António José Seguro e André Ventura foram os grandes vencedores da primeira volta destas eleições presidenciais, as mais concorridas dos últimos 40 anos.Comecemos pelo candidato socialista. Seguro foi, talvez, a maior surpresa destas eleições. Começou por ser uma espécie de “patinho feio” do seu próprio partido, ao ponto de Augusto Santos Silva afirmar que não reunia os requisitos mínimos sequer para se apresentar a votos. Foi alvo de críticas por ser discreto e low profile e por, alegadamente, não apresentar ideias disruptivas para o país. Só faltou dizerem que não podia ser Presidente por ser demasiado sério e honesto. Porém, pouco a pouco, Seguro foi conquistando terreno nas sondagens, sobretudo a partir dos debates a dois, em que fez frente a Ventura de uma forma que surpreendeu muita gente. Em poucas palavras, Seguro venceu porque soube transformar em vantagens as suas alegadas desvantagens. Numa campanha eleitoral que ficou marcada por campanhas de má-língua, Seguro foi o único dos principais candidatos que se colocou acima de tudo isso, recusando entrar em bate-bocas quando ele próprio era visado. E, à medida que subia nas sondagens, o seu partido uniu-se gradualmente em torno da sua candidatura, beneficiando também do voto útil à esquerda e até de algum “centrão” que se desiludiu com Marques Mendes e que não se revia em Ventura e Cotrim.Ventura, por seu lado, teve também uma grande vitória, sendo que, para o líder do Chega, o que realmente está em causa não é a Presidência da República, mas sim a liderança da direita. O plano de Ventura não é levar o Chega ao Governo no curto prazo, mas sim federar as diferentes direitas em torno da sua pessoa. É ir a jogo e mostrar que é a única personalidade da direita que é verdadeiramente popular e que chega aos jovens e a milhares de pessoas que estão desiludidas com a política tradicional. Com Passos Coelho, líder natural da direita portuguesa, numa longa sabática, Ventura posiciona-se como o líder da nova geração.Neste contexto, as próximas semanas, até à segunda volta das presidenciais, serão muito interessantes do ponto de vista político. Ventura vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para tentar conquistar eleitores de Cotrim e Marques Mendes, se necessário moderando o seu discurso (como, aliás, já o começou a fazer de há algumas semanas para cá). Estarão os eleitores da AD e da IL disponíveis para se deixarem levar pelo canto das sereias? Provavelmente, alguns sim, porque até no adversário que tem pela frente Ventura teve sorte. Nada mais, nada menos, do que um antigo líder do PS, o que lhe permite agitar o papão do socialismo a um eleitorado que foge dele como o Diabo da cruz.Claro que o mesmo se pode dizer da sorte que Seguro tem em defrontar Ventura na segunda volta, uma vez que lhe permitirá conquistar votos num vasto espectro ideológico que vai do Bloco de Esquerda ao PSD e CDS. O que significa que a direita será o grande campo de batalha entre Seguro e Ventura nas próximas semanas, numa verdadeira campanha de hearts and minds.E o Governo? Até que ponto estes resultados constituem uma derrota para Luís Montenegro? A resposta a esta questão não é tão simples como parece à primeira vez. Por um lado, não deixa de ser uma derrota, na medida em que o primeiro-ministro e vários membros do seu Governo se empenharam pessoalmente na campanha de Luís Marques Mendes, juntamente com Cavaco Silva e outros pesos pesados do PSD. Pela primeira vez em mais de três décadas, o PSD não tem um candidato presidencial com hipóteses de chegar a Belém. E isto acontece sob a liderança de Montenegro.Por outro lado, a derrota não deixa de ser relativa, uma vez que ocorre num contexto em que o partido lidera o Governo e poucos meses depois de uma grande vitória nas autárquicas. É natural que muitos eleitores tenham concluído que era preferível não colocar todos os ovos no mesmo cesto. Em contrapartida, na perspetiva de Montenegro, uma vitória de Seguro na segunda volta será um mal menor. Diretor do Diário de Notícias