Wanderlust: o desejo incontrolável de viajar*

Quem retomará as viagens primeiro, os que vão viajar em negócios ou os que vão viajar em lazer? Não se pense que a questão é simples. Tanto o turismo de negócios como o turismo de lazer abrigam vários segmentos e motivações, tipos de viajantes tão distintos quanto os destinos do mundo.

Mas todos quantos trabalham na indústria do turismo e a estudam são unânimes: o turismo de negócios vai demorar bastante mais tempo a recuperar, alguns segmentos (das grandes feiras e congressos gigantescos) mais do que outros, e esta indústria sofrerá mudanças definitivas.

Basta pensar em como nos tivemos de habituar a trabalhar a partir de casa, a um mundo de distanciamento social onde as tecnologias substituíram o escritório, para nos apercebermos de que as necessidades do encontro presencial, mais ainda se tal exige uma viagem, se tornaram bem menos evidentes.

Recordemos que a plataforma Zoom, provavelmente o software de reuniões online mais usado, só nos primeiros três meses da pandemia registou um acréscimo de dez milhões para 200 milhões de utilizadores. Quer isto dizer que o turismo de negócios desapareceu? Não, mas vai levar uma grande volta.

Para os tempos mais próximos, portanto, contemos com quem vai viajar por lazer. Por prazer, movido pelo desejo incontrolável de se ligar ao mundo, sair do confinamento, estar vivo e em relação com os outros.

A plataforma Airbnb divulgou recentemente as conclusões de um interessante inquérito que, apesar de feito ao público americano (a Airbnb tem a sua sede na Califórnia), servem para ilustrar o sentir de grande parte da humanidade que anseia por viajar. Do mesmo modo, a European Travel Commission também revelou o que irá mover, quem, como e para onde irão os viajantes logo que possam.

A primeira motivação é muito humana e íntima: o desejo de estar com a família e os amigos, recuperar a segurança e o prazer de nos religarmos. Daqui decorrem algumas consequências: as férias em família e em casal ganham claramente a primazia sobre as viagens com amigos ou sozinhos. Viajar para perto (a grande maioria dos americanos prefere destinos locais ou regionais, e um em cada cinco querem ficar à distância automóvel de casa; na Europa, a tendência é idêntica: viagens na região ou no país).

Outras tendências comuns: exige-se grande flexibilidade nas reservas (possibilidade de cancelamento e remarcação), mas também se manifesta maior flexibilidade na marcação das férias; a segurança e a saúde estão obviamente no topo das preocupações, mas o preço acessível é também um fator de escolha.

Há algo também que revela uma alteração interessante para os tempos que aí vêm: apesar do peso das plataformas online nas marcações das férias (na Europa, a Booking é a maior), os websites dos alojamentos estão em crescente procura e as agências de viagens estão a ser reconsideradas como um meio seguro nas circunstâncias atuais, por várias e compreensíveis razões.

Enfim, as viagens de negócios podem esperar. A tecnologia que nos permite ter reuniões virtuais ainda não nos permite ter férias virtuais. Felizmente!

* Do alemão wandern (caminhar, vagar) + lust (desejo)


VP executiva da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal

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