Voluntários solidários

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O país foi atingido por um forte temporal que ninguém conseguiu ignorar. As imagens que se sucedem, vindas de vários pontos do território, mostram destruição, perda e fragilidade. Mostram, acima de tudo, pessoas que precisam de ajuda imediata.

Este não é o tempo para contas políticas nem para ganhos laterais. É o tempo da solidariedade simples, da ajuda voluntária e desinteressada, sem holofotes nem agendas escondidas. A quem está no terreno, ou a comentar a partir dele, pede-se contenção.

Pede-se, em particular, que se resista à tentação de transformar a tragédia em palco político. Na maioria dos casos, essa contenção existe, é verdade. Mas também é verdade que há sempre quem confunda presença com protagonismo.

Mesmo sendo exceção, não deixa de ser revelador ver políticos, sejam autarcas, ex-autarcas, governantes ou antigos governantes, que em pleno contexto de aflição coletiva não resistem a misturar a ajuda com recados, críticas ou pequenas vinganças políticas.

Mas o problema não se fica pela política. O espaço mediático exige preenchimento constante e, por isso, multiplicam-se análises, balanços e contra-balanços ao plano do governo, às propostas da oposição, às intenções futuras. Tudo demasiado cedo, tudo fora de tempo.

Porque a verdade é simples. A intempérie ainda não acabou. Este é, antes de mais, o momento de acudir, de resolver, de proteger. E é isso que a maioria dos portugueses tem feito, com sentido de comunidade e responsabilidade. O resto virá depois. Infelizmente, já sabemos que virá. Já vimos este filme antes.

Fala-se também de ajuda internacional, como se fosse uma novidade ou um embaraço. Mas talvez o problema esteja noutro lugar. Todos os dias somos confrontados, através da televisão, com cheias, inundações e guerras, muitas delas perigosamente próximas, e habituámo-nos a reagir com segundos de empatia e um rápido esquecimento.

Na maior parte das vezes, não passamos disso. Talvez porque vivemos numa Europa cansada, sem liderança clara, sem rumo mobilizador. Um espaço onde o projeto comum parece ter perdido fôlego e onde valores como a solidariedade se foram diluindo na burocracia e na inércia.

Estamos ligados ao mundo como nunca estivemos, mas cada vez mais desligados de nós próprios. E essa contradição enfraquece-nos. Num momento em que nos preparamos para eleger um novo Chefe de Estado, convém perguntar que país queremos ser. Não se queremos continuar na Europa, mas que Europa queremos construir. E, antes ainda, que Portugal queremos defender.

Eu sei qual é o meu. Um Portugal solidário, fraterno, justo e livre. Livre da corrupção, sim. Mas também livre da demagogia fácil e do oportunismo travestido de preocupação.

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