Uma segunda volta de esperança

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Escrevo às 21.00 horas desta noite eleitoral relativa à primeira volta das eleições presidenciais, com base apenas nas primeiras projeções.

Tudo indica que o candidato do centro-esquerda passará à segunda volta em primeiro lugar, seguido do candidato da extrema-direita (mais provável) ou do candidato do liberalismo radical (menos provável).

A ser assim, deixaria aqui cinco ideias principais.

A primeira é que Portugal e os portugueses deram a vitória ao candidato que defendeu a Constituição, o regime democrático saído da Revolução do 25 de Abril, e que manteve a elevação e a seriedade na campanha. Isso dá-me uma esperança no futuro do nosso país, num contexto nacional e internacional tão crispado, em que estamos rodeados de líderes extremistas, autoritários, xenófobos, ultraconservadores, antiprogressistas e anti-humanistas.

A segunda ideia é que, apesar disto, estas continuam a ser as eleições mais importantes da Democracia: na segunda volta joga-se a diferença entre a Democracia e o autoritarismo; entre o respeito pelos direitos fundamentais e a sua opressão; entre o progressismo e o conservadorismo atávico; entre o Estado Social e o ultraliberalismo individualista. Enfim, entre a decência e a indecência.

A terceira palavra é de preocupação pela relevância exagerada que as novas formas de comunicação através da internet, designadamente as redes sociais, assumem nas campanhas eleitorais, sobretudo entre os jovens. Hoje tem mais impacto fazer um vídeo cómico sobre um tema qualquer que nada tem a ver com o desempenho do cargo político em disputa do que afirmar ideias com postura institucional. Acrescem as campanhas de desinformação, as notícias falsas e o bullying que acontece nas redes sociais. E tudo isto contribui muito para a crise dos valores democráticos.

A quarta nota é para assinalar, deixando a análise para momentos ulteriores, as potenciais consequências destes resultados, sobretudo para o Governo, tendo em conta que o seu candidato, que claramente se “colou” às políticas governamentais, teve, tudo indica, um resultado muito abaixo do esperado. Não me surpreendia que ocorresse, em breve, uma remodelação ministerial.

Finalmente, uma última palavra de saudação a todos os candidatos democráticos, com uma referência especial a Catarina Martins, a única mulher candidata, muito bem preparada, que fez uma excelente campanha e honra as suas ideias.

Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS

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