Uma rentrée pouco promissora

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No meu texto da rentrée do ano passado, sob o título Das eleições nos EUA e outras incertezas no horizonte próximo, publicado na edição do DN de 6 de setembro de 2024, afirmei, logo no início, que o panorama internacional só poderia ser definido como “inquietante”. Previa que as crises e os conflitos se intensificariam ao longo do novo ano político. Também, as eleições presidenciais norte-americanas, que teriam lugar dois meses mais tarde, constituíam uma preocupação de enormes proporções. A campanha eleitoral refletia os profundos antagonismos existentes na cena doméstica norte-americana e, se Donald Trump saísse vitorioso, teríamos um agravamento das tensões e da instabilidade nos EUA e na arena internacional, bem como um reforço dos regimes autoritários e das ideias ultrarreacionárias, quer na Europa quer na Rússia de Vladimir Putin ou no Estado de Israel de Benjamin Netanyahu, entre outros. A inquietação que então manifestei era muito séria, mas ainda continha alguma esperança. 

Na rentrée deste ano, essa réstia de esperança no horizonte previsível é agora mais difícil de vislumbrar, sobretudo na nossa parte do mundo e mais latamente na comunidade das nações que dá valor à governação democrática, ao respeito pelos cidadãos e a uma cooperação internacional equilibrada. O abuso do poder, as apostas nas soluções armadas e no emprego da força em contextos de agressão e de violação da lei internacional, em vez da diplomacia e do recurso à Carta e aos mecanismos das Nações Unidas, e o desprezo pelos Estados e povos mais fracos, são os traços que estão a marcar o presente e a escurecer o horizonte. 

Devemos acrescentar ainda a competição acelerada entre as superpotências em matéria de Inteligência Artificial. Trata-se de uma luta sem tréguas e altamente confidencial pela supremacia, sobretudo entre os EUA e a China, tendo em conta que avanços significativos no domínio da IA abrem as portas para o alargamento e a consolidação da superioridade nas áreas económicas, militares e geopolíticas. A corrida tecnológica relacionada com a IA passou agora a ser um dos pilares fundamentais das relações entre as grandes potências, um novo terreno de enormes rivalidades, com altos riscos de conflitos.  

O caso da Ucrânia mostra claramente que a IA é fundamental para assegurar a soberania nacional e a legítima defesa. A ajuda com informações eletrónicas de alta precisão, os dados e as ligações fornecidas por sistemas de satélites como o Starlink, entre outros, a proteção contra os ataques cibernéticos russos, e não só, apoiada pela Microsoft, bem como por outras redes similares, a capacitação digital em drones de defesa e de ataque, tudo isto ao serviço da legítima defesa da Ucrânia, levam-nos a encarar a potência militar de um modo diferente. A maior ou menor força de um país está diretamente ligada à sua capacidade de utilizar a IA. 

Numa altura em que os países da Aliança Atlântica se preparam para despender somas dificilmente imagináveis em questões de defesa, recomendaria que uma grande parte desses dinheiros fossem investidos na revolução digital, na formação de quadros ligados às diferentes dimensões da cibernética e nas indústrias diretamente relacionadas com o desenvolvimento da IA. Assim se apanhavam dois coelhos com uma cajadada só: a utilização civil da IA, para o progresso e o bem-estar dos cidadãos, e a possível aplicação das novas tecnologias na defesa dos nossos valores e da nossa posição estratégica.  

Entramos, assim, no ano político 2025/2026 com desafios bem maiores e mais complexos que os existentes há um ano. As instituições e os árbitros das mediações pacíficas, e pautadas pelo respeito da lei internacional, como que deixaram de contar. 

As Nações Unidas, no que toca às contribuições obrigatórias relacionadas com o financiamento do seu trabalho político e de construção da paz, estão sem recursos e quase sem capacidade de intervenção, apesar de organizações com a credibilidade da Cruz Vermelha Internacional contabilizarem cerca de 120 conflitos armados ativos no mundo de hoje, o número mais elevado desde 1945. Os EUA e a China, que no conjunto representam quase metade do orçamento ordinário do Secretariado e das missões políticas e de paz da ONU, ainda não honraram as suas obrigações monetárias relativas a 2025. Este estrangulamento financeiro da ONU tem tendência para se agravar e conduzir a organização à irrelevância no que se relaciona com a sua principal razão de ser, a paz e a segurança internacionais.  

Para que não houvesse dúvidas sobre os perigos do futuro, a rentrée foi precedida por dois eventos inconcebíveis, exceto na mente megalómana de Donald Trump. Refiro-me à passadeira vermelha estendida a Vladimir Putin, a 15 de agosto, no Alasca e às subsequentes reuniões, um par de dias depois, entre Trump e uma delegação de alguns líderes europeus. Em ambos os casos, assistiu-se ao que seria inacreditável: Putin a fazer o que sabe fazer bem, passar a mão pelo ego de Trump e ganhar tempo para poder continuar a sua guerra criminosa contra a Ucrânia, sem nada ceder; e os dirigentes europeus a fingir aceitarem a ilusão de Trump, que uma reunião entre Putin e Zelensky é possível no curto prazo. Em ambos os casos, estamos perante uma rentrée sem coluna vertebral nem grandes sinais animadores. 

Conselheiro em segurança internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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