das mãos do presidente da Comunidade Judaica do Porto para o responsável do NPISA (Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo), um segundo do mesmo valor é entregue à Casa Ozanam. Uma troca mediada pelo bispo do Porto, num almoço na Sinagoga da cidade onde se serviu comida e vinho kosher (produtos e procedimentos que seguem o Torá, o livro sagrado dos judeus).

O encontro marca o início de "uma relação efetiva" entre os israelitas e os católicos do Porto, formalizada em setembro de 2018, com um protocolo assinado pelos responsáveis máximos das duas instituições. Este é o segundo ano em que os judeus apoiam causas sociais da Igreja Católica. O último protocolo entre as duas comunidades tinha mais de 500 anos.

A iniciativa partiu de Yigal Dias Benzion, presidente da Comunidade Judaica. "É um passo muito importante para a aproximação das duas comunidades." Queremos continuar com este relacionamento num clima de paz. Infelizmente, exemplos destes são raros. Este é também um exemplo para o mundo, estamos aqui com o coração aberto para mostrar a todo o mundo que a coexistência pacífica é possível. Este é o início", defende. Sublinhou que têm boas relações com outras comunidades, nomeadamente os muçulmanos. E repete que esta iniciativa "mostra a todo o mundo que em Portugal é possível a coexistência pacífica".

O bispo Manuel Linda, responsável pela Diocese do Porto, assegura que o objetivo não foi servir de exemplo, mas que não se importa de ter essa função. "Se o formos tanto melhor. Numa altura em que a Europa volta a ter algumas negatividades e uma delas é o antissemitismo, é importante contribuir para contrariar essas situações", disse no almoço, assegurando que as relações entre as duas comunidades estão solidificadas: "No que depender do nosso contributo, não haverá antissemitismo, como também a Comunidade Judaica não tem dimensão antirreligiosa católica."

Yigal Benzion está na direção da Comunidade Judaica há ano e meio, sensivelmente na mesma altura em que o bispo D. Manuel Linda assumiu os destinos da Diocese do Porto. Dois homens que defendem uma maior aproximação entre as diferentes religiões e que não negam que o seu pensamento teve influência para a assinatura do protocolo.

O bispo justifica o afastamento com resquícios da Inquisição, tempos que há muito foram ultrapassados. "Embora alguns responsáveis máximos das duas comunidades se tenham encontrado, nunca tivemos este envolvimento dos membros das comunidades. Isto não seria possível se não houvesse esta abertura, tem que ver também com o Papa Francisco, não nos devemos fechar em ódios perante o que se está a passar no mundo."

Acredita que a aproximação das duas comunidades é para continuar, tendo o arranque sido dado com o protocolo Global Project in the Fields of Culture and Religion. Compromisso que além dos apoios financeiros prevê a rodagem de quatro filmes, uma curta-metragem já concluída: The Nun's Kaddish, estando a ser rodado The Light of Judah. Será realizada mais uma curta-metragem, Sefarad, e 1618, que é o resultado dos outros três.

"Freiras kaddish"

As Freiras Kaddish conta a história de duas freiras franciscanas, possivelmente da Casa de Saúde da Boavista, no Porto, que acompanharam os últimos dias de Emil Oppenheim, um advogado e político judeu alemão, que passou os últimos anos no Porto, a trabalhar numa lavandaria. Morreu em 1982 e disse-lhes que gostaria que lhe fosse rezado o kaddish, oração judaica dita nos enterros.

Conta a curta-metragem que as freiras contactaram posteriormente o responsável da Comunidade Judaica na altura, Rudolph Lemchen, que fez a oração junto à campa de Oppenheim e que foi repetida por uma das freiras. Conclui o filme que "a longa história dos judeus em Portugal foi marcada por muitos atos de intolerância religiosa. Mas as freiras kaddish provam que houve certamente bonitos episódios de bondade cristã". A película tem sido exibida em privado, nomeadamente para o Papa Francisco, que enviou saudações à comunidade.

Um dos cheques deste ano foi entregue ao NPISA Porto. "Vai ajudar a resolver o problema e o drama dos sem-abrigo na cidade e que está a aumentar", agradece o padre Rubens Marques, da Paróquia Senhora da Conceição. Servem refeições desde 2009 e, recentemente, abriram um banco de roupa. A última contagem, em novembro, indicava 870 sem-abrigo, mas sentem que o número tem aumentado. Em novembro eram 460 em camas de emergência, 270 em casas abandonadas e 140 na rua.

O aumento das rendas da habitação na cidade será um dos problemas, até para as organizações que apoiam quem não tem teto. "Não se consegue dar rapidamente uma resposta, a Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo prevê que sejam retirados da rua em 24 horas, mas não é possível. As pensões onde eram colocados desapareceram ou foram transformadas em alojamento local ou os preços são inacessíveis", explica o padre Marques.

Os que mais facilmente vão parar à rua são homens, portugueses, entre os 45 e os 64 anos, com uma retaguarda familiar inexistente, baixas qualificações e competências profissionais, com comportamentos aditivos e doenças psiquiátricas.

A segunda instituição a receber um cheque de 7500 euros das mãos de Yigal Benzion foi a Casa Ozanam, um serviço de apoio à ação das Vicentinas, e este dinheiro vai para ajudar famílias carenciadas a comprar medicamentos.

Yigal Benzion e Manuel Linda visitaram os museus das suas estruturas na cidade, como o Palácio Episcopal, da Igreja Católica, em que Yigal apreciou sobretudo a arquitetura. O edifício que está aberto ao público (cinco euros a entrada) tem sobretudo quadros.

Já no Museu Judaico é contada toda a história da comunidade no país. D. Manuel tem dificuldade em destacar um só elemento, mas foi junto à Tora (livro sagrado dos judeus) que pediu mais explicações. Incluindo sobre a caixa de prata onde o livro é guardado e o ponteiro para acompanhar a leitura, uma vez que não se lhe pode tocar com as mãos.

Muitos sefarditas

O museu não está aberto ao público por questões de segurança, explica Michael Rothwell, da direção da Comunidade Judaica. Para já estão em reuniões com os responsáveis do Ministério da Administração Interna para encontrarem uma solução. Rothwell é um judeu que vive há 37 anos no Porto e diz que há cada vez mais judeus na cidade - atualmente na roda dos 400, de 20 nacionalidades. Explica que "o nosso crescimento tem que ver precisamente com os judeus sefarditas, o que se deve às alterações à lei da nacionalidade", publicada em julho de 2018. Espanha aprovou uma lei idêntica, mas que teve a duração de quatro anos.

Os sefarditas são os judeus que habitaram a Península Ibérica. Mas os que migraram para Portugal viviam sobretudo na Europa central e oriental, os asquenaze, nomeadamente na Alemanha e na Rússia. Aliás, os rabinos têm sido asquenazes, como o atual que está na cidade há 10 anos, Daniel Litvak. Mas, desde o ano passado tem também um rabino sefardita, Yoel Zekri.

O rabino Yoel Zekri vive no Porto há cinco anos, estuda Medicina Dentária e tem dois filhos. Os pais migraram para França, onde obtiveram a nacionalidade francesa. Saíram depois para Marrocos, mais tarde para a Argélia, acabando por regressar a Israel, onde Yoel fez os estudos superiores.

Voltou a França, onde viveu até vir para Portugal. "Eu e a minha mulher iniciámos a nossa missão a seguir ao atentado de Toulouse [a uma escola judaica em março de 2013], até que viemos para o Porto. É algo que gostamos de fazer: apoiar os judeus no sentido de preservarem a cultura." Pedir a nacionalidade portuguesa é uma possibilidade para a família.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG