Uma estratégia nacional para um mundo incerto

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Após dias de incerteza e rumores, confirmou-se que as tarifas decretadas por Donald Trump são um instrumento negocial utilizado para obrigar os outros países a sentarem-se à mesa, no quadro de uma perspetiva transacional que permeia a forma de agir como a Administração norte-americana. Trump suspendeu por 90 dias as tarifas decretadas sobre as importações de países que manifestaram vontade em negociar novos acordos comerciais. Já a China, que prometeu “lutar até ao fim” contra as tarifas, não só ficou de fora como viu as “suas” agravarem-se para uns estonteantes 125%.

Esta será uma forma de contar a história do que aconteceu nos últimos dias. A outra será que Trump recuou, após o seu anúncio de uma guerra comercial contra o resto do mundo ter provocado um massivo sell off nos mercados acionistas e colocado em causa o apoio não só de grandes figuras do mundo empresarial que contribuíram para a sua eleição, como também de dezenas de milhões de norte-americanos que se encontram a poucos anos da idade da reforma e que, em meia dúzia de dias, viram evaporar na bolsa uma parte das suas poupanças. A venda em massa de dólares e de Obrigações do Tesouro dos EUA (as chamadas treasuries, tidas habitualmente como um dos ativos mais seguros do mundo) a que temos assistido nos últimos dias terá igualmente contribuído para a decisão, por exporem o que pode estar em risco no final do dia, leia-se, o chamado privilégio exorbitante do dólar. “Estamos a assistir a uma venda a preço de saldo de treasuries. Não via este tipo de movimentos e de volatilidade desde o caos da pandemia em 2020”, disse ontem um gestor de fundos à Bloomberg.

Mais uma vez, tal como costuma suceder com decisões surpreendentes de Trump, a explicação nunca é simples e haverá um pouco de verdade nestas e em outras explicações. Porém, de uma coisa não existem dúvidas, e é isto que nos deve prender a atenção enquanto país: os EUA querem redefinir a ordem internacional que promoveram após a II Guerra, bem como reverter o processo de globalização que, nas últimas décadas, foi determinante para a forma como vivemos no Ocidente e tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza em todo o mundo. Os EUA chegaram à conclusão de que o jogo que inventaram já não serve os seus propósitos e o futuro planeado por Trump será uma espécie de regresso à gilded age dos EUA do final do século XIX, com as suas elevadas tarifas aduaneiras e os seus magnatas.

Com isto, o mundo que conhecemos, em que tínhamos artigos de consumo baratos importados da Ásia, inflação baixa e juros reduzidos que permitiram a muitos milhões de famílias comprarem casas e outros bens a crédito, não irá acabar, mas muitas coisas deverão mudar, tanto a nível económico como social. A economia vai crescer menos e o mundo será mais instável. Mas haverá também oportunidades, como sempre sucede nas crises. A produção será menos eficiente, porque muitas empresas terão de suportar fatores de produção mais caros, mas a automação e tecnologias como a impressão 3D com Inteligência Artificial poderão ajudar a compensar esse facto. E se a indústria, de facto, regressar ao Ocidente, não vai voltar a ter o peso, em termos de ocupação da população ativa, que tinha nos anos 70, devido a essas tecnologias que permitem substituir o trabalho humano.

Para enfrentar este mundo que aí vem, Portugal precisa de mais do que simples pensos rápidos. Precisamos de uma verdadeira estratégia nacional para uma década, que seja subscrita não só pelos principais partidos, mas também pelas empresas e sindicatos.

Diretor do Diário de Notícias

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