Voltar ao oceano

Na semana que ora iniciamos, Lisboa será o centro do debate em torno dos oceanos. E são mais as interrogações do que as respostas que hoje gravitam em torno desse ativo - único, imenso e irreplicável - que são as águas salgadas que ocupam três quartos do planeta. A Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos é uma das campainhas que mais deveriam despertar o nosso Portugal, pois vivemos desde sempre paredes meias com o Atlântico, numa relação que raramente exponenciou o benefício mútuo.

Esta é uma conferência mais do que necessária, trazendo à evidência as inconsistências da ação internacional, mas também nacional. A começar logo pelo facto de ser apenas a segunda que as Nação Unidas organizam sobre o tema. A ausência de concertação internacional faz com que o chamado "alto-mar", que corresponde a cerca de metade da superfície do planeta, seja um espaço sem qualquer modelo de governação. Como seria de esperar, transformou-se para alguns em palco de exploração sem regras e para muitos em caixote do lixo. A continuar este estado de coisas, não consigo descortinar um futuro sustentável para a nossa casa comum.

Os problemas dos oceanos são conhecidos e repetidos até à exaustão. Degelo nos polos, subida do nível das águas, aumento da temperatura e alteração do ph, maior frequência de tempestades, alteração dos padrões de correntes, poluição, acidificação, perda de biodiversidade, pesca excessiva e desregrada, para referir os principais. Das soluções, ouve-se pouco e quase nada se faz, face à imensidão do problema. E do potencial, vai-se falando, mas apenas alguns executam, sempre numa lógica unilateral.

Exige-se um sinal inequívoco da nossa vontade política: corrigir rapidamente a insólita decisão de se ter acabado com o Ministério do Mar. E não voltar jamais atrás, pois assim ninguém nos levará a sério.

A saída, aqui como em quase tudo, é juntar as soluções ao potencial. Isto é, encontrar uma equação de criação e distribuição de valor em torno dos oceanos que, em simultâneo, resolva o passivo ambiental e atraia cientistas e investidores. Chamam-lhe Economia Azul, mas francamente tenho visto mais powerpoints do que ação.

Portugal teve, há cinco séculos, uma relação séria com o oceano. O nosso problema à data era a escassez de espaço. Bloqueado por uma Espanha quase sempre hostil, procurou o seu futuro na imensidão do oceano. Foi uma opção política, que requereu investimento, ciência e determinação. O tempo e muitos erros dissolveram esse desígnio. Nas últimas décadas, virámo-nos - e bem - para a Europa. Mas estivemos muito mal ao esquecer o chamamento do mar, dos seus recursos e do seu potencial. Iremos ainda a tempo de ser, como propõe Tiago Pitta e Cunha, numa excelente entrevista esta semana ao DN e à TSF, uma potência marítima daqui a 10 anos?

Pode parecer cruel, mas penso que sozinhos não conseguimos. Acompanhados, sim. De entre possíveis alianças estratégicas, vejo a Noruega, com o seu poderoso e desenvolvido ecossistema da economia oceânica, como a mais interessante, até porque seria mais complementar do que competidora. Mas para isso é preciso preparar uma proposta de valor séria, detalhada e irrecusável. São tantos os conceitos, as tecnologias, as experiências, os produtos e os serviços a criar, testar e desenvolver em torno do oceano, para as quais o mar português, na sua dimensão e diversidade, seria um laboratório indeclinável.

Exige-se, por fim, um sinal inequívoco da nossa vontade política: corrigir rapidamente a insólita decisão de se ter acabado com o Ministério do Mar. E não voltar jamais atrás, pois assim ninguém nos levará a sério.

Professor catedrático

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