Uma frivolidade perigosa

Hoje, o peso de um mundo comum cada vez mais caótico rouba-nos a tranquilidade. É quando a nossa segurança pessoal parece esmagada por sombrias expectativas, erguendo-se como provável futuro coletivo, que mais necessitamos de um santuário onde possamos recuperar o equilíbrio e habitar na singularidade dos nossos corpos. Partilho com os leitores o bem que recebi de alguns dias de deambulação pelas praias que vão da foz do rio Ave, em Vila do Conde (onde é possível visitar a Casa-Museu José Régio), até à multitude de praias que da Póvoa de Varzim se estendem para Norte. Já em 1876, no seu delicioso livro, As Praias de Portugal-Guia do Banhista, Ramalho Ortigão dedicava uma particular atenção à vida balnear desta cidade. Segundo ele, em agosto e setembro, a Póvoa transformava-se numa enorme e cosmopolita "estalagem" onde se "albergam os romeiros" de todos as origens e estratos, incluindo o "poderoso comendador brasileiro, de camisa de bretanha anilada como um retalho de céu pregado no peito com um brilhante". Nos dias que por lá passei, as brumas só se dissipavam pela tarde, conferindo uma proteção contra o calor excessivo e a maldição dos incêndios rurais, oferecendo ainda o benefício da maresia e do iodo, e o prazer de um banho de mar em águas energéticas, e menos frias do que muitas vezes os viajantes do Sul imaginam.

O mundo mais vasto, todavia, não deixa de nos impor o seu império. A guerra na Ucrânia prolonga-se. A perspetiva não é a de negociações, mas a de uma contraofensiva ucraniana no Sul, com o apoio das novas armas fornecidas pelos EUA e países da OTAN. Como se isto não bastasse, as relações entre Washington e Pequim estão na sua pior fase de sempre, após a visita da Speaker da Câmara dos Representantes à Formosa, colocando em causa os compromissos assumidos pela própria política externa norte-americana desde a década de 70. É frequente nos EUA, administrações em perda de apoio eleitoral atiçarem conflitos externos para inverter as sondagens, mas arriscar uma guerra com a China para não perder a maioria na Câmara dos Representantes ultrapassa todos os limites da imprudência.

No seu já clássico estudo sobre as causas da I Guerra Mundial, o historiador Christopher Clark designava como "sonâmbulos" aqueles políticos comuns (não havia nenhum "monstro" do tipo de Hitler ou Estaline) que entre 28 de junho e 3 de agosto de 1914, por atos e omissões, conduziram ao longo calvário da Segunda Guerra dos Trinta Anos (1914-1945). No caso vertente dos nossos dirigentes eleitos, também eles gente mediana, empurrada pela invasão russa da Ucrânia para a tarefa de serem codecisores em vitais matérias bélicas, o problema parece-me residir mais na frivolidade intelectual do que no sonambulismo. Putin apostou numa cartada militar que não lhe correu bem. Mas isso não significa que tenha sido derrotado, ou que seja razoável apostar numa estratégia de "derrotar a Rússia", como é o mantra ocidental. A Rússia é um gigante bélico nuclear. Esta guerra trava-se ainda na Ucrânia, mas desde que o envolvimento da OTAN subiu para os níveis colossais atuais, passou a envolver quase diretamente as maiores potências militares do planeta. Como sair daqui? Ou as armas se calarão com tréguas, onde todos perdem alguma coisa, mantendo, todavia, a face para uma solução negociada mais duradoura. Ou se continua a arriscar, degrau a degrau, mergulhar numa tempestade de destruição que - depois de arrasar a Ucrânia - terá o planeta como limite.


Professor universitário

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