A política - e a política portuguesa não é exceção - está cheia de exemplos de ideias preconcebidas que, de uma forma ou de outra, foram desmentidas nas urnas. Pedro Passos Coelho ia perder “de certeza” as eleições de 2015, por causa das medidas de austeridade aplicadas ao abrigo do programa da troika. Mas a AD ganhou as eleições, e foi preciso uma original Geringonça para que o PS de António Costa governasse, apoiado pelo Bloco e pelo PCP.Em 2022, na sequência de um Orçamento chumbado e sem o apoio dos dois partidos compagnons de route, o PS de Costa obteve uma surpreendente maioria absoluta nas urnas.Nas semanas de lançamento das eleições de maio do ano passado, não havia muitas sondagens a dar 60 deputados ao Chega, nem muitos analistas que arriscassem dizer que o partido de André Ventura ultrapassaria logo ali o PS em representação parlamentar. São exemplos de como as ideias feitas, em política, por vezes descarrilam e embatem na realidade. O regresso às eleições de 2016, 2022 e 2025 surge a propósito de uma noção que tem vindo a pairar sobre as eleições presidenciais do próximo domingo. Surgiu com a divisão das intenções de voto por quatro (e depois por cinco candidatos) - André Ventura, António José Seguro, Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo e João Cotrim de Figueiredo -, mas rapidamente se converteu numa “certeza”: a de que André Ventura até pode ganhar a primeira volta, mas na segunda perde contra qualquer um dos outros.. É, talvez, uma ideia que assenta mais nos desejos pessoais de quem comenta do que dados concretos. Para começar, a proximidade entre os candidatos que caracterizava as sondagens de há semanas começou a dar lugar a outro cenário. Na sondagem que o DN publica nesta edição, que distribui os indecisos, o primeiro classificado na primeira volta (André Ventura) surge com 24,7%, seguido de António José Seguro, com 23%. O terceiro e quarto candidatos mais votados, Cotrim de Figueiredo e Gouveia e Melo, estão a 9,8 pontos percentuais de diferença de Ventura. Ou seja, vê-se o voto a concentrar-se nos dois candidatos mais votados, possivelmente já com Seguro a recolher voto útil dos múltiplos candidatos da esquerda (apoiados pelo Bloco, PCP e Livre). Seguro pode estar a atingir um pico na primeira volta sem possibilidade de repetição na segunda volta.Ora a ideia de que Ventura perderia sempre na segunda volta assenta no pressuposto de que os eleitores que votaram no terceiro, quarto ou quinto classificados se uniriam contra o presidente do Chega. Não estou tão certo disso. Não há dados concretos e consistentes sobre como se distribui o voto de dois candidatos mais à direita (Cotrim e Marques Mendes) ou do segundo candidato mais antissistema, Gouveia e Melo. Mas a Ventura, basta que existam tantos que convergem para si como para Seguro, o candidato apoiado pelo PS.E se Henry de Montherlant tem razão - e “a política é [mesmo] a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros” -, então teremos na segunda volta um embate entre os que defendem apaixonadamente as ideias de Ventura e os que apaixonadamente as odeiam. Diretor-adjunto do Diário de Notícias