Votos úteis e outros esqueletos no armário

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Vem aí a última semana de campanha para as eleições presidenciais e, convenhamos, a grande questão a pairar nas reflexões da maioria dos portugueses até ao próximo domingo será quem queremos que se apresente contra André Ventura na segunda volta. Seja ele quem for, será o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República.

Por muita desconfiança que algumas eleições anteriores nos tenham criado em relação às sondagens, três coisas parecem evidentes para esta reta final da campanha: dos 11 candidatos na corrida a Belém, só cinco efetivamente têm hipóteses de chegar à segunda volta (André Ventura, António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, João Cotrim Figueiredo e Luís Marques Mendes, por ordem meramente alfabética); destes, André Ventura é o que mais consistentemente tem surgido nos cenários de segunda volta; simultaneamente, é também o nome que perde qualquer duelo dessa segunda volta. Um retrato que levará previsivelmente a última semana de campanha a ser dominada pelo tema do voto útil.

PSD e PS, respetivamente, farão um último esforço para unir os aparelhos e famílias ideológicas em torno das candidaturas de Marques Mendes e António José Seguro, respetivamente, mesmo que um entusiasmo coletivo seja missão impossível. As últimas sondagens têm mostrado uma mais bem-sucedida mensagem de Seguro como único contrapeso de esquerda viável, enquanto Mendes terá de se descolar da caricatura de muleta do Governo.

O almirante Gouveia e Melo, ultrapassado o calvário dos debates, esforça-se por reacender nas campanhas de rua a popularidade conquistada na campanha da vacinação contra a covid-19. Cotrim de Figueiredo tenta capitalizar ao máximo o seu rosto cool do neoliberalismo urbano. Abaixo disso, António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto enfrentarão ataques do exército do voto útil e a ilusória corrida pelo título de “campeão das esquerdas”, enquanto os restantes (André Pestana, Humberto Correia e Manuel João Vieira) ficarão felizes da vida com quaisquer minutos mais de exposição.

Para os eleitores - aqueles fora do universo Ventura - será uma semana a sobrepesar a utilidade maior da deslocação às urnas, entre a força das convicções e o efeito prático do voto. Quem achar intolerável um (ou mais) dos cenários entre Seguro, Gouveia e Melo, Cotrim ou Marques Mendes como Presidente, poderá optar por reforçar o voto útil nalgum dos outros nomes; quem não reconhecer diferenças substanciais entre estes quatro possíveis desfechos, sentirá que a utilidade maior do seu voto estará na fiel expressão das suas ideologias, mesmo que conscientemente minoritárias.

Em qualquer desses cenários, o mais certo é que o próximo Presidente fique já “eleito” no domingo. Mas isso também não retira toda a curiosidade à segunda volta: será interessante ver, nessa altura, quantos mais portugueses sairão do armário quando confrontados a escolher entre Ventura e engolir um sapo democrático. Ficaremos aí com uma noção mais exata da atual barreira sanitária.

Editor do Diário de Notícias

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