Vitória, sim. Triunfalismo, não

Publicado a

Os resultados eleitorais são inequívocos: António José Seguro obteve uma expressiva e clara votação, é o novo Presidente da República com uma vitória que deve ser afirmada sem ambiguidades, nem relativizações. Seguro derrotou Ventura, duplicou a sua votação e venceu em todos os distritos e regiões autónomas.

Num contexto de crise social prolongada e num quadro de catástrofe, marcados pelo discurso insistente sobre a desmobilização cívica, a participação eleitoral significativa constitui um sinal político relevante. Demonstra que os cidadãos responderam e confirma que o adiamento das eleições teria sido um erro.

A lucidez política começa exatamente onde termina o alívio. A extrema-direita não foi neutralizada, foi contida - e isso é muito diferente. Ventura tenta transformar a derrota num novo impulso. O campo político que representa continua ativo, à espera da próxima oportunidade, alimentando-se dos fatores sociais e económicos que continuam por resolver.

Estas eleições expuseram a crise na direita portuguesa. Enquanto a esquerda e o centro-esquerda convergiram objetivamente em torno da candidatura de Seguro na segunda volta, a direita dividiu-se. Uma parte recusa a deriva autoritária e extremista, e percebe que pode ser engolida; outra aceita-a, normaliza-a e está disposta a segui-la com o fito de conseguir uma aliança parlamentar para governar.

É neste conflito que Ventura aposta: aprofundar a fratura, forçar a escolha, corroer o que resta da direita tradicional. A reconfiguração da direita deixou de ser uma hipótese teórica para se tornar um horizonte político concreto - e potencialmente o maior fator de instabilidade política nos próximos anos.

A linha de José Luís Carneiro, agora com Seguro como PR, poderá tender a convergir com o Governo, diluindo-se como alternativa. À esquerda, o cenário também não é simples. Volta a enfrentar o risco do abraço de urso, com o Partido Socialista a exercer uma pressão implacável nas próximas legislativas. Celebrar sem refletir - e sem corrigir rumo - pode sair caro.

Quanto ao novo inquilino de Belém, o sentimento de alívio da sua eleição não pode converter-se em indulgência. O pacote laboral será um primeiro teste decisivo: impedir a erosão dos direitos dos trabalhadores será determinante para medir a sua autonomia política. A reconstrução das zonas devastadas exigirá mais do que declarações. O Orçamento do Estado para 2027 - e o comportamento presidencial perante um eventual chumbo - constituirá outro momento de prova. Em política internacional, não se anteveem mudanças - e talvez aí resida precisamente o problema.

Permanece, entretanto, uma questão estrutural que continua a ser empurrada para segundo plano: o enfraquecimento progressivo do Estado Social. A extrema-direita alimenta-se da revolta legítima produzida por políticas neoliberais na Saúde, na habitação, no trabalho. Ignorar essa realidade é abrir ainda mais o espaço ao autoritarismo. A vitória presidencial só será politicamente consistente se for acompanhada de vigilância democrática e de uma resposta firme às desigualdades que alimentam o descontentamento.

Esta foi uma vitória necessária. Mas não encerra o ciclo político - abre uma nova fase, mais exigente. A consistência desta vitória dependerá não do entusiasmo do momento, mas da vigilância democrática e da capacidade de responder às desigualdades que continuam a corroer a sociedade portuguesa

Vereadora independente, Cidadãos Por Lisboa, na CML

Diário de Notícias
www.dn.pt